Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre o amor, a partir de casos reais.
Chamo-me David. Aos três meses fui entregue ao colo da minha avó materna, no Algarve, uma mulher que carregava o cansaço de duas vidas e ainda assim tinha espaço para mim. O meu pai tinha sido preso pouco depois do meu nascimento; a minha mãe partira para França, prometendo “arranjar trabalho e regressar”. Nunca regressou. Pelo menos, não enquanto eu ainda era criança.
Cresci naquela casa pequena, cheia de plantas, onde o sol entrava pelas persianas como se estivesse sempre atrasado para qualquer coisa. A minha avó fazia o melhor que podia — e, durante anos, isso foi suficiente. Mas os miúdos na escola perguntavam sempre pelos meus pais, e eu inventava respostas diferentes dependendo do humor: “Estão a trabalhar lá fora”, “Vêm no Natal”, “Não te preocupes, eles ligam todos os dias”. Mentiras ingénuas, que só mais tarde percebi que não enganavam ninguém.
Quando fiz nove anos, a minha avó já não conseguia cuidar de mim como antes. Mandaram-me para a casa da avó paterna, uma senhora que mal me conhecia mas que me recebeu como se eu fosse uma encomenda inesperada. Um mês depois morreu — e eu fiquei, mais uma vez, sem chão.
Aos dez anos fui institucionalizado. Passei por várias casas, cada qual com as suas regras, rotinas e silêncios. Não digo que tenha sido mau. Não digo que tenha sido bom. Digo só que aprendi a funcionar sem esperar nada de ninguém. Quando se vive assim, é raro haver desilusões… mas também é raro haver milagres.
Aos dezoito saí da instituição com uma mochila, um cartão de cidadão amarrotado e um vazio que me acompanhava como sombra. Voltei ao Algarve sem saber o que fazer da vida. Andava de praia em praia quando encontrei um grupo de malabaristas. Fiquei a ver horas a fio, fascinado pela leveza daquilo: era como se as mãos deles tivessem uma linguagem própria.
Comecei por imitar. Depois treinei. Depois treinei mais. E um dia reparei que conseguia fazer coisas que antes me pareciam impossíveis. O malabarismo deu-me o que nenhuma pessoa tinha conseguido dar: ritmo. Foco. Direção.
Viajei com amigos pela Europa, toquei em praças, dormi em parques, cozinhei em fogareiros improvisados, vivi com pouco — mas vivi. E foi numa dessas noites, sozinho numa estação de comboios em Hamburgo, que senti aquela velha pontada no peito: a pergunta que nunca desaparecera.
E a minha mãe?
Procurei o nome dela na internet. Amigos ajudaram. Fotos antigas surgiram. Perfis semiapagados. Rumores. “Trabalha aqui”, “pode estar ali”, “alguém a viu em Paris”.
Quando finalmente encontrei um endereço, o meu coração bateu como se tivesse oito anos outra vez.
Fui caminhando. Literalmente. De uma cidade para a seguinte, com a mochila às costas, convencido de que cada passo me aproximava de algo que tinha sido meu por direito, mas que me fora arrancado antes de eu perceber o que era perder.
Lembro-me de pensar: Ela vai abraçar-me. Vai pedir desculpa. Vai tentar recuperar o tempo perdido. Talvez me leve à Disneyland, como prometeu quando eu era miúdo. Talvez me leia uma história para adormecer.
Tinha 27 anos e ainda acreditava em milagres.
Quando bati à porta, a realidade abriu-a por ela.
A minha mãe estava tão magra que quase parecia outra pessoa. O cabelo desgrenhado, os olhos vermelhos, a casa num caos sufocante. Cheirava a álcool, a noites sem fim, a promessas falhadas. Ela olhou para mim como se eu fosse um cobrador de dívidas — não um filho que atravessou metade da Europa para a reencontrar.
— Ah. És tu… — murmurou, como quem finalmente reconhece um rosto antigo, mas sem saber que fazer com ele.
A minha garganta secou. Entrei. Quis abraçá-la, mas ela recuou dois passos, envergonhada ou perdida. Não sei.
Enquanto ela falava — frases soltas, desculpas vagas, memórias desconexas — eu só conseguia pensar:
Vim a pé para estar contigo. E estou a encontrar-te num buraco do qual nunca poderei tirar-te.
O vazio desse momento foi tão grande que parecia um eco a partir por dentro.
Não ficámos juntos nem meia hora. A certa altura percebi que não havia nada ali para resgatar. Nem dela. Nem de nós.
Saí devagar, fechei a porta atrás de mim e não voltei a contactá-la.
Hoje vivo numa carrinha adaptada, estacionada num terreno perto da praia. Para muitos é pouco. Para mim é casa. Tenho a liberdade que nunca tive: acordo com o mar, treino todos os dias, faço malabarismos até sentir o corpo leve e o espírito firme. Às vezes atuo para turistas, outras vezes para ninguém. Mas quando as bolas sobem e descem no ar, sinto que o mundo finalmente faz sentido.
Não tenho rendimentos fixos, nem certezas, nem uma família daquelas que aparecem nos anúncios. Tenho o que consegui criar com as minhas mãos, com o meu corpo, com a teimosia de quem se recusa a morrer por dentro.
E, por incrível que pareça, ainda sonho: um dia, talvez, fazer parte de um grande espetáculo. Não por fama — mas porque seria a prova de que, mesmo quando a vida começa torta, ainda é possível encontrar um ponto de equilíbrio.
A minha mãe continua perdida algures — talvez em França, talvez noutro lugar qualquer. E eu continuo aqui, inteiro, apesar das falhas dela.
Porque às vezes crescer não é seguir os passos de quem nos deu a vida.
É aprender a caminhar para longe deles — e mesmo assim continuar em frente.
Este conteúdo contou com a participação de inteligência artificial na sua elaboração.
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