Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre o amor, a partir de casos reais.
Chamo-me Micaela e há dores que não têm nome, só peso. Há feridas que nunca fecham, apenas aprendem a coexistir connosco. A minha tem 38 anos, a idade que carrego hoje, mas nasceu quando eu tinha 36 e despediu-se de mim quando mal sabia dizer “mamã”.
Sempre quis ser mãe. Era um desejo antigo, quase visceral. Mas cresci numa casa onde tudo era contado: a comida na mesa, a roupa herdada dos irmãos, os cadernos escoltados até ao último centímetro. Os meus pais eram humildes e fizeram o melhor que podiam por nós três. Nunca passámos fome, mas aprendi desde cedo que os sonhos custam dinheiro. Por isso, adiei o meu. Trabalhei, estudei, fiz horas extra, subi degrau a degrau até ter um ordenado que me permitisse dar aos meus filhos a vida que eu nunca tive.
Foi no escritório que conheci o Júlio. Ao princípio, éramos só colegas que trocavam piadas sobre o chefe e cafés apressados antes das reuniões. Eu achava-o divertido, ele dizia que eu era demasiado séria. A amizade instalou-se sem esforço: almoçávamos juntos, partilhávamos confidências, líamos os e-mails um do outro antes de serem enviados “para garantir que não havia asneiras”. Um dia, sem grande explicação, reparei que a forma como ele me olhava tinha mudado — e que eu já o procurava com os olhos antes de chegar. O primeiro beijo aconteceu numa saída de equipa que já ia longa, num estacionamento vazio onde nenhum dos dois teve coragem de fingir que não havia ali qualquer coisa maior.
Aos 35, senti o relógio a apertar. Disse-lhe que queria tentar engravidar. Ele sorriu, abraçou-me, e disse: “Vamos a isso.” Pouco tempo depois, veio a notícia que nos fez chorar abraçados na cozinha: eu estava grávida. A nossa Sara.
Os primeiros meses foram um caos delicioso. Noites em claro, fraldas intermináveis, cafés frios esquecidos no balcão, e uma sensação de amor tão grande que parecia impossível caber no peito. Sara era tudo o que eu tinha sonhado — e muito mais do que o que imaginara.
Mas aos 10 meses, o mundo parou.
Fomos ao pediatra porque ela estava mais pálida, mais cansada, tinha febre intermitente e uns hematomas que não condiziam com as quedinhas de bebé que estava a aprender a andar. Achávamos que seria apenas uma virose. O médico não achou. Pediu análises urgentes. Disse-nos para irmos “com calma” — mas o olhar dele dizia tudo.
No dia seguinte, recebemos o diagnóstico: leucemia linfoblástica aguda. É o tipo de cancro mais comum em bebés e crianças pequenas, disseram-nos. Apesar de ser agressivo, tem tratamento — quimioterapia, transfusões, vigilância apertada — e muitas crianças recuperam totalmente. Mas cada caso é um caso. E o da Sara era dos difíceis.
Entrámos num mundo que nunca imaginámos: corredores de hospital, palavras que doíam só de ouvir, máscaras, desinfetante, planos de tratamento colados na parede, dias de esperança e noites de terror. Víamos bebés sem cabelo, pais exaustos, e tentávamos não pensar que aquilo podia acontecer connosco.
Mas aconteceu.
Apesar de todos os esforços, da equipa médica extraordinária, dos tratamentos mais avançados, da nossa fé, da nossa força, Sara não resistiu. O cancro levou a melhor. E eu tive de fazer o impossível: despedir-me da minha filha. Segurá-la ao colo pela última vez. Beijar-lhe a testa e perceber que nunca mais a ia ver crescer.
Nenhuma mãe devia sentir esta dor. Nenhum pai devia passar por este luto. É um vazio que não se descreve — só se sobrevive.
O único raio de luz, o único, foi saber que o caso da Sara ajudou a ciência. A especificidade genética da leucemia dela permitiu avanços no estudo da doença. Protocolos novos foram testados, ajustados, e duas crianças tratadas depois dela sobreviveram graças ao que aprenderam com o caso da Sara. É pouco para quem perdeu um filho — mas é tudo para quem lutou para salvar outros.
Agora, só nos tínhamos um ao outro... Mas, menos de um ano depois, quando ainda vivíamos mergulhados no luto, recebi a notícia que nunca esperámos. Estava grávida, outra vez. Não tínhamos planeado. Nem sequer acreditávamos que fosse possível, depois de tudo o que o meu corpo passou.
Chorei. O Júlio chorou. Não de medo — mas de uma certeza silenciosa de que, de alguma forma, a vida sabia o que estava a fazer. Chamámos-lhe Luz. Porque foi isso que ela trouxe.
A dor da Sara nunca irá desaparecer. A saudade é eterna. Mas agora tenho duas filhas: uma nos meus braços e outra no meu céu. E vivo todos os dias para honrar as duas — a que ficou e a que partiu cedo demais.
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