Tenho 32 anos e sou virgem. Nem um beijo dei: «Há algo profundamente errado comigo...»

  • Redação V+ TVI
  • 12 nov, 11:17

Lembro-me da primeira vez que contei a um rapaz. Tinha 26 anos, e ele parecia diferente

Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre o amor, a partir de casos reais.

Chamo-me Catarina. Tenho 32 anos e nunca beijei ninguém. Nunca. Nem um beijo fugaz, nem um toque mais demorado.
Às vezes, quando digo isto em voz alta, o silêncio que se segue é tão pesado que quase me engasgo com ele.
As pessoas olham-me como se eu tivesse confessado um segredo vergonhoso, algo fora do normal, como se houvesse em mim uma falha invisível, mas evidente.
E eu própria, por vezes, penso: “Há algo profundamente errado comigo...”

Não sou feia. Pelo contrário, até me dizem que sou bonita. Tenho um bom trabalho, amigos, uma vida estável. Em todas as outras áreas da minha vida consegui ser bem sucedida.
Sou a amiga que ouve, a colega de confiança, a filha presente.
Mas quando o assunto é amor, o coração aperta-se e o corpo reage como se alguém tivesse acendido um alarme dentro de mim.
Já tentaram beijar-me. Já me aproximei de alguém. Mas, no instante em que sinto o outro demasiado perto, o meu corpo endurece, o coração dispara e a vontade é de fugir.
E fujo. Sempre fujo.

Não é medo do outro — é medo de mim. Do que sinto, do que não sinto, do que não consigo controlar.
Uma parte de mim deseja essa entrega, o toque, o gesto, a intimidade.
Mas a outra, mais forte, recua sempre.
Como se o simples ato de ser tocada fosse uma invasão irreversível.

Já tentei compreender. Fiz terapia, li livros, tentei exercícios de autoconhecimento.
A minha psicóloga diz que é um bloqueio emocional, uma forma de defesa que o corpo criou há muito tempo — talvez de algo que nem me lembro conscientemente.
Mas as sessões passam e eu continuo igual.
Não sinto que nada tenha mudado. Continuo presa. Continuo a mesma mulher que nunca conseguiu deixar ninguém aproximar-se verdadeiramente.

Lembro-me da primeira vez que contei a um rapaz. Tinha 26 anos, e ele parecia diferente — atento, doce, interessado em mim de verdade.
Quando lhe disse que nunca tinha estado com ninguém, o sorriso dele morreu devagar.
“Ah… ok. Não sabia. É só… uma grande responsabilidade, não é?”
E foi-se afastando, como se eu fosse um enigma demasiado complexo para decifrar.
Aconteceu o mesmo com outros. Uns fingem compreender, outros acham graça no início, mas acabam por recuar.
É como se, de repente, deixasse de ser uma mulher e passasse a ser um problema.

Não quero que sintam pena de mim. Só quero sentir o que toda a gente parece sentir naturalmente — a leveza de um toque, a ternura de um beijo, a entrega de estar com alguém sem medo.
Mas em mim, tudo é tensão.
O coração quer, o corpo nega.
E a cada tentativa falhada, a culpa cresce, o espelho devolve-me a mesma pergunta:
“O que há de errado comigo?”

Às vezes penso que talvez não tenha nascido para isso.
Que o amor físico não seja para mim, que o destino tenha outros planos.
Mas depois vejo casais na rua, mãos entrelaçadas, beijos distraídos, e sinto uma pontada de inveja — não pelo amor, mas pela naturalidade.
Porque para mim, o simples gesto de um beijo parece um abismo.

As minhas amigas dizem-me que estou a complicar, que é só deixar acontecer.
Mas não percebem.
Não é uma escolha. É uma prisão. Uma barreira invisível que me protege de algo que já nem sei o que é.
E quanto mais o tempo passa, mais alta essa barreira se torna.
Agora, aos trinta e dois, sinto que quem vier a seguir vai ver em mim não uma mulher, mas um obstáculo, uma história que dá medo de tocar.

Ainda assim, há momentos em que acredito que posso mudar.
Que um dia vou deixar o medo cair, devagarinho, e permitir que alguém entre sem me sentir em perigo.
Que vou deixar o corpo falar sem o travar, sem pensar, sem fugir, e viver, finalmente, o meu primeiro amor.

Mas até lá, continuo aqui — uma mulher inteira por fora e incompleta por dentro.
Uma mulher que deseja amar, mas que teme o toque.
Uma mulher que, no fundo, ainda acredita que o amor verdadeiro há de chegar.
E que, quando chegar, talvez — só talvez — consiga, finalmente, deixar-se beijar.

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