Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre o amor, a partir de casos reais.
Nunca pensei que um dia fosse admitir isto em voz alta — muito menos a mim próprio — mas apaixonei-me pela melhor amiga da minha mulher. Ou, como disse ao meu melhor amigo, com a voz a tremer: “Não consegui controlar-me…”.
Chamo-me Gustavo, e esta é a história da maior estupidez que fiz na vida. E também do arrependimento que agora me acompanha todos os dias.
Conheci a Margarida numa festa da faculdade. Ela estudava Psicologia, eu Engenharia Informática. Lembro-me da primeira vez que a vi: rabo de cavalo desalinhado, olhos escuros e vivos, riso fácil. Parecia caminhar pelo mundo com uma leveza que me deixava desconcertado. Falámos durante horas, como se já nos conhecêssemos desde sempre. Foi esse o princípio de uma história bonita — uma história que eu destruí.
Casámo-nos quatro anos depois. Alugámos um T2 num prédio velho mas acolhedor, com azulejos que rangiam no Inverno e uma varanda minúscula onde ela insistia em plantar ervas aromáticas que morriam sempre ao fim de um mês. E éramos felizes. Simplesmente isso: felizes.
A Marta entrou na nossa vida logo no início. Era a melhor amiga da Margarida desde o secundário — inseparáveis, cúmplices, irmãs escolhidas. Alta, extrovertida, cabelo sempre impecável, um sorriso que iluminava as salas onde entrava.
No início, eu e a Marta entendíamo-nos bem. Não éramos propriamente amigos, mas dávamo-nos. Ela jantava connosco, desabafava sobre o trabalho, ria-se das minhas piadas secas. Eu sabia que ela era uma presença indispensável para a Margarida, e até gostava disso. Fazia parte do pacote, digamos assim.
Tudo começou a mudar quando a Marta se divorciou.
Foi um divórcio difícil, feio, arrastado. O ex-marido era abusivo com ela e ela saiu da relação com a autoestima feita em pó. Passou a aparecer mais vezes lá em casa, às vezes só para se sentar no sofá e não ficar sozinha no apartamento vazio.
A Margarida era o apoio constante — e eu comecei a ser o segundo apoio, quase sem perceber como. A Marta falava-me muito, contava detalhes que não dizia à Margarida, dizia que comigo era mais fácil porque eu não julgava. Eu, idiota, confundi aquilo tudo com uma proximidade especial. Com importância. Com… algo que não era.
Não consigo apontar o momento exato em que comecei a sentir-me atraído pela Marta. Talvez tenha sido numa tarde em que fomos os dois buscar a Margarida ao trabalho, e ela me olhou de um jeito… diferente. Talvez tenha sido quando me agradeceu por a ouvir e pousou a mão no meu braço, demasiados segundos.
Ou talvez tenha sido só a minha fraqueza, disfarçada de circunstância.
Eu sabia que não devia. Sabia perfeitamente. Mas havia algo nela — fragilidade misturada com audácia — que me desarmava. Eu tentava afastar-me. Tentava não ficar sozinho com ela. Mas com o tempo, comecei a falhar nessas tentativas.
A primeira vez que nos envolvemos aconteceu numa noite em que a Margarida tinha viajado em trabalho. A Marta apareceu lá em casa com os olhos inchados, a maquilhagem borrada e um sorriso forçado que se desfez assim que entrou. Trazia um saco com uma lasanha congelada, como se fingir normalidade fosse suficiente para aguentar mais um dia.
Jantámos quase em silêncio. Ela mexia na comida sem comer, e eu percebia que estava a segurar as lágrimas como quem segura a respiração debaixo de água. Até que finalmente desabou. Chorou compulsivamente, encostando o rosto às mãos, e eu limitei-me a ficar ao lado dela no sofá, desajeitado, preocupado, a tentar encontrar palavras que não soassem ocas.
— Desculpa, Gustavo… estou um caco — disse ela, com a voz embargada.
Pousou a cabeça no meu ombro, como já tinha feito noutras vezes, mas naquela noite algo estava diferente. Talvez fosse a forma como os dedos dela se fecharam na manga da minha camisola, como se se agarrasse a mim para não se afogar. Talvez fosse o silêncio pesado que se instalou entre nós, um silêncio quente, carregado.
Eu devia ter-me levantado. Devia ter criado distância. Devia ter sido melhor do que fui.
Mas não fui.
O choro dela abrandou e, quando levantou a cabeça, estávamos demasiado próximos. Os olhos dela, ainda brilhantes de lágrimas, fixaram os meus de uma forma que nunca tinham fixado antes. Havia vulnerabilidade, sim, mas também algo que parecia pedido. Um pedido mudo, perigoso.
Ela pousou a mão na minha cara, devagar, como se estivesse a testar limites. Eu devia ter recuado, mas fiquei imóvel — ou talvez tenha sido eu a inclinar-me primeiro, já nem sei. A linha ficou tão ténue que até hoje não consigo determinar quem atravessou o quê.
Um toque levou a outro: o polegar dela a afastar-me uma madeixa da testa, a minha mão a pousar nas costas dela numa tentativa absurda de consolo que não era inocente.
Houve um instante suspenso, silencioso, em que tudo podia ter sido interrompido.
Depois, o beijo.
Breve, hesitante, quase acidental — mas suficientemente real para que não houvesse volta a dar.
O beijo roubado transformou-se num segundo beijo, mais firme, mais consciente. E ali, naquela sala onde tantas vezes rimos com a Margarida, deixámos de ser duas pessoas a partilhar tristeza e tornámo-nos cúmplices de algo que nunca devia ter acontecido. O coração batia-me no peito como se quisesse denunciar-me. O dela também.
Não houve nada de romântico ou cinematográfico. Não havia música de fundo, nem declarações, nem encanto. Havia a respiração descompassada dela, a minha culpa a crescer em cada gesto, a confusão a ditar decisões que nunca teriam sido tomadas em sobriedade emocional.
Foi impulso.
Carência.
Luxúria.
E uma solidão que, por segundos, pareceu partilhada.
Quando acordei no dia seguinte, o mundo estava igual, mas eu não. A luz a entrar pelas frestas das persianas fazia-me arder os olhos, como se expusesse tudo o que eu queria esconder.
O peso no peito era quase físico, uma pressão constante, sufocante.
Sabia que tinha cruzado uma fronteira que não se desfazia.
E percebi, pela primeira vez, que nunca mais ia conseguir olhar para a Margarida da mesma maneira — não por causa dela, mas por causa do que eu tinha destruído dentro de mim.
Mas continuou.
Claro que continuou.
Começámos a envolver-nos às escondidas. Só nós dois sabíamos, e cada momento de paixão deixava-me mais dividido, mais pequeno, mais indigno. A Marta dizia que precisava de mim. Que eu era a única pessoa que a fazia sentir viva. Eu queria acreditar nisso para justificar o injustificável.
Mas com o tempo, a Marta começou a querer mais.
Queria que eu deixasse a Margarida.
Queria que assumíssemos o que tínhamos.
Um dia, deu-me um ultimato:
— Ou ficas comigo ou acaba já aqui. Não aguento ser a outra.
E foi nesse instante que algo em mim se partiu.
Eu não a queria. Não daquela forma.
Percebi com uma clareza dolorosa que aquilo não era amor — era paixão, desejo, carência, fuga. A única pessoa que eu amava verdadeiramente era a Margarida. E eu tinha dado cabo de tudo com as minhas próprias mãos.
A Marta pôs o ponto final na nossa relação dias depois. Disse que nunca confiaria em mim, porque o que fiz com a Margarida podia fazer com ela.
E, pela primeira vez, percebi que ela estava certa.
Hoje, eu e a Marta não temos contacto. Não tentámos ser amigos — não dava, não faz sentido, e acho que ambos sabemos isso.
A Margarida… essa afastou-se de mim, assim que lhe contei toda a verdade. E fê-lo com uma dignidade que me mata por dentro. Não houve gritos, não houve escândalos. Apenas tristeza. Silêncio.
E uma porta que se fechou devagar.
Mas eu continuo a tentar. Não insisto de forma sufocante, não imploro, não faço promessas vazias. Só tento mostrar, com gestos pequenos e consistentes, que aprendi. Que mudei. Que a amo. Que a quero de volta em casa. Na nossa casa.
Talvez ela nunca volte.
Talvez sim.
Mas todos os dias acordo com a mesma certeza amarga:
A perdi porque não me consegui controlar.
Agora tento reconquistar a vida que deixei escorregar por entre os dedos.
E espero.
Espero por ela. Sempre.
Este conteúdo contou com a participação de inteligência artificial na sua elaboração.
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