Todas as semanas, publicamos um conto ficcional sobre o amor, a partir de um caso real
No ano 2000, eu tinha 12 anos e passei para o sétimo ano. Foi um ano de mudanças: mudei de casa, de escola e de turma. De repente, parecia que tinha deixado para trás tudo o que me era familiar. A nova escola era enorme, com corredores cheios de vozes desconhecidas. Havia novas rotinas, professores diferentes, colegas que eu ainda não sabia se seriam amigos ou apenas rostos de passagem.
No meio desse mundo que me parecia maior do que eu, lembro-me especialmente da Eduarda, a nossa professora de inglês.
Era novinha, tinha acabado de sair da faculdade e do estágio. Entrava na sala com passos leves, ágeis, como quem dançava ao ritmo da sua própria música. Usava jeans e botas da tropa, o cabelo ruivo emoldurado por uma franja, e t-shirts dos Nirvana que destoavam da rigidez académica à nossa volta. No corpo dela havia algo de rebelde, uma energia que não pedia licença — como uma chama a iluminar a rotina cinzenta das aulas.
Ensinava inglês com músicas que passavam na rádio. Pedia-nos para traduzir letras, explicava expressões através de refrões que ficavam colados na memória. Cada aula era uma janela aberta, uma lufada de ar fresco. Não era apenas uma professora, era quase uma amiga mais velha que nos guiava com liberdade e paixão.
Ficou connosco também no oitavo ano, acompanhando-nos até nas visitas de estudo, rindo e partilhando histórias como se também fosse estudante. Mas no nono ano saiu da escola. Nunca mais a vi.
A vida seguiu o seu rumo. Acabei o liceu, estudei Engenharia e entrei numa startup de informática. As coisas correram bem: aos 26 anos já estava na direção da empresa. Trabalhávamos sobretudo com o mercado estrangeiro, e por isso contratávamos regularmente cursos de inglês para os engenheiros. Durante algum tempo mantivemos a mesma empresa de formação, até que houve problemas e mudámos de fornecedor.
Num dia de chuva, fomos reunir com a nova empresa. Estava sentado à mesa, à espera, quando a porta se abriu. E vi-a entrar. Botas da tropa, jeans, a mesma franja ruiva — mas agora mais mulher, mais bonita, com a mesma energia rebelde de sempre, só que amadurecida. O coração disparou.
“Stora”, escapou-me logo, com um sorriso nervoso.
Ela riu-se sem perceber a quem me referia.“Sou o Vasco”, expliquei, “fui seu aluno no sétimo e no oitavo ano.”
Os olhos verdes dela brilharam, muito abertos, como se uma memória guardada tivesse regressado ao presente.
“Acho que me lembro de ti”, disse, inclinando a cabeça com curiosidade. “E o que estás aqui a fazer?”
Contei-lhe o meu percurso, rápido, como se quisesse mostrar que já não era apenas aquele miúdo tímido da escola.
Ela ouviu com atenção, e depois respondeu a sorrir, com um ar de orgulho tranquilo: “Eu agora sou a diretora da empresa que vem ensinar inglês.”
Foi um reencontro bom, inesperado. Fui para casa a pensar nela.
À noite jantei com uns amigos. Entre garfadas e risos, contei o episódio.
“Estás apanhado pela stora”, brincaram.
Eu ri-me.
“Viste se tinha aliança?”, perguntou um.
“Não tinha”, respondi de imediato.
Riram-se ainda mais. “Estás mesmo apanhadinho.”
E estavam certos.
Nos meses seguintes, voltei a encontrá-la muitas vezes. No início eram apenas conversas rápidas, trocadas à saída das reuniões. Mas havia sempre um brilho no olhar, uma curiosidade mútua que nos fazia demorar mais alguns minutos. Aos poucos, começámos a descobrir afinidades escondidas: livros que ambos tínhamos lido, músicas que nos marcavam, formas de ver o mundo que se entrelaçavam.
Ela tinha 38 anos, era culta, viajada, com histórias que me transportavam para lugares que eu só conhecia em mapas ou em fotografias de revistas. Cada palavra dela era como uma janela aberta para horizontes que eu ainda não tinha explorado. Ainda ouvia Nirvana e Pearl Jam, entre outras bandas novas que a mantinham conectada ao mundo jovem e rebelde que sempre a caracterizara. Eu estava encantado, preso ao timbre da sua voz, ao gesto firme e ao riso solto que iluminava qualquer sala.
Vieram então os almoços em dias de trabalho, os cafés roubados ao meio da tarde, as conversas que pareciam não ter fim. Não houve pressa nem planos: apenas a certeza de que algo maior nos puxava, silencioso mas constante.
Até que nos envolvemos de forma natural, inevitável — como se aquela rebeldia inicial, que me fascinara em adolescente, tivesse esperado pacientemente pelo momento certo de se transformar em amor.
Estar com ela intimamente foi incrível. Não apenas pelo corpo — ágil, seguro, marcado por aquela energia rebelde que eu sempre associei à sua presença — mas pelo encontro de mundos que até então tinham vivido separados. Foi como atravessar uma porta que sempre esteve entreaberta e, de repente, se escancarou. Havia ternura, havia paixão, havia a sensação de que estávamos a escrever juntos um capítulo que tinha começado muitos anos antes. Cada gesto parecia carregar a força de uma espera longa, e ao mesmo tempo a suavidade de algo que finalmente encontrava o seu lugar.
E hoje, a stora Eduarda já não é apenas a professora que me marcou na adolescência. É a minha Eduarda. A minha mulher.
Este conteúdo contou com a participação de inteligência artificial na sua elaboração.
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