Sou bom pai e ótimo marido. Mas este é o hábito que escondo da minha mulher: «Sinto muita culpa» - V+ TVI1224
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Sou bom pai e ótimo marido. Mas este é o hábito que escondo da minha mulher: «Sinto muita culpa»

  • Redação V+ TVI
  • 29 out 2025, 10:37

Sou o marido exemplar, o pai dedicado… e o homem que guarda este segredo

Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre amor, a partir de casos reais.

Chamo-me Joaquim. Tenho quarenta e sete anos e, de fora, a minha vida parece exemplar. Sou o pai que está sempre presente — o que acorda cedo para preparar o pequeno-almoço, que faz os lanches, que sabe o nome dos colegas da escola e os horários de treino de cor. Sou o que conduz de um lado para o outro, que vai aos torneios, que grita das bancadas, que ajuda a estudar matemática ao serão.

A Teresa, a minha mulher, é o coração da casa. É médica e trabalha todos os dias no hospital, muitas vezes em turnos longos e imprevisíveis. Mesmo assim, é ela quem organiza os fins de semana com amigos, as viagens em família, as festas de aniversário. É a alma das coisas simples: as velas acesas na mesa, o cheiro a canela quando faz a sua tarte de maçã, o riso fácil que enche as divisões. Juntos, somos o casal que todos admiram — os que nunca discutem em público, os que parecem ter descoberto a fórmula secreta da felicidade doméstica. Os amigos comentam, com um sorriso de inveja discreta, como conseguimos conciliar tudo, como mantemos a casa cheia de risos e projetos. Alguns até nos pedem conselhos, como se existisse uma receita que pudesse ser copiada, ignorando que cada gesto, cada cuidado, é fruto de anos de intimidade silenciosa e cumplicidade.

Mas há um espaço, pequeno e silencioso, onde essa imagem se desmancha. E esse espaço é o nosso quarto, num dia de teletrabalho, quando a casa fica vazia. É nesses dias — enquanto a Teresa está no hospital e os miúdos na escola — que o meu ritual começa. Fecho a porta devagar, como se o som pudesse denunciar-me. Vou até à cómoda da Teresa. Conheço cada gaveta de cor — a dos lenços, a das blusas, a da roupa interior. Abro-as com cuidado, quase com reverência, e deixo que o cheiro a perfume e sabonete se espalhe no ar.

Passo os dedos pelos tecidos: o cetim frio que arrepia a pele, o algodão leve que desliza suavemente entre os dedos, o toque quase líquido das saias que se movem com o ar. Sinto as rendas delicadas, quase etéreas, que se prendem aos dedos como se quisessem agarrar cada gesto; os tecidos finos, suaves, que parecem escorregar pelo corpo com uma leveza impossível de resistir. Pego numa camisa florida, macia, com cores que parecem dançar sob a luz, e sinto o peso do tecido enquanto a estendo sobre os ombros. Escolho cuidadosamente cada peça, calço os mesmos sapatos que ela usa, mas noto a diferença: os dela são delicados, quase etéreos, os meus quadrados, firmes, pesados, que alteram a postura de forma quase elétrica.

A maquilhagem espalhada na superfície o pó macio, a sombra sedosa, o batom cremoso — convida-me a explorar, a tocar e a aplicar cada produto em mim mesmo, sentindo a transformação que acontece a cada pincelada, cada gesto delicado. Visto-me devagar, como quem realiza um ritual sagrado, sentindo cada dobra, cada estiramento, cada contorno que transforma o meu reflexo. No espelho, quando a imagem se completa, sinto uma paz profunda e quase física, uma harmonia entre o corpo, a textura, o gesto e a minha própria identidade que raramente tem espaço para existir. Cada movimento, cada toque, cada fricção da roupa na pele acende uma sensação intensa, silenciosa, que me pertence só a mim, enquanto por instantes o mundo inteiro desaparece.

No espelho, quando a imagem se completa, sinto uma paz profunda e quase física, uma harmonia entre o corpo, a textura, o gesto e a minha própria identidade que raramente tem espaço para existir. Cada movimento, cada toque, cada fricção da roupa na pele acende uma sensação intensa, silenciosa, que me pertence só a mim. Não é uma questão de desejo, nem de vergonha — é algo mais fundo, mais difícil de explicar. É uma sensação de pertença, como se por baixo de tudo o que sou — o pai, o marido, o homem — houvesse uma camada secreta de mim que raramente tem espaço para respirar.

Depois vem a culpa. Olho-me outra vez, e a imagem muda. Sinto-me ridículo, errado. Penso na Teresa. No que ela diria se entrasse naquele momento. Imagino-lhe o rosto — não de raiva, mas de espanto. E a ideia de lhe magoar a confiança é pior do que qualquer julgamento.

Por isso arrumo tudo. Dobro as roupas com o mesmo cuidado com que as escolhi. Limpo os vestígios da maquilhagem. Volto ao computador, às reuniões, às planilhas, à normalidade. Os amigos diriam que sou exemplar, os pais da escola que sou dedicado, os colegas de trabalho que sou disciplinado e confiável. Todos os que me conhecem imaginariam uma vida perfeitamente alinhada, sem sombras, sem segredos, sem o peso silencioso de um desejo que não se revela. Ninguém desconfiaria do que se esconde entre gavetas e espelhos, do ritual que se repete nos dias vazios, quando a casa parece finalmente minha, mas de um modo que ninguém jamais poderia compreender.

E quando à noite ela chega, beijo-a. Ela sorri, fala do dia, conta-me uma história engraçada dos miúdos, os pequenos detalhes que só um lar vivido conhece — uma queda sem gravidade, uma vitória inesperada, uma frase repetida que nos faz rir. E eu respondo, atento, presente, como sempre, ouvindo cada palavra, participando da conversa, rindo com ela, abraçando-a como se nada mais existisse para além da nossa rotina perfeita. Sou o marido perfeito. Sou o pai dedicado.

Mas, dentro de mim, há um segredo que vive entre gavetas e espelhos, silencioso e persistente. Um hábito escondido, talvez uma parte de quem sou — a camada que se esconde sob o uniforme de normalidade que todos conhecem — e que ainda não aprendi a aceitar por completo. Sinto-o pulsar quando fecho os olhos à noite, sinto o peso da contradição entre o que mostro e o que guardo, e por vezes quase me pergunto se algum dia conseguirei reconciliar os dois mundos. Um mundo público, admirado, repleto de aplausos silenciosos e confiança cega; e um mundo privado, íntimo, secreto, onde me reconheço de verdade, mas sem ninguém para partilhar.

 

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