Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre amor, a partir de casos reais
O meu nome é Inês. Tenho trinta e nove anos e uma história que não conto a quase ninguém. Digo que sou reservada, mas no fundo é medo. Medo do olhar dos outros, medo do julgamento, medo de me ver refletida na imagem que o mundo construiu para as mulheres como eu — a outra, a amante, a sombra. Mas eu sou mais do que isso. Sou feita de dúvidas, de gestos pequenos, de uma necessidade antiga de me sentir viva. Não acordo de manhã a pensar em destruir famílias ou roubar maridos. Acordo, simplesmente, a tentar sobreviver a um amor que nunca me pertenceu por inteiro.
Conheci o Ricardo no trabalho. Foi há muitos anos, mas lembro-me como se tivesse sido ontem. Ele era um homem sereno, com uma presença calma e uma forma de estar que impunha respeito sem precisar de erguer a voz. Tinha essa gravidade tranquila dos homens que viveram muito e aprenderam a escutar mais do que a falar. Eu, ao contrário, era inquieta, curiosa, cheia de vontade de aprender, de provar tudo o que a vida me oferecesse. Gostava de o ouvir. As suas palavras pareciam vir de um lugar seguro, de um mundo que eu ainda não conhecia. E, talvez por isso, comecei a admirá-lo. No início era apenas isso — admiração. Um fascínio silencioso por alguém que parecia ter todas as respostas.
Durante três anos fomos apenas colegas. Riamo-nos nos corredores, trocávamos olhares cúmplices nas reuniões, conversávamos sobre coisas banais — séries, livros, política. Havia entre nós uma harmonia estranha, como se partilhássemos um segredo que ainda não tinha sido dito. Depois o tempo separou-nos. Eu mudei de empresa, ele também. A vida seguiu o seu curso. Achei que nunca mais o veria.
Mas o destino tem o hábito cruel de regressar quando menos esperamos. Encontrei-o num congresso profissional, em Guimarães. Estávamos ambos diferentes, mais maduros, com outras rugas e talvez menos ilusões. Lembro-me de o ver a atravessar o átrio do hotel e de sentir um arrepio. foi um reencontro bom. Não era paixão, nem sequer desejo — era um reconhecimento, como se uma parte de mim tivesse estado à espera dele sem saber. Pareceu-me cansado. Mais magro, o olhar mais baixo. Ao jantar, sentámo-nos lado a lado e, pela primeira vez, falou-me dele — não do trabalho, mas do homem que era.
Abriu-se e sem saber como falou-me da sua vida privada. Disse-me que o casamento estava frio, que vivia numa casa onde o silêncio tinha tomado o lugar da ternura. Falou com uma honestidade que me desarmou. Contou que estava separado de facto, que dormiam em quartos diferentes, que já tinha pensado muitas vezes no divórcio, e que faltava apenas encontrar o momento certo para formalizar a separação. Falava como quem procura ar depois de demasiado tempo debaixo de água. E eu ouvi. Senti que estava a ouvir algo sagrado e perigoso ao mesmo tempo.
No dia seguinte houve uma greve de comboios. Ficámos presos em Guimarães. Lembro-me de pensar que a vida, às vezes, prega partidas demasiado precisas para serem acaso. Acabámos a jantar sozinhos num restaurante com luz de velas. Falámos até tarde, sobre tudo e sobre nada, e a distância entre nós foi desaparecendo devagar, como o nevoeiro a ceder ao sol. Quando me tocou na mão, percebi que o mundo inteiro podia caber naquele gesto. Nessa noite ficámos juntos — partilhámos o mesmo quarto, a mesma cama, o mesmo amor. A manhã apanhou-nos juntos na mesma almofada de mãos dadas.
Voltei para Lisboa com o coração em sobressalto. Confesso: fui eu quem o perseguiu. Queria vê-lo, ouvir a voz dele, prolongar aquela intimidade que me queimava por dentro. Escrevi-lhe, liguei-lhe, inventei desculpas. Ele hesitou, resistiu, e depois deixou-se levar. Continuava a dizer que o casamento estava a acabar, que já não havia amor, que tudo o que restava era rotina e pena. Disse-me que a separação era inevitável, que a mulher também sabia, que faltava apenas encontrar o momento certo para formalizar o divórcio. Acreditei. Quis acreditar. É mais fácil acreditar numa promessa que nos salva do vazio.
Os meses transformaram-se em anos. E, já passaram quatro anos desde aquele reencontro. Quatro anos a viver entre o desejo e o arrependimento, entre a esperança e o medo. Quatro anos de telefonemas apressados, encontros roubados, esperas longas. Às vezes sinto que a minha vida cabe no espaço entre uma mensagem dele e o silêncio que se segue. Ele diz que me ama, e eu acredito — mas já não com a mesma força de antes. Há amor, sim, mas há também cansaço. Há ternura, mas há também ausência. Ele pertence a outro mundo, a outra casa, e o que temos vive apenas nas horas em que o relógio parece parar.
O Ricardo é um homem bom. E talvez seja isso o que mais me prende. Não o vejo como um vilão — vejo-o como um homem dividido, como alguém que tenta salvar tudo ao mesmo tempo: a mulher, os filhos, a imagem, e, de algum modo, também a mim. Mas ninguém pode amar em tantas direções sem se perder. Ele vive preso à ideia de que, se se mantiver imóvel, não magoará ninguém. O problema é que a imobilidade também destrói. E eu sou a primeira a ser esmagada por ela.
Já tentei ir embora. Várias vezes. Bloqueei o número, apaguei mensagens, prometi a mim mesma que o tempo curaria tudo. Mas depois basta um gesto — um telefonema inesperado, um “tenho saudades tuas” — e volto. Volto porque o amor, quando é proibido, cria raízes fundas. Cresce no escuro, alimenta-se do que falta, torna-se parte do corpo. Eu sei que mereço mais. Sei que a minha vida parou à espera de um homem que nunca vai chegar inteiro. Mas também sei que o amor não obedece à razão.
Tenho trinta e nove anos e uma espécie de cansaço que não se vê, mas se sente em cada respiração. Às vezes acordo no meio da noite e imagino como seria a vida se ele tivesse escolhido ficar comigo. Penso nas manhãs a dois, no pequeno-almoço partilhado, nas rotinas simples — e, logo depois, lembro-me de que tudo isso pertence a outra mulher. Às vezes invejo-a, outras vezes tenho pena dela. Porque, no fundo, sei que o homem com quem ela dorme é metade meu e metade dela — e talvez já não pertença por inteiro a ninguém.
Sim, sou a outra.
Mas, dentro deste nome que me deram, há uma mulher inteira, com sonhos, medos e uma solidão que às vezes me sufoca. Não quero ser heroína nem vítima. Quero apenas ser compreendida. Amar alguém que não nos pertence é como tentar abraçar o nevoeiro: parece possível até nos apercebermos de que nada fica nas mãos. E ainda assim, repito o gesto. Porque há amores que, mesmo condenados, são o único lugar onde sabemos existir.
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