Como se esquece um grande amor? «Ele fez-me tanto mal» - V+ TVI1224

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Como se esquece um grande amor? «Ele fez-me tanto mal»

  • Redação V+ TVI
  • 26 out 2025, 09:06

E, finalmente, consigo vê-lo como ele foi

Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre amor, a partir de casos reais

No amor há encontros felizes e encontros que nos quebram de tal forma que parece impossível algum dia levantar-se. O meu com o Joel foi dos segundos. Olho para trás e vejo a minha vida dividida em “antes dele” e “depois dele”, e não há nada no meio que faça sentido.

Trabalhámos na mesma estação de televisão. Eu, uma jornalista casada, com duas filhas pequenas, preocupada com a rotina, com os horários, com os jantares sem surpresas; ele, subdiretor, o tipo de homem que ocupa o espaço com a sua presença antes de abrir a boca. Tinha uma autoridade natural — não precisava levantar a voz para que todos o ouvissem. Conhecia ministros, empresários, os nomes que faziam e desfaziam o país. Fumava demais, usava camisas brancas de punhos gastos, tinha o cabelo já grisalho e aquele ar cansado dos homens que viveram depressa demais. Quando passava, deixava atrás de si um rasto de fumo e coisas maiores, e todos pareciam querer ser vistos por ele. Eu também.

A redação era o seu território: o som dos teclados, o cheiro a café requentado, os monitores com as notícias em rodapé — e ele no centro de tudo, a decidir o que merecia ser contado. Quando falava comigo, inclinava-se ligeiramente, como se o resto do mundo deixasse de importar. Nunca me olhou como se eu fosse uma subordinada. Olhava-me como se me conhecesse de sempre. Talvez tenha sido isso. Ou talvez tenha sido apenas o facto de ele ver em mim algo que nem eu via há muito tempo.

Não sei bem quando começou. Talvez num desses serões em que ficávamos sozinhos a rever textos, entre cigarros e copos. A verdade é que, com o Joel, senti-me outra. Sentia-me inteligente, sedutora, viva. No meu casamento tudo era previsível — as mesmas conversas, os mesmos gestos, o mesmo silêncio confortável que com o tempo se tornou ausência. Com ele, cada minuto era uma promessa. Com o Joel, eu não era apenas a jornalista tímida, a mãe responsável. Eu era alguém. Um ser visto, desejado, ouvido. Apaixonei-me, e a paixão instalou-se como uma febre. Traí o meu marido. Divorciei-me. Deixei tudo para trás, acreditando que o que vinha a seguir seria extraordinário.

A vida com o Joel era como estar dentro de uma tempestade disfarçada de luxo. Havia jantares que começavam por volta das dez e terminavam quando o dia já nascia. Reuniões de trabalho que pareciam festas, decisões tomadas à mesa de restaurantes caros, risos demasiado altos, copos que nunca ficavam vazios. Nos bastidores, falava-se de poder, de influências, de escândalos prestes a rebentar. O Joel era o centro desse redemoinho, e eu orbitava à sua volta, fascinada. Comecei a beber mais. Um dia, ele passou-me uma pequena linha branca sobre um espelho — “para aguentar o ritmo”, disse. Eu hesitei, mas fiz. Gostei. Tudo parecia mais nítido, mais rápido, mais fácil. A adrenalina, o sexo, o brilho das luzes — tudo se confundia. Eu achava que estava a viver. Não percebia que estava a afundar-me.

Com o tempo, os excessos começaram a mostrar-se. O Joel tinha um temperamento imprevisível. Havia noites em que era o homem mais carinhoso do mundo — dizia que eu era o seu porto de abrigo, que só comigo conseguia ser verdadeiro. E havia outras em que se tornava frio, distante, cruel. Gritava comigo por coisas pequenas: um telefonema não atendido, um olhar trocado com alguém no jantar errado. Chamava-me nomes, empurrava-me, e depois jurava que não voltaria a acontecer. Eu acreditava. Sempre. Era uma espécie de vício: quanto mais me magoava, mais eu achava que o amava.

Deixei de ver as minhas filhas. Deixei de ver os meus pais. Deixei de me ver. A minha vida girava à volta dele. Quando ele saiu da estação, zangado com todos, bati a porta também, como quem prova lealdade. Só que ele foi rapidamente contratado por uma concorrente, num cargo ainda mais alto. Eu fiquei na prateleira. Sem trabalho, sem rumo, sem nome. Passava os dias na cama, entre garrafas e recordações. Às vezes ele aparecia, eufórico, cheio de planos e presentes. Um relógio, um vestido, um jantar caro. Prometia-me um futuro que nunca vinha. E depois desaparecia outra vez.

Até que, um dia, morreu. Um ataque cardíaco fulminante, no escritório novo. Sem aviso, sem despedida. Os jornais chamaram-lhe “um homem de coragem”, “voz firme do jornalismo”. Os colegas lembraram o seu talento, a sua visão, o seu génio. Ninguém falou do Joel que eu conheci — o que gritava, o que batia, o que me arrastou para o abismo. Teve funeral quase de Estado, coroas, discursos. Eu fui. Fiquei ao fundo, entre rostos que me ignoravam. Era como se nunca tivesse existido. Ele era o herói. Eu, apenas um fantasma.

Depois disso, restou o silêncio. Um silêncio pesado, quase físico. A culpa misturada com o luto, a vergonha misturada com a saudade. A minha casa era um espelho do que eu tinha perdido: as fotografias das minhas filhas, o quarto vazio, o cheiro a cigarro que parecia não querer sair das paredes. Foi o meu ex-marido — o homem que eu tinha traído — quem me salvou. Apareceu um dia à porta, trouxe-me de volta à vida com gestos simples: uma sopa quente, uma conversa calma, a mão firme no meu ombro. Não me julgou. Apenas ficou.

As minhas filhas voltaram, devagar. Primeiro com medo, depois com ternura. Eu fui voltando também. Aprendi a cozinhar outra vez, a ver televisão, a dormir sem comprimidos. A viver com o que sobrou.

Hoje, ainda me pergunto: como se esquece um grande amor?

A resposta é que não se esquece. Aprende-se a sobreviver-lhe. Aprende-se a respirar sem ele, a existir sem o reflexo do que fomos. Aprende-se que o amor pode ser uma forma de destruição — e que sobreviver a ele é, por si só, uma forma de renascer.

O Joel foi o meu grande erro e o meu grande vício. Foi a paixão que me elevou e a ruína que me consumiu. Mas agora, quando penso nele, já não dói. Resta apenas o eco do que foi, e o alívio de saber que finalmente voltei a ser eu. 

Não se esquece. Aprende-se a sobreviver sem ele, a respirar sem depender de alguém que nos destruiu e encantou na mesma medida. Aprende-se que o amor pode ser devastador e que, por mais que doa, é possível erguer-se e reencontrar a própria existência. O Joel foi meu grande erro, meu grande vício, a minha grande perda.

Mas, finalmente, consigo vê-lo como ele foi — alguém que me amou e me feriu, alguém que fez parte da minha vida sem me permitir ser inteira. E é isso que se aprende a carregar: a memória do que foi, e o alívio de já não ser.

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