O meu irmão vai deixar a mulher porque ela se desleixou: «Eu quero viver, e ela... desistiu» - V+ TVI1224
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O meu irmão vai deixar a mulher porque ela se desleixou: «Eu quero viver, e ela... desistiu»

  • Redação V+ TVI
  • 10 nov 2025, 10:18

Às vezes, o que se perde não é a pessoa, mas a vontade de vê-la

Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre o amor, a partir de casos reais.

Sou a Carolina, e às vezes penso que o amor tem uma data invisível de validade — não porque acaba, mas porque se transforma ao ponto de já não sabermos reconhecê-lo. O Tomás, o meu irmão, anda convencido de que o casamento dele chegou a esse ponto. Diz-me que a Ana Isabel se “desleixou”, como se o verbo bastasse para explicar o que se perdeu entre eles.

Conheci a Ana Isabel quando ela tinha vinte e poucos anos — uma mulher cheia de luz, que falava com as mãos e ria como quem respirava. Tinha madeixas loiras que brilhavam ao sol e um guarda-roupa cheio de cores vivas, como se o corpo fosse extensão do que sentia por dentro. Entrava numa sala e mudava o ar, tornava tudo mais leve. O Tomás, que sempre foi metódico e fechado, parecia outro ao lado dela. Ria mais, falava mais baixo, olhava o mundo com um tipo de doçura que nunca lhe conheci antes.

Eles estão casados há dez anos. Dez anos de filhos, contas, rotinas que se repetem, noites curtas e dias longas. E, com o tempo, a Ana Isabel foi ficando mais calada, mais cansada, como se cada dia lhe pedisse um pouco da cor que antes vestia. Engordou — primeiro um pouco, depois mais — e o corpo foi perdendo a forma que antes tanto lhe elogiavam. As roupas vibrantes deram lugar a calças de ganga gastas e camisolas largas, o cabelo, antes cuidadosamente solto, vive agora preso num rabo-de-cavalo apressado. O Tomás chama-lhe desleixo. Eu vejo outra coisa — vejo a consequência de anos de entrega sem retorno, de cansaço acumulado, de alguém que gastou toda a energia a cuidar dos outros e se esqueceu de reservar um pouco para si.

O Tomás vai ao ginásio, fala de disciplina, de vitalidade, de “não deixar que a vida o consuma”. E eu percebo a inquietação dele — esse medo que chega aos quarenta, o susto de se ver a envelhecer. Mas também vejo a cegueira com que julga a mulher. Ele quer de volta a Ana Isabel de antes, mas não entende que ela não deixou de ser quem era — apenas mudou de pele.

Nos últimos tempos, noto que a Ana Isabel fala pouco, mas observa tudo. Quando o Tomás está por perto, ela parece diminuir de tamanho, como se tentasse ocupar menos espaço. Um dia, enquanto tomávamos café, confessou-me: “Já nem sei o que é ter alguém a olhar para mim com vontade.” Disse-o com um sorriso pequeno, desses que se fazem para disfarçar lágrimas. Nesse instante, percebi que o que ela sente não é apenas tristeza — é solidão. E há solidões que doem mesmo quando se dorme acompanhada.

E eu? Eu não sei como ajudar.
Cada conversa com ela termina num silêncio pesado, num olhar que pede compreensão e não palavras. Tento encorajar, sugerir pequenas mudanças, qualquer gesto que a faça sentir-se mais ela mesma, mas sinto que tudo é insuficiente. Qualquer coisa que eu diga ou faça parece desaparecer frente à dor e ao desgaste que o casamento acumulou.

Há uns dias, o Tomás veio cá a casa. Trouxe aquele ar sério de quem já decidiu. Sentou-se à mesa, cruzou os braços e olhou para mim como se precisasse que eu o absolvesse antes mesmo de falar.
— Carolina, isto acabou. — disse, sem rodeios. — Eu não quero viver mais ao lado de uma pessoa que se desleixou. Não há conversa que mude isso.

Fiquei em silêncio.
Ele continuou, com um tom quase prático, como quem faz uma lista de tarefas:
— Já não é só o peso, é tudo. A forma como ela se veste, como fala, como vive. Eu chego a casa e sinto que estamos em mundos diferentes. Eu quero viver, e ela... desistiu.

As palavras dele ficaram suspensas no ar, como se ecoassem por dentro de mim. Quis dizer-lhe que o amor não se mede por quilogramas nem por roupa velha. Quis gritar que ninguém se “desleixa” por escolha — que às vezes o cansaço é tão fundo que o corpo simplesmente desiste de acompanhar a alma. Mas não disse nada. Apenas o olhei, e ele desviou o olhar, talvez por um instante a sentir vergonha da própria dureza.

O Tomás não percebe isso. Continua a procurar fora o que, no fundo, perdeu dentro. Acha que precisa de novidade, quando o que falta é cuidado. Cada vez que fala em separação, sinto um aperto no peito. Quero intervir, dizer-lhe que a Ana Isabel ainda é a mesma mulher que ele amou, mas sei que as minhas palavras caem em vão. Ele já decidiu. Já passou do ponto de ver, de compreender, de esperar.

Às vezes, sento-me no sofá a observá-los de longe, e tudo parece tão simples para ele: a culpa é dela, o desleixo, a falta de cuidado. Mas eu sei o que ninguém mais parece perceber — que aquilo que ele chama de desleixo é apenas o resultado de anos de amor silencioso e de entrega sem reciprocidade. E que ela, cansada, exausta, invisível aos olhos do próprio marido, se perdeu antes que o Tomás sequer percebesse.

Fico com uma sensação de impotência que me corrói. Não posso obrigar ninguém a amar, nem posso devolver a energia que a Ana Isabel gastou inteira cuidando dos outros. Só posso estar aqui, silenciosa, a tentar acolher os dois, a tentar que a dor seja menos pesada. Mas sei que isso não basta.

E talvez seja isso que mais me entristece: saber que o amor deles está a morrer não por falta de sentimento, mas por incapacidade de perceber e cuidar do que existe, mesmo que disfarçado. Porque, às vezes, o que se perde não é a pessoa, mas a vontade de vê-la.

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