Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre o amor, a partir de casos reais.
Chamo-me Rebeca e nunca tive ilusões sobre o caminho que percorri até aqui. Sei exatamente como subi na empresa — e não tenho vergonha disso. Quando entrei, há oito anos, era apenas a secretária do Paulo, o dono de uma empresa de consultoria e gestão de investimentos, com clientes espalhados entre bancos, construtoras e empresários que gostavam de arriscar milhões como quem respira. Era um mundo duro, competitivo, cheio de reuniões tensas, telefonemas urgentes e estratégias que mudavam de um dia para o outro. E eu, com 24 anos, recém-saída do curso de gestão, estava ali para organizar agendas, preparar relatórios, atender clientes e impedir que o caos entrasse pela porta do gabinete.
Mas fui fazendo mais do que isso — sem nunca me pedirem. Eu prestava atenção. Observava o ritmo dele, a forma como saltava refeições, como esquecia datas importantes, como ficava perdido sempre que se tratava de assuntos pessoais. O Paulo era daqueles homens que vivem para o trabalho. A família era quase um adereço. Casado, dois filhos já crescidos, uma mulher habituada ao luxo e à vida social, sempre ocupada com a modalidade da moda e o instrutor da semana: primeiro yoga, depois o PT do ginásio, a seguir o professor de padel, mais recentemente o de pilates. Ele sabia, não dizia nada. Pagava as contas — colégios caros, Erasmus, viagens à neve, praias paradisíacas — e a casa seguia o seu rumo.
Eu não era só a secretária. Comecei a levar-lhe o almoço quando percebi que ele almoçava bolachas da máquina. Passava-lhe recados dos filhos, lembrava-o dos aniversários, tratava de presentes para a mulher, antecipava reuniões difíceis, filtrava problemas antes de chegarem até ele. Não era bajulação — era cuidado. Acho que, pela primeira vez em anos, alguém olhava para ele como homem e não como máquina de fazer dinheiro.
As conversas começaram por ser profissionais, como seria normal. Ele explicava-me estratégias de investimento, eu ajustava agendas, preparava documentos, tomava notas, dava sugestões que ele começava a ouvir com atenção surpreendente. Depois, inevitavelmente, começaram a surgir confidências: primeiro sobre o stress do trabalho, depois sobre os filhos, a distância emocional da mulher, as noites passadas no escritório para não enfrentar o silêncio da própria casa.
Aos poucos, estávamos a falar de tudo — dos meus sonhos, dos dele, dos medos que não revelávamos a ninguém. Ele dizia que eu era a única pessoa que realmente o entendia. Eu dizia a mim mesma que aquilo era apenas cumplicidade profissional… mas sabia que estava a mentir.
Passávamos tantas horas juntos que o tempo deixava de se medir em minutos e começava a medir-se em olhares. Lá fora, o escritório esvaziava-se: colegas despediam-se, as luzes iam sendo apagadas, o barulho desaparecia. Ficávamos nós, lado a lado, com chávenas de café que já nem sabíamos de quem eram, laptops ligados, dossiers abertos — e uma vontade crescente de prolongar tudo aquilo para além do que era suposto.
Começámos a rir de coisas pequenas. A partilhar bolachas. A dividir silêncios que já não eram desconfortáveis. E depois vieram os toques quase acidentais: a mão dele sobre a minha quando me passava uma folha, o meu ombro a roçar no dele quando víamos o mesmo ecrã, as despedidas à porta do gabinete que se tornavam demasiado longas para serem normais.
A fronteira desfocou-se devagar, como se estivesse já destinada a desaparecer.
E então, um dia, simplesmente aconteceu. Depois de uma reunião especialmente difícil, ficámos sozinhos na sala. Ele agradeceu-me pelo apoio, tocou-me no braço num gesto que parecia inocente… mas não era. Eu olhei para ele, ele olhou para mim, e naquele instante soubemos os dois que a linha tinha sido ultrapassada há muito tempo — só faltava admitir.
O beijo veio assim: inevitável, urgente, silencioso. Não falámos, não pensámos. Sentimo-nos. Depois vieram os toques prolongados, as mãos que exploravam terreno proibido, a respiração pesada de quem tenta controlar algo que já não tem retorno.
Nesse mesmo dia, a noite que começou com trabalho acabou num hotel discreto, onde deixámos finalmente cair todas as máscaras. Não houve arrependimento. Não houve hesitação. Houve apenas a certeza — errada ou não — de que estávamos onde queríamos estar.
E, a partir desse momento, já nada pôde voltar a ser como antes. Não foi planeado. Mas também não foi evitado.
Com o tempo, ele começou a criar espaço para mim na vida dele, mesmo que às escondidas. Alugou-me um apartamento perto do escritório, dizendo que eu “não devia desperdiçar tempo precioso nos transportes”. Ofereceu-me um cargo de chefe de departamento, com carro e telemóvel da empresa. Eu esforçava-me, claro que sim. Era competente, dedicada, e ninguém conhecia o funcionamento daquele negócio como eu. Estive ao lado dele em reuniões críticas, li relatórios inteiros enquanto ele dormia uma sesta no sofá, preparei negócios, negociei com clientes, antecipei problemas. Tornámo-nos parceiros — na cama e no escritório.
Quando ele me tornou sócia, muitos ficaram chocados. Mas a verdade é que eu já era muito mais do que uma assistente. Conhecia os clientes, os investimentos, os riscos, os lucros. Sabia os tiques dele, os medos, as estratégias, os limites. Sabia o que ele precisava antes de ele próprio saber. Tornámo-nos indispensáveis um ao outro — profissional e emocionalmente.
Sim, sou a amante. E sim, tenho esperança de que um dia ele finalmente se separe e me assuma. Que seja mais do que o homem que me ama entre duas reuniões e me deixa na sombra quando regressa a casa. Mas, até lá, continuo ao seu lado. Não por interesse — embora as regalias tenham mudado completamente a minha vida — mas porque o amo. E porque com ele me tornei uma versão de mim que nunca pensei ser possível: poderosa, desejada, escutada, indispensável.
Subi na empresa graças ao meu amante. É verdade.
E, sinceramente? Não tenho vergonha disso.
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