Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre o amor, a partir de casos reais.
Tenho 40 anos e nunca tive um namorado. Dizer isto em voz alta ainda me causa um certo embaraço, como se houvesse algo de profundamente errado em mim. Chamo-me Marta e, apesar de ter uma vida que muitos invejariam — um bom emprego, amigos que adoro, uma casa acolhedora e viagens marcadas com regularidade — há uma parte de mim que nunca soube viver uma história a dois. Ou, melhor dizendo, sou sempre a “outra”.
Não é algo que planeie. Acontece, como se o destino me empurrasse sempre para o lugar errado. Conheço alguém, há química, há risos, há mensagens trocadas ao final do dia. Tudo parece promissor até eu descobrir — ou ele admitir — que há alguém do outro lado. Uma namorada, uma mulher, às vezes até uma família inteira. Prometem-me que é “complicado”, que as coisas “não estão bem”, que “não é o que parece”. Eu sei o guião de cor. E, ainda assim, fico.
Sou independente, confiante, falo sem medo, rio alto e gosto de provocar. Talvez por isso os atraia — homens que vivem com mulheres previsíveis, que lhes fazem o jantar, que conhecem a rotina e não lhes fazem perguntas difíceis. Eu, pelo contrário, mostro-lhes o que é o inesperado. O jantar que acaba em risadas no chão da cozinha. A conversa que se transforma em confissão. O toque que parece libertá-los de uma vida que os sufoca.
E depois… depois vem o vazio. Porque eles voltam sempre. Voltam para as suas casas, para as suas vidas organizadas, para as mulheres que esperam com o jantar pronto e a certeza de que eles regressarão. E eu fico. Fico sozinha, a fingir que não me importo, que sou livre, que não preciso de ninguém.
Talvez seja essa a minha armadilha: confundir liberdade com solidão. Desde miúda que olho para o amor com um misto de fascínio e desconfiança. Na adolescência nunca fui a típica “menina bonita”. Era alta demais, desajeitada, meio trapalhona. Não sabia controlar o corpo, nem a língua. Dizia o que pensava, ria quando não devia, e parecia incapaz de me encaixar naquele molde de feminilidade certinha que os outros esperavam. E talvez por isso tenha aprendido a erguer muros — uma forma de me proteger da rejeição, de me convencer de que não precisava de ser escolhida.
Hoje percebo que esses muros ainda estão lá. Quando conheço alguém que até parece ter potencial, retraio-me. Fico defensiva, irónica, desligada. Tenho medo de me mostrar inteira, porque o amor real assusta mais do que o proibido. E acabo por ser mais eu própria com os comprometidos — com os que não podem ser meus. Porque aí não há risco. Sei que nunca passará disso, e é nessa leveza que me solto. É sempre com eles que me sinto mais viva, mais livre, mais verdadeira. Talvez porque, nesses casos, a espontaneidade não traz ameaça.
Eles apaixonam-se por mim porque não esperam nada — e, de repente, têm tudo. Traem as namoradas, as noivas, as mulheres certas, para viver uma paixão intensa comigo. Mas é sempre passageira. No fim, escolhem o caminho seguro, a mulher previsível, a “garantida”. E eu fico a ver partir mais um, a tentar convencer-me de que não doeu tanto assim.
Trabalho demasiado. Sempre trabalhei. O trabalho é o meu refúgio e o meu disfarce. Ninguém pergunta por que estou sozinha quando passo 10 horas por dia no escritório. Sou boa no que faço, eficiente, respeitada. Mas, às vezes, quando chego a casa e largo os saltos altos no chão da sala, há um silêncio que me engole. Um silêncio pesado, onde ecoam todas as conversas inacabadas, todas as promessas que nunca se cumpriram.
Não sei amar de forma leve. Ou melhor, não aprendi a ser escolhida. Tenho medo de me tornar invisível, de ser apenas a pausa excitante na vida de alguém — nunca o destino. Às vezes penso que o problema sou eu. Que o meu brilho, que tanto os atrai, é também o que os assusta. Porque eu não sei ser metade. Quero tudo: o amor, o desejo, o riso, a cumplicidade. E eles... eles querem apenas um escape.
Faço 41 no próximo mês. Não sei se ainda acredito no amor. Mas sei que, pela primeira vez, começo a perceber que não é falta de sorte — é escolha. Que, talvez, o que eu tenha estado à procura não é um homem, mas uma forma de me encontrar fora da sombra dos outros.
Hoje, quando me olho ao espelho, já não me vejo como “a outra”. Vejo uma mulher que tentou, que se deu, que viveu intensamente — mesmo quando o amor não ficou. E, quem sabe, talvez um dia o amor verdadeiro chegue. Mas, até lá, há uma paz nova em saber que já não estou disposta a ser só o capítulo secreto da história de ninguém.
Sou a Marta. Tenho 40 anos e nunca tive um namorado. Mas, pela primeira vez, sinto que começo a ter a mim.
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