Todas as semanas, publicamos um conto ficcional sobre o amor, a partir de um caso real.
Chamo-me Vitória e nasci em Lisboa, no bairro da Ajuda, entre colinas, varandas estreitas e vizinhas que sabiam a vida de toda a gente. Cresci a ver televisão com a minha mãe — era o nosso refúgio das horas cinzentas. Enquanto ela engomava roupa para fora, eu ficava sentada no sofá, com uma manta sobre as pernas, a sonhar com o mundo que existia dentro do ecrã: os estúdios brilhantes, as pessoas bem vestidas, os sorrisos fáceis, a sensação de que ali dentro tudo era bonito, controlado, perfeito.
Havia um programa que nunca perdíamos. Ia para o ar ao fim da tarde, cheio de música, convidados conhecidos e histórias que nos faziam acreditar que a vida podia ser leve. E havia ele — o Nuno. O apresentador. Sempre impecável, com o cabelo cuidadosamente penteado e aquele sorriso que parecia iluminar o estúdio. Tinha uma forma de olhar para os convidados que fazia parecer que nada mais existia além daquela conversa. A minha mãe dizia sempre:
— “Olha para ele, Vitória. Parece um príncipe.”
Eu ria-me, mas por dentro sentia o mesmo. O Nuno representava tudo o que eu achava inatingível — o sucesso, a elegância, o encanto.
Os anos passaram e a vida foi-se desenrolando ao ritmo das obrigações. Trabalhei em lojas, em escritórios pequenos, vivi uma relação que terminou sem lágrimas nem drama, apenas a constatação de que já não havia nada para salvar. Continuei a ver o programa, mas já sem o mesmo entusiasmo de menina. Até que um dia, ao fim de uma tarde cansada, peguei no telemóvel e abri o Instagram. Estava lá ele, num vídeo a promover uma campanha solidária.
Olhei para aquele sorriso que o tempo não tinha estragado e, sem saber bem porquê, senti vontade de lhe escrever. Foi um impulso súbito, uma dessas vontades que nascem de dentro e que não conseguimos explicar. Escrevi: “Adoro o seu programa. A forma como fala com as pessoas faz-nos acreditar outra vez nas coisas boas.”
Carreguei em enviar e, mal o fiz, arrependi-me. Senti o coração a acelerar. Que disparate, pensei. Um apresentador de televisão, com milhares de seguidores, não ia sequer reparar em mim. Fechei o telemóvel, envergonhada, e fui fazer o jantar.
Mas no dia seguinte, de manhã, ao abrir o Instagram, lá estava a notificação: “Nuno respondeu à sua mensagem.” “Obrigado, Vitória. O que escreveu tocou-me. Às vezes esquecemo-nos de como o que fazemos pode chegar a alguém.”
Li e reli a mensagem dezenas de vezes. Era simples, educada — mas era dele. E, de alguma forma, isso bastava. Respondi, a medo, e depois outra vez. E ele respondeu de volta. A conversa foi crescendo, devagar, natural, como quem se aproxima de uma lareira no inverno.
Falávamos de tudo: do tempo, da cidade, dos sítios onde gostávamos de ir, dos medos e dos cansaços. Contou-me que o trabalho o consumia, que às vezes se sentia só, mesmo rodeado de gente. Disse-me que as pessoas achavam que ele tinha tudo — fama, dinheiro, reconhecimento — mas que por dentro, por vezes, se sentia vazio. Eu compreendia-o. Disse-lhe que também me sentia assim, mesmo sem ter palco, nem luzes, nem câmaras.
Com o passar das semanas, a conversa tornou-se um hábito, uma espécie de segredo bom que guardava só para mim. Eu acordava a pensar se ele me teria escrito, e adormecia a rever as palavras trocadas. Até que um dia ele perguntou:
— “Se quiser, tomamos um café. Gosto de saber quem está do outro lado da mensagem.”
Fiquei horas a olhar para aquela frase, indecisa. Tinha medo, vergonha, curiosidade, tudo ao mesmo tempo. No fim, respondi:
— “Sim. Gostava disso.”
Encontrámo-nos num café discreto, em Campo de Ourique. Ele chegou de casaco azul-escuro, óculos de sol na mão e um sorriso tranquilo. Era ainda mais bonito ao vivo — mas o que mais me impressionou foi o modo como falava. Não havia pose, nem pressa, nem aquele tom ensaiado que tantas vezes se nota na televisão. Era simples, verdadeiro, quase tímido.
Falámos durante horas. Sobre a infância, sobre Lisboa, sobre os medos de envelhecer. Ele contou-me que o público o via como confiante, seguro, mas que por dentro lutava com o peso de ter de estar sempre perfeito. Eu ri-me e disse-lhe que o contrário também cansava — ser invisível, nunca ser notada. Ele ficou sério, olhou-me de frente e disse baixinho:
— “Acredito que a Vitória nunca passou despercebida.”
Sorri, envergonhada. E foi nesse instante, entre o café e o silêncio, que percebi que estava a entrar num território perigoso.
Começámos a ver-nos com frequência. Encontros curtos, quase sempre escondidos. À volta dele havia sempre mulheres bonitas, bem vestidas, cheias de charme — colegas de estúdio, convidadas, assistentes, produtoras. Todas pareciam pertencer a um mundo onde eu nunca entraria. E, no entanto, era comigo que ele trocava mensagens à noite, era comigo que caminhava à beira-rio, de boné e casaco largo, tentando passar despercebido.
Nos dias em que estávamos juntos, o tempo parecia suspenso. Ele falava-me de sonhos, de projetos, de viagens. Eu ouvia-o, fascinada, e ao mesmo tempo sentia medo — medo de acordar e perceber que tudo aquilo era um intervalo, e não a vida real.
Mas o tempo foi mostrando as suas rugas. O programa exigia-lhe cada vez mais, as viagens multiplicavam-se, as entrevistas, os compromissos. Eu ficava à espera, às vezes uma semana inteira, por uma mensagem curta. E quando o telefone tocava, era sempre a voz dele — cansada, doce, com um “desculpa” a cada frase.
Até que um dia, encontrámo-nos num restaurante pequeno, em Alfama. Ele parecia distante. Falou pouco. No fim, baixou o olhar e disse:
— “Vitória, não quero magoar-te. Não consigo dar-te o que mereces.”
Não chorei à frente dele. Limitei-me a sorrir e a responder:
— “Já me deste. Mesmo que acabe agora, já me deste tudo.”
Voltei para casa com o coração apertado, mas com uma estranha serenidade. Porque, pela primeira vez na vida, eu tinha sido escolhida — ainda que por pouco tempo.
Hoje, continuo a vê-lo na televisão. Apresenta o mesmo programa, fala com as mesmas pessoas, e há sempre mulheres bonitas à volta dele, a rir das suas piadas e a tocar-lhe no braço. E, no entanto, às vezes, quando ele diz “até amanhã” e olha de relance para a câmara, gosto de acreditar que aquele olhar é para mim.
Não fiquei com ele. Mas também nunca mais voltei a ser a mesma.
Aquela mensagem, mandada num impulso, mudou tudo.
Veja também:
Foi minha professora no 7.º ano… e hoje é minha mulher: «Estar com ela intimamente foi incrível»