Traí a minha mulher. E ela deixou-me para sempre: «Tenho saudades do cheiro dela. Do cheiro da minha casa» - V+ TVI1224
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Traí a minha mulher. E ela deixou-me para sempre: «Tenho saudades do cheiro dela. Do cheiro da minha casa»

  • Redação V+ TVI
  • 20 out 2025, 09:44

Uma história arrepiante.

Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre amor, a partir de casos reais

Traí a minha mulher. E ela deixou-me. Estou arrependido. Dizer isto assim, cru, parece simples, quase banal — como se a culpa pudesse resumir-se a uma frase. Mas há culpas que se instalam como humidade nas paredes: não se veem de imediato, mas apodrecem tudo por dentro.

Chamo-me Jaime. Tenho quarenta e cinco anos. Casei com a Maria do Mar há quinze. Quando penso nela agora, penso sempre em silêncio — não no silêncio do fim, mas naquele silêncio antigo, doméstico, cheio de coisas por dizer, onde o amor vivia escondido entre gestos pequenos. Fui feliz, ainda que não o soubesse na altura. Ou talvez tenha sido apenas confortável, o que, para muitos homens da minha geração, é a mesma coisa.

Cresci numa casa em que os homens falavam alto e as mulheres sabiam o seu lugar. O meu pai era um desses homens. Trabalhava muito, dizia ele, e voltava tarde, a cheirar a tabaco e a segredos. Sabia-se que tinha outras mulheres, e ninguém se escandalizava. “Os homens são assim”, dizia-me. E eu cresci a acreditar nisso, sem nunca questionar. A minha mãe sorria, punha a mesa, servia. Eu via nela uma doçura constante, uma obediência sem lágrimas, e achei que era isso o amor: a mulher que fica, o homem que manda, o mundo a girar à volta dessa ordem antiga.

Quando conheci a Maria do Mar, achei que era a mulher que procurava. Tinha um sorriso calmo, desses que nos pacificam por dentro. Os olhos verdes, o rosto cheio de sardas, uma beleza serena, sem artifícios. Falava pouco, mas havia verdade no que dizia. Quando começámos a namorar, senti que o mundo ficava mais leve à volta dela. Casámo-nos, tivemos dois filhos — o Francisco e a Mariana — e durante anos eu acreditei que tínhamos tudo. Ela trabalhava, mas sem ambição; eu dizia que o meu emprego era mais exigente, mais importante. Ela nunca discutia. Levava os miúdos à escola, fazia o jantar, tratava das contas. E eu, de forma quase automática, fui deixando que ela vivesse nas margens da minha vida. Não por maldade, mas por distração. A pior forma de egoísmo é essa — a que nasce do hábito.

Com o tempo, deixei de a ver. Ela continuava ali, nas mesmas rotinas, nas mesmas roupas simples. Mas eu já não a via. E foi nessa cegueira que apareceu a Martina.

Trabalhava comigo. Jovem, morena, com um ar livre, insolente, cheio de promessas que a vida ainda não desmentira. Duas tatuagens nos ombros, um piercing pequeno no nariz, um riso que fazia o escritório inteiro girar. Falava de concertos, de viagens, de amores rápidos. E eu, homem de meia-idade, deixei-me enredar naquela luz. Ela fazia-me sentir novo, desejado, vivo. Era como um espelho distorcido onde via o que já não era.

Disse a mim mesmo que era natural. Que todos os homens casados precisavam de uma lufada de ar fresco. Que trair não era destruir, era apenas fugir por um instante. Convenci-me de que a infidelidade era uma sombra inevitável da vida adulta. E rendi-me.

As semanas viraram meses. A Martina tocava-me o braço no elevador, mandava mensagens à noite, dizia que eu a fazia sentir segura. Eu acreditava que a amava — mas, no fundo, amava a imagem de mim que via nos olhos dela. Em casa, continuava a desempenhar o papel: o pai atencioso, o marido gentil. A Maria do Mar olhava-me com ternura e eu devolvia-lhe o olhar com a culpa bem disfarçada. Nunca me senti tão admirado. Tão forte. Tão cobarde.

Até que, uma noite, cheguei a casa tarde e encontrei o silêncio. A sala às escuras, o cheiro do jantar ainda no ar. A Maria do Mar estava sentada no sofá, imóvel.
— Olá — disse eu, num tom leve. — E os miúdos?
— Estão em casa da minha mãe — respondeu.

Aquela resposta trouxe o frio. Pousei o casaco, tentei sorrir, mas ela levantou o rosto. Os olhos estavam vermelhos, mas tranquilos — de uma calma que me feriu mais do que qualquer grito.
— Hoje almocei com a Ana Rita do teu escritório — disse. — Sei tudo sobre ti. E sobre a Martina.

O chão fugiu-me. Neguei, menti, pedi calma. Mas ela limitou-se a olhar-me como quem observa algo que finalmente compreende.
— Tu não me traíste só com outra mulher, Jaime — disse. — Traíste-me há muito tempo, quando deixaste de me ver.

Depois levantou-se e disse, sem elevar a voz:
— Tens duas malas no quarto. É a última vez que as faço.

Subi, entrei no quarto e vi as malas prontas. As mesmas mãos que me serviram jantares, que seguraram os nossos filhos, tinham dobrado pela última vez as minhas camisas. Sentei-me na cama e percebi que tudo o que eu julgava seguro era apenas emprestado. Saí sem dizer palavra.

Passei a noite num hotel barato, deitado sobre lençóis frios, a ouvir o zumbido do minibar e o som do trânsito a desaparecer lá fora. A Martina ligava-me sem parar, mas não atendi. Na manhã seguinte, já mais calmo, convenci-me de que a Maria do Mar ia esquecer tudo. Que ia perdoar-me — como sempre acontecera na casa onde cresci, como sempre acontecia com os homens que conhecia. Afinal, isto não era nada de mais. Ela era a minha mulher. Eu o seu marido. Era para a vida. Mas quando voltei a casa, a fechadura tinha sido mudada.

Toquei à campainha. Abriu-me o António, o irmão dela — alto, forte, antigo jogador de râguebi, com aquele ar de quem não precisa de levantar a voz para intimidar. Falámos no hall do prédio.
— Jaime, nós sabemos de tudo — disse. — O que fizeste à minha irmã é imperdoável. Não me obrigues a expulsar-te à força.

Fiquei parado uns segundos, sem saber o que fazer com as mãos. Ele fechou a porta devagar. E foi nesse som, nesse clique seco da fechadura, que percebi que a minha vida tinha acabado.

Tentei forçar a entrada, num impulso de desespero, mas ele agarrou-me pelos braços, prendeu-me com firmeza.
— Chega, Jaime. Não me obrigues a bater-te. — E naquele momento senti medo. Medo de mim, do que tinha feito, do que me tornara. Soltei-me e saí. Desci as escadas sem olhar para trás. Foi nesse instante que percebi que a minha casa, a minha família, a minha vida já não me pertenciam.

Os dias seguintes foram um deserto. Não via os miúdos. A Maria do Mar não atendia o telefone. Recebi os papéis do divórcio e assinei-os como quem assina uma confissão. A minha família dizia que ela era uma tonta, uma histérica, que devia ter-me perdoado. Eu queria acreditar nisso, mas sabia que o tonto era eu. Ela apenas quebrou um ciclo que eu achava eterno — o da submissão, o do perdão sem fim. Ao fazê-lo, libertou-se. E deixou-me preso àquilo que sou: um homem educado para acreditar que tudo lhe era permitido, que o amor era garantido, que as mulheres ficavam sempre.

A Martina continuou a insistir. Via em mim uma oportunidade, queria transformar o que era um caso em algo maior. Falava-me de futuro, de viagens, de planos. Mas de repente tudo nela me pareceu vazio. As tatuagens, as gargalhadas, o perfume doce — tudo soava falso, fabricado, triste. Vi-a pelo que era: uma rapariga perdida, uma vítima no meio do meu naufrágio. Deu-me nojo. E deu-me pena. Era uma miúda tonta, e eu, um homem estúpido.

Tinha saudades do cheiro da minha casa, das vozes dos meus filhos a correr pelo corredor, da gargalhada da Maria do Mar ao domingo de manhã. Tinha saudades até dos silêncios dela — os que agora percebo que eram cansaço, não indiferença. Durante muito tempo confundi silêncio com paz, rotina com amor, poder com valor. Demorei a perceber o quanto a amava. E o quão mau marido tinha sido.

Hoje moro num apartamento pequeno, arrumado demais. Às vezes passo horas a olhar para o vazio, a tentar lembrar-me do som dos meus filhos a correr no corredor, do riso da Maria do Mar nas manhãs de domingo, do cheiro dela misturado com o cheiro da casa. É curioso como o amor, quando se vai, leva também o cheiro. Fica tudo inodoro.

Soube há pouco que ela tem um namorado. Dizem que é um homem calmo, que a faz rir. Fico feliz por ela — ou tento ficar. Imagino-a a caminhar com ele junto ao mar, os olhos verdes a brilhar como nos primeiros dias. Talvez finalmente alguém a veja como eu nunca vi.

Eu continuo sozinho. E todas as noites, quando chego, fecho a porta com cuidado. Depois sento-me, e o silêncio enche o apartamento. É o mesmo silêncio daquela noite — o da porta fechada, o do fim de tudo.

E às vezes, antes de adormecer, ainda sinto o cheiro dela.
Ou, talvez, apenas o invente.

Este conteúdo contou com a participação de inteligência artificial na sua elaboração.

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