A história de MaryBeth Lewis, de 68 anos, moradora da região de Buffalo, no estado de Nova Iorque, tem chocado e dividido opiniões em todo o mundo. Mãe de 13 filhos — muitos concebidos através de fertilização in vitro (FIV) —, MaryBeth tornou-se símbolo de uma busca quase ilimitada pela maternidade.
Mas o que parecia apenas uma história invulgar de amor maternal transformou-se num escândalo judicial e ético que colocou em causa os limites da reprodução assistida e da própria lei americana.
MaryBeth foi mãe pela primeira vez aos 25 anos. Depois de ter cinco filhas biológicas, entrou nos 40 com o chamado “ninho vazio” — mas não quis parar. Recorreu à fertilização in vitro e voltou a ser mãe de gémeas aos 49 anos. Três anos depois, aos 52, voltou a engravidar.
Aos 55, teve gémeos meninos. Aos 59, outro par de gémeos. E, aos 62, deu à luz uma 13.ª filha, também através de FIV.
Mesmo assim, o desejo de aumentar a família não se esgotou. Em 2023, já com 66 anos, decidiu ter mais dois bebés por meio de uma barriga de aluguer, utilizando embriões de doadores — sem qualquer ligação genética nem com ela, nem com o marido, Bob Lewis.
De acordo com a New York Times Magazine, MaryBeth forjou a assinatura do marido e enganou tanto uma clínica de FIV como um juiz para obter uma ordem judicial de filiação, documento legal que transfere a parentalidade da gestante substituta para os chamados “pais intencionais” — exigência obrigatória em Nova Iorque.
Os gémeos nasceram em novembro de 2023, mas o hospital rural onde o parto ocorreu impediu MaryBeth de ter contacto com os bebés, ao descobrir irregularidades na documentação.
O caso chegou rapidamente à Justiça. O Ministério Público do condado de Steuben apresentou 30 acusações criminais contra MaryBeth Lewis, incluindo falsidade ideológica, perjúrio e tentativa de sequestro.
Enquanto os gémeos foram entregues a uma família de acolhimento (foster care), MaryBeth viu a sua vida desabar: perdeu o emprego, foi alvo de restrições judiciais — incluindo a proibição de frequentar a escola dos filhos mais novos — e enfrenta agora o risco de prisão.
Determinada a provar a sua inocência e a recuperar a guarda dos gémeos — que considera os seus 14.º e 15.º filhos —, MaryBeth afirma ter gasto mais de 500 mil dólares em advogados e processos judiciais nos últimos dois anos.
O caso corre em duas frentes:
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Na esfera criminal, a acusação sustenta que MaryBeth agiu deliberadamente para enganar o sistema judicial e médico.
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Na esfera cível, debate-se quem deve ser reconhecido como responsável legal pelas crianças.
Em outubro passado, um novo juiz reconheceu MaryBeth e o marido como pais legais, mas a decisão foi suspensa temporariamente após recursos de advogados e do sistema de proteção infantil.
“Quem é, afinal, a mãe?”
O caso levantou uma das questões mais complexas da biotecnologia moderna: como se define a maternidade?
Em Nova Iorque, a lei reconhece três tipos de maternidade:
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Genética – de quem doa o óvulo;
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Gestacional – de quem carrega a gravidez;
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Intencional – de quem planeia e assume a parentalidade.
O tribunal entendeu que a maternidade por intenção pode ser válida, desde que se prove que é do melhor interesse das crianças — ponto ainda em disputa neste processo.
MaryBeth Lewis tornou-se um símbolo controverso: para uns, uma mulher movida pelo amor e pelo desejo de cuidar; para outros, o exemplo extremo de como o sonho de ser mãe pode ultrapassar fronteiras legais e éticas.
Promotores e especialistas em direito de família alertam que a autonomia reprodutiva tem limites e não pode sobrepor-se às regras do Estado nem à segurança das crianças.
Atualmente, os gémeos permanecem com a família de acolhimento. A Justiça americana ainda decidirá se regressarão aos braços de MaryBeth Lewis — ou se permanecerão com a família que os criou desde o nascimento.
Independentemente do veredito, o caso de MaryBeth Lewis expôs os limites éticos, legais e emocionais da maternidade contemporânea — e o preço que algumas pessoas estão dispostas a pagar para desafiar o tempo e a biologia em nome do amor e da família.
Recorde-se que, em abril de 2025, o Bom dia Alegria recebeu em estúdio Ana, uma mulher que foi mãe do 3.º terceiro filho aos 54 anos.