“Pensei que a trouxessem de volta para lhe darmos um beijo de despedida, mas não aconteceu.” Foi assim que Jean, hoje com 85 anos, recordou o momento doloroso em que entregou a filha de apenas dez semanas para adoção, nos anos 50, sem sequer se poder despedir.
A sua história foi partilhada no programa especial Long Lost Family: The Mother and Baby Home Scandal, transmitido no Reino Unido a 3 de setembro, e mostra como Jean passou décadas a tentar encontrar a filha, antes do tão aguardado reencontro.
Uma gravidez aos 16 anos
Em 1956, quando tinha apenas 16 anos, Jean engravidou do namorado Tony, pouco mais velho do que ela. Ao descobrirem a gravidez, os pais da jovem enviaram-na para o Home of the Good Shepherd Mother and Baby Home, ligado à Igreja de Inglaterra.
Estes lares — comuns em Inglaterra e na Irlanda entre os anos 40 e 70 — acolheram cerca de 200 mil mães solteiras, muitas delas adolescentes. Na maioria dos casos, os bebés eram retirados às mães quando tinham apenas seis semanas, para serem entregues a famílias adotivas, segundo um comunicado da ITV citado pela People.
Tony visitava Jean todos os fins de semana no lar. “A minha mãe culpava-o por tudo, porque ele era católico. Eu estava assustada, não sabia o que fazer, nem sequer percebia como se tinha um bebé”, recordou.
A separação dolorosa
Após o parto, Jean e Tony levaram a filha Maria, então com dez semanas, à Southwark Catholic Rescue Society (SCRS), em Londres. Para que fosse aceite, primeiro tiveram de a batizar.
“Entreguei-a a uma senhora que disse que a ia mostrar. Pensei que a trouxessem de volta, para nos despedirmos, mas não aconteceu”, contou Jean.
Quando Maria fez 18 anos, a mãe escreveu ao SCRS para pedir notícias, mas recebeu apenas uma resposta negativa: “Disseram-me que não, e que talvez nos reencontrássemos um dia no céu. Achei terrível responderem-me assim.”
O reencontro
Foi a neta de Jean, Caitlin Jones, quem contactou o programa para ajudar a localizar Maria. A procura acabou por ter sucesso: Maria, agora chamada Cathy, vive em Ilford, Londres.
Durante o episódio, Cathy leu uma carta escrita pela mãe biológica: “Seria um sonho tornado realidade voltar a ver-te, mas compreenderei se não quiseres, desde que saiba que estás bem.”
Cathy respondeu emocionada:
“Tenho muita pena do que ela passou — não desejaria isso nem ao meu pior inimigo.”
A filha explicou ainda que compreende melhor a dor da mãe ao comparar com a sua realidade atual:
“A minha própria filha é solteira e tem uma filha que vive connosco. É uma alegria. Acho uma autêntica vergonha a forma como as mulheres foram tratadas naquela época e como as fizeram sentir.”