Imagine que vai às compras e que esta é a sua lista: arroz carolino, alface frisada, polpa de tomate, açúcar branco, cenouras, couve coração, carapaus, leite UHT meio gordo, bolacha Maria e batata vermelha. No fim, vai pagar em média 21,27 euros por tudo isto - há 11 meses gastaria 14. Agora imagine o impacto de comprar estes produtos - ou alguns deles - várias vezes ao longo do ano. Mas o que aconteceu então a estes produtos? Foram os que mais subiram de preço desde o início da guerra na Ucrânia. 

Segundo dados da Deco Proteste, que divulga semanalmente o custo do cabaz de 63 produtos alimentares essenciais com base em 11 marcas, estes dez itens são os que registam maiores diferenças entre 23 de fevereiro de 2022, véspera da invasão, e 23 de janeiro de 2023.

Produtos com maior variação de preço (23/fev)
PRODUTO 23/fev/22 25/jan Diferença 23/02/22 - 25/01/23
Arroz carolino 1,14 € 2,21 € 1,07 € 94%
Alface frisada 2,06 € 3,42 € 1,36 € 66%
Polpa de tomate 0,89 € 1,47 € 0,58 € 65%
Açúcar branco 1,11 € 1,64 € 0,54 € 48%
Cenoura 0,77 € 1,13 € 0,36 € 46%
Couve coração 1,04 € 1,51 € 0,47 € 45%
Carapau 3,32 € 4,80 € 1,48 € 44%
Leite UHT meio gordo 0,68 € 0,96 € 0,29 € 43%
Bolacha Maria 2,08 € 2,88 € 0,80 € 39%
Batata vermelha 0,91 € 1,25 € 0,34 € 37%

Desde que a guerra começou, o cabaz de alimentos essenciais monitorizado pela Deco já registou uma subida de pelo menos 35,28 euros (19,2%). A contribuir para este aumento está, por exemplo, o arroz carolino, cujo preço atingiu um novo máximo a 25 de janeiro. Este produto está agora a custar, em média, mais de dois euros nos supermercados. Quase duplicou. Já a alface frisada sofreu um aumento de mais de 1,30€.

Em rota ascendente destaca-se também a polpa de tomate que, entre 4 e 25 de janeiro, já aumentou 20 cêntimos (16%). Custa atualmente 1,47 euros. Aliás, entre 23 de fevereiro de 2022 e 18 de janeiro de 2023, a polpa de tomate foi um dos produtos que mais viram o seu preço subir, com um aumento de 65%, ou seja, de 0,58 euros.

Mas se olharmos para os bens alimentares que mais aumentaram só na última semana, então o cenário já é um pouco diferente e inclui, entre outros, laranjas, maçãs, iogurtes líquidos e cereais.

Produtos com maior variação de preço (semana anterior)
PRODUTO 18/jan 25/jan Diferença 18/01 - 25/01
Polpa de tomate 1,26 € 1,47 € 0,21 € 17%
Carapau 4,43 € 4,80 € 0,37 € 8%
Maçã gala 1,97 € 2,13 € 0,16 € 8%
Flocos de Cereais 2,09 € 2,26 € 0,16 € 8%
Iogurte líquido morango 2,39 € 2,57 € 0,17 € 7%
Peixe espada preto 7,64 € 7,94 € 0,30 € 4%
Laranja 1,35 € 1,40 € 0,05 € 4%
Alface frisada 3,31 € 3,42 € 0,11 € 3%
Couve coração 1,46 € 1,51 € 0,05 € 3%
Peito de Peru fatiado 2,28 € 2,36 € 0,07 € 3%

Ainda numa análise comparativa à semana anterior, há a destacar uma boa notícia: o preço do mesmo cabaz de 63 alimentos essenciais diminuiu 5,76 euros (-2,5%) para um total de 218,91 euros.

A guerra não explica tudo

No fundo, o problema é histórico, sublinha a associação de defesa do consumidor: Portugal está altamente dependente dos mercados externos para garantir o abastecimento dos cereais necessários ao consumo interno. E, de acordo com a Deco, estes representam apenas 3,5% da produção agrícola nacional. A guerra na Ucrânia, de onde eram provenientes grande parte dos cereais consumidos na União Europeia, e em Portugal, veio, por isso, pressionar ainda mais um setor que estava há meses a braços com as consequências de uma pandemia e de uma seca com forte impacto na produção e na criação de stocks.

A limitação da oferta de matérias-primas e o aumento dos custos de produção, nomeadamente da energia - necessária à produção agroalimentar - têm-se refletido num aumento dos preços nos mercados internacionais e, consequentemente, nos preços ao consumidor de produtos como a carne, os hortofrutícolas, os cereais de pequeno-almoço ou o óleo vegetal. No peixe, por sua vez, a subida dos preços poderá refletir o aumento dos preços dos combustíveis, que tem um elevado impacto na indústria da pesca. Mas não só.

Também os fornecedores queixam-se de venderem o seu produto a um preço substancialmente mais barato do que aquele que é pedido aos clientes dos hipermercados. A inflação não explica tudo e a própria ASAE já admitiu que pode haver conceitos de lucros ilegítimos incorporados em alguns destes produtos.

À CNN Portugal, João, um agricultor de Benavente utilizou a venda do tomate, um dos produtos agrícolas que mais aumentou com a inflação, como exemplo. “Vendemos a um preço e, depois, chega ao consumidor a uma quantia mesmo muito superior”, afirmou, destacando que, com a inflação, “há algum aproveitamento, não podemos esconder”.

“Vendo um produto a 0,30 cêntimos e depois vendem-no a 2,5 euros”, afirmou o produtor.

CNN Portugal / RL