Uma boa amizade e um bom treino de força. O que têm em comum? Podem ser o segredo para a longevidade (com saúde) - TVI

Uma boa amizade e um bom treino de força. O que têm em comum? Podem ser o segredo para a longevidade (com saúde)

Treino (AP Photo/Kirsty Wigglesworth)

Treinar o corpo com regularidade e manter relações satisfatórias, até mesmo as laborais, assumem-se como ‘entrave’ ao aparecimento de algumas doenças. Dois especialistas explicam o fenómeno

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Adotar um estilo de vida saudável é meio caminho andado para uma vida longa e com saúde. Mas os hábitos saudáveis vão muito além daquilo que diariamente se coloca no prato e do quão frequente é a atividade física. As pessoas que nos rodeiam - e que queremos por perto - têm também um papel fundamental na longevidade.

Para Manuela Grazina, professora e investigadora no Centro de Neurociência e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, esta associação é fácil de explicar. “Há um efeito da socialização naquilo que é o nosso bem-estar”, começa por dizer.

De acordo com a especialista, “há diversos estudos que mostram que a socialização envolve a via da recompensa e a libertação de dopamina no [corpo] estriado”. A dopamina é um neurotransmissor que influencia, por exemplo, as emoções, o humor e a aprendizagem. Além disso, o ato de socializar envolve também a amígdala, “que é o nosso sensor das emoções e faz a gestão da dor do perigo, do medo e do stress”.

Segundo um recente estudo da Escola de Saúde Pública da Universidade de Queensland, na Austrália, as relações satisfatórias - sejam elas amorosas, de amizade, familiares ou laborais - estão associadas a um menor risco de desenvolver as chamadas doenças da velhice, como a hipertensão, a diabetes tipo dois e osteoporose, dando apenas o exemplo de algumas.

E o contrário também acontece. Diz a investigação, publicada na revista General Psychiatry, que quanto menos satisfatórios forem as relações aos 40 e 50 anos, maior é o risco de desenvolver várias doenças à medida que os anos vão passando.

Para chegar a esta conclusão, os cientistas acompanharam e avaliaram 7.694 mulheres australianas que estavam livres de 11 condições crónicas de saúde e que no início do estudo, em 1996, tinham entre 45 e 50 anos de idade. A cada três anos, e ao longo de duas décadas, as participantes tiveram de classificar os seus níveis de satisfação com as relações que mantinham e foram alvo de exames para detetar doenças como diabetes, hipertensão, doença cardíaca, acidente vascular cerebral, doença pulmonar obstrutiva crónica, asma, osteoporose, artrite, cancro, depressão ou ansiedade.

Durante os 20 anos de análise, lê-se no estudo, 4.484 (58,3%) mulheres relataram multimorbidades, sendo que “as mulheres com a menor satisfação tiveram as maiores probabilidades de acumular multimorbidades”. Em causa, pode estar o maior stress, a tristeza e a solidão (ou até mesmo isolamento), por exemplo.

Há uns anos fiz uma pesquisa e encontrei alguns estudos que mostravam que quando há estímulo da via da recompensa, as nossas defesas, o nosso sistema imunitário é reforçado, ficamos com uma espécie de otimização do seu funcionamento que consegue, de forma mais eficaz, combater o que é nefasto ao nosso organismo”, diz a investigadora, apontando que essa é uma das razões pelas quais as pessoas com boas relações, que vivem em ambientes mais positivos, podem ter uma menor propensão a algumas doenças. “Intrigava-me porque é que as pessoas otimistas tinham menos doenças”, diz-nos. 

Para os autores desta investigação, extrapolando estes resultados para outros géneros e não apenas para mulheres, “as ligações sociais (por exemplo, satisfação de relação social) devem ser consideradas uma prioridade de saúde pública na prevenção e intervenção de doenças crónicas”.

Manuela Grazina explica que “há especificidade do género” e que isso não pode ser ignorado, pois “pode haver uma preponderância do género feminino para responder de uma determinada forma”, mas a especialista não hesita em dizer que os efeitos das relações satisfatórias “são transversais a qualquer género e qualquer idade, não vão é ocorrer da mesma forma em todas as pessoas”, uma vez “cada uma tem a sua individualidade genética, cuja resposta a estímulos é diferente”.

Movimentar o corpo continua a ser a chave

Apesar de as relações assumirem um papel de escudo protetor no aparecimento de algumas doenças crónicas à medida que a idade vai avançando, o certo é que ter o hábito de movimentar o corpo continua a ser o ex-líbris da longevidade, sobretudo da longevidade com qualidade de vida. E não basta ser apenas fisicamente ativo, a prática de exercício - mais estruturado e regular - é a chave.

E prova disso é um outro estudo, que dá conta do poder que o hábito de se ser fisicamente ativo tem, sobretudo a nível cognitivo, para muitos o primeiro calcanhar de Aquiles do envelhecimento.

Publicado na revista científica Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry, o estudo é claro: basta ser fisicamente ativo uma vez por mês para que o desempenho cognitivo seja melhor quando comparado com quem tem um estilo de vida sedentário.

O estudo analisou os hábitos de atividade física de 1.417 britânicos ao longo de quatro décadas. Em cinco momentos diferentes nesses 40 anos - quando os participantes completaram 36, 43, 53, 60 a 64 e 69 anos - foram realizados testes cognitivos, que analisaram a velocidade de processamento de informação e a memória, sendo que a monitorização do exercício físico se manteve. 

Assim que cruzaram os dados e os testes realizados, os cientistas perceberam que aqueles que eram fisicamente ativos, pelo menos uma a quatro vezes por mês, tiveram o melhor desempenho nos testes. E se este for um hábito de vida, ainda melhor. “O efeito é acumulativo, portanto, quanto mais tempo um indivíduo estiver ativo, maior a probabilidade de ter uma função cognitiva mais avançada na vida adulta”, disse ao The Guardian Sarah-Naomi James, principal autora do estudo.

As pessoas associam apenas a uma componente mais física, do pescoço para baixo, como costumo dizer, mas a saúde mental é a mais importante. Tenho uma máxima que é ‘eu treino cérebros e não treino corpos’. A questão da saúde mental é importante”, diz-nos Luís Cerca, professor auxiliar na Universidade Lusófona e especialista na área de bem-estar e exercício físico.

O efeito do exercício físico na função cognitiva deve-se ao papel que desempenha na plasticidade do cérebro. Luís Cerca fala-nos dos “fatores neurotróficos, uma proteína que tem a ver com a plasticidade das sinapses e dos sistemas nervosos periférico e central. É super importante a estimulação desta proteína”, estimulação essa, contínua, que se consegue com a prática de exercício físico. 

O ideal é mesmo ter um estilo de vida ativo e que a prática de exercício, seja moderado ou vigoroso, seja regular e comece o quanto antes, dizem os autores do estudo. E adaptar o exercício ao gosto de cada um e preferencialmente com acompanhamento pode fazer toda a diferença.

Independentemente da idade com que se começa - e Luís Cerca diz que qualquer idade é boa -, “qualquer tipo de exercício se torna fundamental”, continua. Para o professor da Lusófona, “a pessoa tem de fazer algo que goste, com que se identifique e tenha prazer na prática”, pois esta é uma forma de ser mais regular no exercício físico. “A palavra-chave é consistência”, garante.

O treino de força, diz-nos, “é dos mais importantes”, sobretudo no combate à demência, “mas todas as outras capacidades físicas têm de ser treinadas, algumas numa componente mais cardiorrespiratória, na passadeira, na bicicleta ou a andar ou numa atividade de grupo”, esclarece o docente. Afinal, todo o exercício é sempre melhor do que nenhum exercício.

O estudo britânico focou-se nos benefícios do exercício para a saúde cognitiva, mas outras investigações têm já provado que ser fisicamente ativo faz bem a todo o corpo, podendo até ser um escudo-protetor contra algumas doenças, como a gripe, o cancro, a osteoporose, as doenças cardíacas e a diabetes, mencionando apenas algumas das listadas pelo Serviço Nacional de Saúde britânico.

O exercício físico regular proporciona muitos benefícios à saúde, protegendo contra o desenvolvimento de doenças crónicas e melhorando a qualidade de vida. Alguns dos mecanismos pelos quais o exercício proporciona esses efeitos são a promoção de um estado anti-inflamatório, o reforço da função neuromuscular e a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal”, lê-se num estudo de 2016 que levanta também o véu do impacto positivo que a prática de exercício tem na microbiota intestinal.

Apesar das evidências, os portugueses continuam sedentários e aquém das recomendações. O relatório, da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) e da Organização Mundial de Saúde (OMS), conclui que, em 2016, 35,4% dos adultos dos 27 países da União Europeia não eram suficientemente ativos segundo os critérios da OMS - que recomenda pelo menos 150 minutos de atividade física de intensidade moderada por semana. E Portugal surge na cauda da lista: 45% dos adultos a ficarem aquém do recomendado.

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