Sócrates investigado, Costa idem: a reputação do PS sobrevive a isto? "O eleitorado vai dividir-se entre os que admitem que o PS é vítima de uma cabala e os que dizem que não há repetições de cabalas" - TVI

Sócrates investigado, Costa idem: a reputação do PS sobrevive a isto? "O eleitorado vai dividir-se entre os que admitem que o PS é vítima de uma cabala e os que dizem que não há repetições de cabalas"

António Costa apresenta a demissão (Lusa/ José Sena Goulão)

Se outrora o PS podia defender-se com a ideia de caso único, essa resposta pode deixar de ser tão efetiva quando há no partido dois (ex-)primeiros-ministros a braços com a justiça: um esteve preso, o outro demitiu-se por isso. A CNN Portugal contactou telefonicamente mais de uma dezena de deputados e militantes socialistas, apenas dois atenderam a chamada

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Depois de José Sócrates, há mais um primeiro-ministro socialista envolvido num caso de justiça. É certo que os contornos e as fases dos casos que envolvem cada um deles são distintos. António Costa ainda não foi acusado de nada, embora vá ser investigado pelo Supremo Tribunal de Justiça.

Até que haja uma decisão transitada em julgado, ditam as leis e o bom senso que exista uma presunção de inocência. Mas, no tribunal da opinião pública, mais rápido, nem sempre funciona assim. E os especialistas admitem que o PS possa arcar com as consequências de um “cadastro político” ou “sombra” sobre a idoneidade dos seus antigos chefes de governo, com penalizações na hora de os portugueses irem às urnas. Já a oposição, reconhecem, vai usar este quadro como arma política.

“Mesmo que se conclua que os casos não deram em nada, haverá uma dúvida legítima sobre a idoneidade de uma figura que é líder do partido. É uma espécie de cadastro político. Do ponto de vista da imagem política, haver dois casos contamina a visão que os eleitores possam ter”, resume a politóloga Paula do Espírito Santo.

“O eleitorado vai dividir-se: entre os que admitem que o PS é vítima de uma cabala. E os que dizem que não há repetições de cabalas. Pela oposição, o PS surge como o partido em que os líderes, Sócrates e Costa, cometem crimes ou abusos de poder graves”, acrescenta o politólogo José Filipe Pinto.

E, tal como Paula do Espírito Santo, insiste na importância de os votantes fazerem uma análise individual sobre os factos que estiverem disponíveis na altura – e na sua capacidade de “distinguir personalidades e lideranças do partido e daquilo que pode oferecer ao serviço público”.

Já o politólogo Carlos Jalali explica que o PS “terá de lidar com esta questão, que não sabemos se é uma sombra ténue, intensa, passageira ou temporária”. Mas é algo impossível de ultrapassar? Tudo depende de como os socialistas souberem organizar-se e partir para a nova luta eleitoral.

“A experiência anterior mostra que, no caso de José Sócrates, os efeitos no PS não impediram depois uma maioria absoluta e a governação desde 2015. Vai depender da dinâmica do caso judicial. E depois na capacidade de reação da próxima liderança. São duas incógnitas”, diz o especialista.

Independentemente da forma como o PS reaja, os especialistas acreditam que esta “sombra dupla” sobre primeiros-ministros socialistas será bem aproveitada pela oposição. “Na primeira reação, não ficou claro como vão fazê-lo. Ainda estão a digerir tudo. Mas penso que, no calor da campanha, estes episódios, bem como o acumular de suspeitas sobre outros membros do Governo, são trunfos que poderão ajudar a oposição”, diz Paula do Espírito Santo.

Juiz Ivo Rosa pronunciou José Sócrates para julgamento por três crimes de branqueamento de capitais e três de falsificação de documentos (Lusa)

Socialistas recusam comparações, focam-se no futuro 

A CNN Portugal contactou telefonicamente mais de uma dezena de deputados e militantes socialistas. Apenas dois atenderam a chamada: Álvaro Beleza e Luís Testa. Ambos consideram que não se podem comparar os casos de José Sócrates e António Costa e insistem na capacidade de o partido se regenerar a partir da nova liderança e do projeto político que levará às urnas.

“O PS tem 50 anos de história e resistiu a muita coisa. Vai continuar a resistir. É feito de dezenas de milhares de cidadãos sérios e honestos, que querem o melhor para o país”, diz Álvaro Beleza. O presidente da SEDES realça que “há diferenças” entre Sócrates e Costa, porque o primeiro-ministro demissionário não foi ainda acusado de nada.

Sobre a possível penalização nas urnas, insiste que “as instituições são maiores do que nós próprios”. E que, mesmo que esta terça-feira não tenha sido “um dia bom para o PS”, inclusive inesperado, o “partido vai encontrar soluções”. “Nas urnas, o PS terá o resultado que merecer ter. Se tiver protagonistas à altura…”, conclui. 

Já Luís Testa defende que a comparação entre as realidades de Sócrates e Costa é “muito abusiva, porque parte de premissas que não são semelhantes”. “O que lhe digo, neste momento, é que aguardamos de forma serena a conclusão de todas as diligências”, acrescenta.

Na reação à demissão de Costa, o presidente do PS Carlos César foi questionado sobre o envolvimento de vários nomes socialistas em casos de justiça. Primeiro referiu que nada tinha a comentar. Depois juntou que “competirá à justiça definir o que fazer sobre essas matérias”. Porque “não compete ao PS ajuizar o comportamento de cada um”.

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