Estes são os sinais de um distúrbio alimentar - os que já conhece e os que ainda não conhece - TVI

Estes são os sinais de um distúrbio alimentar - os que já conhece e os que ainda não conhece

  • CNN
  • Madeline Holcombe
  • 18 mar 2023, 09:00
Feijões poderão salvar o mundo? (foto: Tijana Drndarski/Unsplash)

Há muitos equívocos sobre distúrbios alimentares, que podem afectar pessoas de todas as origens, dizem especialistas.

Para uma doença que afeta tantas pessoas, há muitos equívocos em relação aos distúrbios alimentares, alertam os especialistas.

De acordo com a ANAD, associação norte-americana sem fins lucrativos que fornece serviços de apoio a pessoas com transtornos alimentares, estes tipos de distúrbios afetam quase uma em cada dez pessoas em todo o mundo.

No entanto, numa cultura em que se continua a discriminar pessoas pelo facto de terem excesso de peso e em que se valoriza uma alimentação restritiva, corre-se o risco de normalizar os comportamentos próprios dos distúrbios alimentares, disse Jennifer Rollin, fundadora do The Eating Disorder Center em Rockville, Maryland.

No entanto, acrescentou, quando se vive com distúrbios alimentares, não é possível ter uma vida saudável e feliz. Aproveitando a Semana de Sensibilização para os Transtornos Alimentares, os especialistas partilham conselhos sobre como identificar transtornos alimentares e o que fazer.

O que define um transtorno alimentar

Uma definição simples é dizer que um transtorno alimentar é "um distúrbio psiquiátrico, caracterizado por mudanças no comportamento alimentar que prejudicam significativamente a capacidade de uma pessoa funcionar normalmente", explicou Stuart Murray, professor de psiquiatria e ciências comportamentais e diretor do Translational Research in Eating Disorders Laboratory da Universidade do Sul da Califórnia.

Mais especificamente, os distúrbios alimentares são doenças biopsicossociais, acrescentou Leah Graves, vice-presidente do departamento de nutrição e culinária da Accanto Health, organização especializada em tratamento de transtornos alimentares.

Há vários fatores que contribuem para que alguém desenvolva um distúrbio alimentar: características genéticas, traços de personalidade e de temperamento e, ainda, fatores sociais como o bullying, estigma social e experiências traumáticas.  

Mas o facto de ter alguém na família com distúrbios alimentares ou de ter possivelmente herdado uma predisposição para este tipo de doença, não significa que vá necessariamente desenvolver um distúrbio, disse Graves.

O que não é um transtorno alimentar

Os transtornos alimentares não são uma escolha, disse Lauren Smolar, vice-presidente do departamento de educação da National Eating Disorders Association.

Algumas pessoas acham que basta mudar os hábitos alimentares para alguém melhorar e deixar de ter um distúrbio alimentar, disse Smolar, mas trata-se de um problema muito mais profundo.

Murray, da Universidade do Sul da California, realça ainda que os distúrbios alimentares podem afetar qualquer pessoa, e não apenas mulheres jovens, brancas, com dinheiro, como no estereótipo que a maioria das pessoas tem na cabeça.

Também não se trata apenas de uma moda ou, então, de tentar perder uns quilinhos antes de um casamento ou para um sessão de fotos no Instagram, acrescentou o especialista. Para que as dietas e outros comportamentos para modificar o corpo sejam considerados distúrbios eles têm que ser repetidos ou permanentes, e terem um enorme impacto na vida da pessoa.

É certo que mesmo que um comportamento não encaixe em nenhum dos transtornos descritos e possíveis de diagnosticar, isso não quer dizer que uma pessoa não possa ter um problema. É preciso estar atento a uma “constelação de comportamentos que se desviam do que é considerado um comportamento alimentar típico e que pode mesmo ser incapacitante e afectar o funcionamento normal de uma pessoa”, disse ainda Murray.

Anorexia nervosa

De acordo com a National Eating Disorders Association, a anorexia nervosa caracteriza-se, geralmente, por perda de peso, diminuição do número de calorias ingeridas e um medo intenso de ganhar peso.

Os sinais de alerta para esta doença incluem: sobrevalorização do peso e do aspecto físico, regras rigorosas em relação à ingestão de alimentos, verificação de ingredientes, sigilo e evitar situações sociais que envolvam comida ou mostrar o corpo, disse Murray.

Bulimia nervosa

A bulimia nervosa é uma condição cíclica em que alguém comete excessos e depois compensa esse excesso com purgas, tais como vomitar ou tomar laxantes.

Quem tem bulimia tende a usar a casa de banho logo após uma refeição ou a dizer que se vai esforçar mais no ginásio, disse Murray. Pode também tomar laxantes ou diuréticos, acrescentou ele.

Ingestão alimentar compulsiva

É um dos distúrbios alimentares mais comuns. A National Eating Disorders Association explica que, neste caso, as pessoas comem enormes quantidades de comida em pouco tempo, ao ponto de se sentirem mal.

Não parece tão diferente daquilo que muitos de nós fazemos de vez em quando, especialmente em celebrações e ocasiões especiais, disse Murray. Mas, no caso de quem sofre deste distúrbio, há uma perda de controlo em relação à comida. E também vergonha e sigilo.

Transtorno alimentar restritivo/evitativo

Um dos mais recentes distúrbios alimentares reconhecidos, lembra Graves, da Accanto Health, é transtorno alimentar restritivo/evitativo.

Neste caso, a pessoa evita grupos de alimento. Pode ser confundida com uma pessoa “esquisita” com a comida ou "picuinhas", disse Murray, mas é mais grave do que isso.

Segundo Rollin, do The Eating Disorder Center, as pessoas evitam certos alimentos com características específicas ou podem ter preocupações excessivas em relação às consequências de comer certos alimentos, como terem medo de vomitar ou de se engasgar.

Tipicamente, as pessoas com este transtorno só se sentem bem a comer certos alimentos e ficam angustiadas se têm que sair da sua zona de conforto e comer alimentos fora dessa gama, acrescentou ela.

Este tipo de distúrbio pode levar a perda de peso, problemas nutricionais, afetar o crescimento e até mesmo o comportamento psicológico e social, disse ainda Rollin.

Outros distúrbios alimentares

Quando alguém sofre de um distúrbio alimentar mas o seu comportamento fica fora dos critérios de diagnóstico dos transtornos alimentares acima mencionados, pode ser dado um diagnóstico de  Outros Distúrbios Alimentares, explicou Smolar.

Há também comportamentos que estão a ser discutidos na comunidade médica mas que ainda não estão diagnosticados.

Ortorexia, por exemplo, é um termo utilizado para descrever uma fixação na alimentação que a pessoa determinou ser saudável mas que se torna excessivamente rígida e pode causar stress quando a pessoa não consegue cumprir as exigências que estabeleceu, disse Rollin.

A vigorexia ou transtorno dismórfico muscular está associada a padrões de comportamento semelhantes aos da anorexia ou da bulimia nervosa, tais como restringir calorias, seguir regras rígidas e fazer exercício extenuante, bem como controlar a ingestão de proteínas, tudo para alcançar um corpo musculado, disse Murray.

Como procurar ajuda

Se reparar em sinais numa pessoa próxima, tente conversar com ela de forma sensível, sem julgamentos, explicando quais os comportamentos que lhe parecem preocupantes, disse Graves.

Se está preocupado com o seu próprio comportamento, é importante procurar ajuda profissional. Rollin recomendou procurar terapeutas especializados em distúrbios alimentares, que podem fazer uma avaliação e depois recomendar as terapias necessárias.

Nos EUA, a National Eating Disorders Association tem uma ferramenta online de rastreio, que pode ser usada por pessoas com 13 anos ou mais para perceberem se está na altura de pedirem ajuda.

[Em Portugal, o SNS tem uma página com mais informações sobre distúrbios alimentares. Pode consultar essa página aqui.]

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