Uma “armadura” que quer transformar os soldados do futuro no Iron Man, armas laser que destroem mísseis e artilharia inimigos e até mesmo armas capazes de destruir e imobilizar todas as infraestruturas críticas de um país sem disparar um tiro. Os exércitos mais avançados do mundo continuam em busca de novas e mais eficazes formas de ganhar superioridade no campo de batalha e algumas das soluções encontradas podem surpreendê-lo… ou levantar muitas questões.  

Armas autónomas letais

Imagine um pequeno robô. Agora, imagine que esse robô está armado com uma metralhadora. Ao contrário do que acontece hoje, onde o robô é comandado por um operador a dezenas de quilómetros de distância, este este foi programado para agir autonomamente. A sua missão é entrar numa determinada região, procurar, encontrar, selecionar e destruir todos os alvos que lhe foram atribuídos. 

Pode parecer fição, mas este tipo de armas está em desenvolvimento nos EUA e já se encontram numa fase muito avançada. No entanto, esta tecnologia levanta profundas questões éticas. Ao contrário dos drones que têm sido utilizados em larga escala na guerra na Ucrânia, que são programados ou guiados por um operador, estas armas colocam “nas mãos” de um algoritmo a capacidade de decisão final sobre acabar com a vida de uma pessoa. Problemas na capacidade de discernir entre alvos “bons e maus”, bem como alvos civis ou militares, colocam em causa a segurança e fiabilidade destes sistemas.

Por outro lado, para os exércitos mais sofisticados do mundo, estas armas apresentam uma clara vantagem: a capacidade de colocar robots em situações de alto risco que anteriormente tinham de ser levadas a cabo por soldados que ficavam em perigo de vida.
“Na minha opinião deveria ser absolutamente necessário que um humano tivesse a possibilidade de intervir de forma decisiva, seja decidir disparar ou não, seja noutras fases”, afirma Bruno Oliveira Martins, do Instituto de Pesquisa de Paz de Oslo, numa entrevista à Exame Informática.

Estas armas devem estender-se a todos os ramos da Defesa. A Marinha norte-americana estuda há vários anos a possibilidade de incorporar sistemas de inteligência artificial em navios. O caso mais conhecido é o do Sea Hunter, um protótipo de navio antisubmarino autónomo.

Lasers

E se lhe dissermos que no futuro (não muito longínquo), a guerra também será feita com lasers? A indústria de armamento norte-americano chama-lhe Armas de Energia Direcionada (Directed Energy Weapons, em inglês) e estão numa fase muito avançada de desenvolvimento, com o próprio Senado norte-americano a pedir à empresa Lockheed Martin que acelere o seu desenvolvimento.

Viajam à velocidade da luz, são precisos e acertam com bastante facilidade em alvos em movimento, o que faz deles um potencial a defesa antiaérea ideal. Lasers suficientemente potentes são capazes de acertar e destruir um alvo em pouco tempo, com o calor gerado pelo raio laser a destruir a superfície do alvo com rapidez.

E os Estados Unidos da América acreditam mesmo no potencial destas armas. Em agosto do ano passado, ao mesmo tempo que trabalham no desenvolvimento de tecnologia com o setor privado, decidiram criar o Laboratório de Integração de Sistemas de Energia Direcionada, para desenvolver, produzir e incorporar mais rapidamente estes sistemas.

As versões menos potentes, capazes de destruir mísseis e granadas anti veículo a curtas distâncias estão mesmo prestes a ser apresentadas pela primeira vez, com a introdução de um sistema de defesa laser de 50-quilowatts nos veículos blindados Stryker. Estes veículos altamente blindados podem levar até 11 tripulantes que são alvos fáceis para as formas modernas de ataque.

Drones kamikaze, munições inteligentes de artilharia ou até mesmo os mais mortíferos mísseis anti tanque guiados por infravermelhos podem, em teoria, ser travados pelo sistema que será agora introduzido nestes veículos. Daí até vermos sistemas de laser a defender os céus, é só uma questão de tempo.

Armas espaciais

Uma componente cada vez maior da guerra já se trava no espaço, embora possa não se aperceber disso. Os mapas utilizados pelos militares, a informação de imagens em tempo real que permite detetar movimentos do inimigo, às comunicações encriptadas e transmitidas em segurança, tudo isto passa por uma vasta rede de satélite que se encontram em órbita. E estas capacidades fazem destes objetos alvos militares apetecíveis de abater.

É por isso que vamos assistir cada vez mais a uma corrida às armas espaciais. Da China, à Índia, aos Estados Unidos e à Rússia, vários países já têm mísseis antisatélite e já fizeram questão de o mostrar, destruindo satélites reformados que pairam no espaço. Por esse motivo, no futuro não muito distante poderemos começar a ver satélites com capacidades defensivas próprias, tornando estes mísseis obsoletos.

Mas nesse futuro o espaço poderá ser não só um local de recolha e transmissão de informação, mas também um sítio de onde serão levados a cabo ataques. Os Estados Unidos da América formaram em 2019 um quarto ramo das forças armadas destinado a esse propósito.

Para já a tecnologia ainda é limitada e os vários exércitos preferem investir os seus orçamentos noutras áreas mais prioritárias, como a tecnologia laser, a inteligência artificial ou até mesmo a tecnologia hipersónica.

Tecnologia de negação ativa (Active Denial System)

Os Estados Unidos da América já desenvolveram esta tecnologia e existem rumores de que a China e a Rússia também o estarão a fazer. Esta arma de “energia direcionada” não letal é descrita como capaz de “parar, deter e obrigar a recuar” indivíduos suspeitos ao emitir um laser que induz dor sem provocar lesões no alvo.

O raio disparado por este sistema viaja à velocidade da luz, mas é invisível. A frequência emitida penetra levemente a pele humana a profundidade equivalente a três folhas de papel. Esta arma produz uma sensação de aquecimento intolerável, obrigando o indivíduo alvo mover-se instintivamente. O sistema para imediatamente após o indivíduo sair do caminho ou por ordem de um operador.

Versões primitivas desta arma foram utilizadas durante a invasão do Afeganistão, em 2010. Dez anos mais tarde, as autoridades norte-americanas chegaram mesmo a sugerir a utilização da tecnologia de negação ativa para contra os manifestantes que se aglomeravam junto à Casa Branca, mas essa solução acabou por não ser explorada.

Ainda em desenvolvimento, muitos admitem que esta arma poderá ter várias utilidades além do controlo de multidões, por parte da polícia. Mais desenvolvimento poderá permitir a esta arma localizar alvos de forma autónoma, bem como tornar-se mais pequena e portátil. Atualmente é necessário um camião próprio para transportar esta tecnologia. Assim, poderá ser utilizada na proteção de veículos ou no transporte de mercadorias de valor.

Transportador de Carga Humana Universal

A premissa é antiga: e se os nossos soldados tivessem um fato que lhes permitisse transportar mais peso, correr mais tempo do que o inimigo sem se cansarem? É isso que este instrumento tenta resolver. O Transportador de Carga Humana Universal é um exoesqueleto hidráulico capaz de auxiliar um soldado, permitindo-o transportar cargas muito mais pesadas, com muito menos esforço.

Originalmente desenvolvido pela Berkeley Bionics, em 2008, este projeto teve diversos falhanços ao longo dos anos, dada a complexidade técnica que este tem. O sistema desenvolvido pela empresa Lockheed Martin permite ajustar o dispositivo à altura dos soldados e pesa 24 quilos sem as baterias.

O esqueleto possui um microcomputador que permite ao mecanismo responder de acordo com as necessidades do utilizador. Quando um soldado o tem vestido, consegue correr uma distância de 20 quilómetros a uma velocidade de 4 quilómetros por hora, embora o mecanismo permita velocidades até às 16 quilómetro por hora. O exoesqueleto opera com baterias de lítio. A função de economia de energia permite que o sistema suporte a carga de peso máxima mesmo quando a carga da bateria está baixa.

Mas se o fato do Iron Man do soldado do futuro ainda é uma miragem, o mesmo pode não ser dito das versões mais simples que o exército americano quer introduzir já este ano. Em 2023, os norte-americanos esperam por em ação um exoesqueleto leve e simplificado que irá auxiliar 460 militares diagnosticados com dores de costas. São conhecidos pela sigla SABER e são a primeira experiência de adoção de exoesqueletos em massa pelo exército. 

Ciberarmas do futuro

Corria o ano de 2010, quando uma empresa de cibersegurança bielorrussa descobriu um vírus curioso. Estava programado para se propagar de forma inofensiva através de computadores até encontrar o alvo para o qual estava programado. A sua vítima era o sistema de controlo industrial SCADA, desenvolvido pela empresa Siemens, utilizado para controlar as centrifugadoras de enriquecimento de urânio do Irão. O grau de sofisticação desta ciberarma deixou o mundo da cibersegurança em sobressalto. Muitas pessoas temeram que o vírus, possivelmente desenvolvido pelos Estados Unidos e Israel e que ficou conhecido como Stuxnet, desse origem a uma corrida armamentista.

É difícil prever que tipos de ciberarmas e ciberataques são desenvolvidos, em particular por Estados com elevados orçamentos para a defesa, como a América ou a China. Mas é possível adivinhar os seus alvos. Todos eles infraestruras críticas: de redes elétricas, de gás e de água, telecomunicações, transportes, serviços financeiros e de saúde, todos estão à mercê de poderosos ciberataques.

Um bom exemplo disso, foi o ataque às infraestruturas críticas ucranianas em 2017. Quando um vírus de origem russa apagou todos os dados de diversas instituições importantes para o funcionamento do país. O mesmo foi tentado na véspera da invasão russa à Ucrânia, mas com menor sucesso.  

O problema destas armas é que um ator isolado, suficientemente qualificado, pode quebrar as defesas de um sistema e conseguir roubar vários vírus que lhe permitam levar a cabo ataques extremamente complexos individualmente, bloqueando comunicações ou o acesso a serviços vitais ao funcionamento em sociedade.

João Guerreiro Rodrigues