Durante 80 anos, aquela ala do Palácio Nacional de Queluz manteve-se interdita aos olhares comuns. O chamado Pavilhão D. Maria I, um palacete dentro deste outro palácio real às portas de Lisboa, serviu e serve como residência oficial de chefes de Estado e individualidades estrangeiras em Portugal. Restaurado e musealizado, pode agora ser visto por todos em ocasiões especiais, ainda que em grupos pequenos. A próxima é a 5 de fevereiro. 

Não é à toa que o nome de Isabel II surge e surgirá várias vezes ao longo da visita com Conceição Coelho, conservadora neste palácio desde 1986, e Hugo Xavier, também conservador neste monumento nacional. Em 1956, o Pavilhão sofreu obras profundas de modernização para receber a rainha de Inglaterra. No ano seguinte, a monarca e o marido registaram o momento da sua passagem pelo pavilhão D. Maria assinando o livro de honra que pode ser visto no piso térreo da residência. 

Antes de abrir passagem aos quartos e à zona realmente privada, Conceição Coelho faz um disclaimer: “Quando  pensámos em musealizar este espaço queríamos replicar como era quando a rainha Isabel II aqui esteve, mas quando começámos esse trabalho percebemos que tudo o que aqui estava vinha ora do Palácio da Ajuda, ora do Museu de Arte Antiga ou do próprio Palácio de Queluz”. “O que é hoje? O resultado desses 60 anos de utilização”, resume. Resultado: optaram por recriar os espaços combinando elementos de vários momentos - da campanha de obras de 1940 que transformou a antiga escola agrícola (o seu uso após a implantação da República) à vista da rainha de Inglaterra, passando por detalhes de 1988, a última vez que estes 25 compartimentos receberam obras para albergar altas figuras de Estado. 

Da suite presidencial dos anos 40 do século XX, que recebeu Filipa de Bragança em visita a Portugal por ocasião do bicentenário, a residência passou a ter duas suites - uma para a rainha Isabel II e outra para o Duque de Edimburgo em 1957. “Não sabemos se foi um pedido do casal.” 

“Temos registo disto: três dias antes e três dias depois da presença da rainha aqui, o Palácio de Queluz fechava ao público”, diz Hugo Xavier. Era preciso trazer camas e mobiliário, até um piano do palácio de Queluz, e de outros palácios e monumentos. Por exemplo, a baixela Germain habitualmente em exposição no Museu Nacional de Arte Antiga foi aqui de uso quotidiano. O duque de Edimburgo, a solo, voltaria a ocupar o mesmo quarto em 1973 e o casal voltaria em 1985. Dois anos depois, Carlos e Diana também ocuparam os mesmos espaços. Foram dos últimos a ver esta casa como ela foi preparada para a rainha Isabel II. 

Após uma intensa utilização após o 25 de Abril, a necessidade de obras era evidente, como mostra a documentação que Conceição Coelho consultou nos últimos anos enquanto pesquisava sobre este espaço. Alguns quartos ganham a casa de banho privativa que não tinham, por exemplo. Uma ‘modernice’ que só tinha chegado nos anos 50 ao piso nobre.

No quarto onde dormiu Isabel II sobressai a cama de dossel e duas mesas de cabeceira que vieram do Museu de Arte Antiga e aqui se mantêm “num empréstimo de longa duração” e até o closet da rainha merece uma vista de olhos para ver os cabides. “Vieram do Palácio da Ajuda”, explica Conceição Coelho. Possuem uma vara ao centro que permite pendurá-los em zonas mais altas, já que eram para vestidos mais longos do que os atuais. E os tapetes de Arraiolos são de “uma grande encomenda de 1988”. 

Conceição Coelho caminha pelos quartos, avança para a sala de estar e finalmente a sala de jantar com as várias plantas da casa e das sucessivas decorações na cabeça.  

Com o passar dos anos e sobretudo nos anos 80 passou a ser regra uma decoração personalizada em função do ocupante. Isabel II podia tomar chá na sala de estar observando o quadro de Catarina de Bragança, que foi rainha em Inglaterra.

Ainda é residência oficial

Embora se conserve como residência oficial, desde 2004 que ninguém pernoita aqui. O então presidente da Polónia foi o último ocupante, sucedendo a personalidades como o rei Juan Carlos e a rainha Sofia, de Espanha, ou o filho, o então príncipe Felipe, vários presidentes do Brasil e, mais atrás, o ditador espanhol Francisco Franco e o presidente dos EUA Eisenhower, ou nos anos 70 Marcello Caetano, que aqui assentou arraiais enquanto São Bento estava em obras. 

Porém, mesmo agora que os chefes de Estado escolhem hotéis e embaixadas em Lisboa para pernoitar e “as visitas são mais curtas”, como notam os conservadores, esta residência continua a ter funções oficiais. 

Foi aqui que Bill Clinton, de visita a Portugal, “montou o seu gabinete”. Foi aqui que Jorge Sampaio se instalou após deixar a Presidência da República, enquanto o gabinete que veio a ocupar era remodelado (no pavilhão de pintura de D. Maria no Palácio das Necessidades). Foi aqui que Cavaco Silva montou o seu gabinete antes de tomar posse como Presidente da República e o mesmo aconteceu com Marcelo Rebelo de Sousa. Aliás, pouco antes das últimas obras - de pintura, restauro e tratamento dos pavimentos -, o atual Presidente da República abriu espaço na agenda para ver os trabalhos.  

Enquanto cruza os jardins do Palácio de Queluz em direção ao Pavilhão D. Maria I, a conservadora Conceição Coelho, que aqui trabalha desde 1986, explica que o edifício é testemunha de muitos momentos importantes da história do país. Da necessidade de afirmação de Portugal em África em pano de fundo na primeira visita de Isabel II, em 1957, à adesão de Portugal à CEE, que a trouxe de novo ao país. 

Muito antes disso, serviu de residência a D. Maria I (daí o seu nome) quando já não se encontrava bem de saúde e embora continuasse próxima do filho, D. João VI, não fazia parte das cerimónias da corte. E ainda antes, no início de tudo, o edifício foi pensado para albergar o primogénito de D. Maria e D. Pedro III, José, que viria a falecer aos 27 anos de varíola. 

Os longos corredores do piso térreo abrem-se para salas com janelas para o jardim do Palácio de Queluz e vão deixando à vista salas de reuniões, quartos de apoio às comitivas, ou a pintura mural do pintor Antero Basalisa, executada em 1956, antecipando a visita da rainha de Inglaterra e do marido, o duque de Edimburgo. 

A próxima visita guiada está marcada para 5 de fevereiro, às 15.00, para um máximo de 10 participantes. Tem a duração de 60 minutos. 

Lina Santos