O Ártico está prestes a ficar "gravemente doente" - TVI

O Ártico está prestes a ficar "gravemente doente"

  • CNN
  • Rachel Ramirez
  • 10 jun 2023, 14:00
Gelo em Svalbard, Noruega, 6 de abril de 2023. Esta parte do Ártico está a aquecer até sete vezes mais depressa do que a média global. Lisi Niesner/Reuters

Resultados de um novo estudo mostram que o Ártico pode ficar sem gelo marinho já a partir de 2030, muito antes do previsto

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O Ártico poderá ficar sem gelo marinho cerca de uma década antes do previsto, alertam os cientistas - outro sinal claro de que a crise climática está a acontecer mais depressa do que o esperado, à medida que o mundo continua a bombear poluição que aquece o planeta.

Um novo estudo publicado na revista Nature Communications concluiu que o gelo marinho do Ártico poderá desaparecer completamente no mês setembro da década de 2030. Mesmo que o mundo faça cortes significativos na poluição que aquece o planeta, o Ártico poderá ter verões sem gelo marinho em 2050, segundo os cientistas.

Os investigadores analisaram as mudanças ocorridas entre 1979 e 2019, comparando diferentes dados de satélite e modelos climáticos para avaliar a forma como o gelo marinho do Ártico estava a mudar.

Descobriram que o declínio do gelo marinho era em grande parte o resultado da poluição causada pelo homem e pelo aquecimento do planeta, e os modelos anteriores haviam subestimado as tendências de derretimento do gelo marinho do Ártico.

"Ficámos surpreendidos ao descobrir que o Ártico não terá gelo no verão, independentemente dos nossos esforços para reduzir as emissões, o que não era esperado", disse à CNN Seung-Ki Min, autor principal do estudo e professor na Universidade de Ciência e Tecnologia de Pohang, na Coreia do Sul.

O gelo do Ártico acumula-se durante o inverno e depois derrete no verão, atingindo normalmente os níveis mais baixos em setembro, antes de o ciclo recomeçar.

Quando os verões no Ártico ficarem sem gelo, a acumulação de gelo marinho nas estações mais frias será muito mais lenta, observou Min. Quanto mais quente for o clima, maior será a probabilidade de o Ártico não ter gelo marinho durante a estação fria.

De acordo com o estudo, num "cenário de emissões mais elevadas" - em que o mundo continua a queimar combustíveis fósseis e os níveis de poluição que aquecem o planeta continuam a aumentar - prevê-se que o Ártico venha a registar uma perda total de gelo marinho de agosto até outubro, antes da década de 2080, apontou Min.

Gelo do mar Ár​​​​​tico junto à costa de Svalbard, Noruega, 5 de abril de 2023. Lisi Niesner/Reuters

As conclusões do estudo contrastam com o relatório do estado da ciência do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021, que descobriu que o Ártico estaria "praticamente sem gelo perto de meados do século em cenários de emissões intermediárias e altas de gases de efeito de estufa".

Este novo estudo mostra que isso poderia acontecer dez anos antes, independentemente dos cenários de emissões.

Nas últimas décadas, o Ártico aqueceu quatro vezes mais depressa do que o resto do mundo, segundo um estudo de 2022. Já se registou uma rápida perda de gelo marinho na região, com o gelo marinho de setembro a diminuir a um ritmo de 12,6% por década, segundo a NASA.

Um Ártico sem gelo marinho no verão teria efeitos terríveis em todo o mundo. O gelo branco brilhante reflete a energia solar para longe da Terra. Quando este gelo derrete, expõe o oceano mais escuro, que absorve mais calor, provocando um aquecimento adicional - um processo de retroação chamado "amplificação do Ártico".

O declínio do gelo marinho pode também ter um efeito no clima global que se estende muito para além do Ártico.

"Temos de nos preparar para um mundo com um Ártico mais quente muito em breve", antecipou Min. "Uma vez que o aquecimento do Ártico trará fenómenos climáticos extremos, como ondas de calor, incêndios florestais e inundações nas latitudes médias e altas do Norte, o aparecimento mais precoce de um Ártico sem gelo implica também que os fenómenos extremos ocorrerão mais rapidamente do que o previsto."

Um Ártico sem gelo poderá também levar a um aumento do transporte marítimo comercial à medida que se abrem novas rotas, o que terá um efeito de arrastamento. De acordo com o relatório anual sobre o Ártico publicado no ano passado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica [NOAA], um aumento do tráfego marítimo conduziria a mais emissões e poluição na região.

Mika Rantanen, investigador do Instituto Meteorológico Finlandês e principal autor do estudo de 2022, disse à CNN que o estudo agora publicado beneficiou de uma "metodologia nova e avançada" para prever quando o Ártico estará livre de gelo.

"A metodologia é muito cuidadosa e permite um elevado grau de certeza na atribuição", sublinhou Rantanen, que não participou no novo estudo. "O resultado mais surpreendente não é o facto de a perda de gelo marinho ser atribuída ao aumento dos gases com efeito de estufa, o que já era amplamente conhecido, mas o facto de se prever um Ártico sem gelo mais cedo do que se pensava, cerca de uma década."

Para Min, os resultados mostram que o Ártico está prestes a ficar "gravemente doente" e que a região atingiu um "ponto de viragem".

"Podemos considerar o gelo marinho do Ártico como o sistema imunitário do nosso corpo, que o protege de coisas nocivas", comparou Min. "Sem protetor, o estado do Ártico irá rapidamente de mal a pior."

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