A ciência pode estar prestes a provar a inocência da "pior assassina em série da história". Há "dúvida razoável" sobre se Kathleen Folbigg matou os quatro filhos - TVI

A ciência pode estar prestes a provar a inocência da "pior assassina em série da história". Há "dúvida razoável" sobre se Kathleen Folbigg matou os quatro filhos

  • CNN Portugal
  • MCP
  • 27 abr 2023, 22:46
Kathleen Folbigg durante julgamento em 2019 (Joel Carrett/AP)

A segunda revisão do caso contempla que os filhos podem mesmo ter morrido por causas naturais, tal como a cientista Carola García de Vinuesa tem vindo a argumentar

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Vinte anos depois de ter sido condenada a 30 anos de prisão pela morte dos seus quatro filhos bebés (Caleb, 19 dias de idade, Patrick, oito meses, Sarah, 10 meses e Laura, de 18 meses), a australiana Kathleen Folbigg, apelidada de “a pior assassina em série da Austrália”, vê a revisão do seu caso, promovida pela cientista Carola García de Vinuesa e outros colegas, a ponderar que as crianças possam ter morrido por causas naturais. Segundo Sophie Callan, a principal advogada assistente do juiz, o "o conjunto de evidências deixa dúvidas razoáveis ​​sobre a culpa da Sra. Folbigg". O que significa que o caso pode ser uma das maiores injustiças judiciais da história.

Na acusação de 2003, altura em que foi condenada, foi invocada a lei de Meadow, assim chamada por causa do pediatra britânico Roy Meadow, que teorizou que uma morte súbita é uma tragédia, duas são suspeitas e três são assassínios até que se prove o contrário - o que foi considerada uma falta de conhecimento sobre genética pela cientista García de Vinuesa.

“Meadow disse que a chance [de mortes naturais] era de uma em 73 milhões e isso não era verdade. Se você tem uma mutação dominante, é uma chance em duas em cada filho. Com quatro filhos, seria uma chance em 16. Dizer que é um em 73 milhões é não entender de genética", argumentou em entrevista ao El País.

Folbigg, que hoje tem 55 anos, também escreveu no seu diário algumas reflexões que, fora de contexto, foram vistas como negativas naquela altura. “Sinto-me a pior mãe do mundo. Tenho receio que ela [falando da filha Laura] me deixe. Como a Sara fez. Eu sei que por vezes tive um temperamento mau e fui cruel com ela e ela foi embora. Com uma ajudinha", dizia. No julgamento, a acusada explicou que se referia à ajuda de Deus ou do destino.

A primeira revisão da sentença, em 2019, não mudou nada, mas o caso deu a volta em 2021, quando uma equipa liderada pela cientista Carola García de Vinuesa demonstrou que as duas meninas tinham uma mutação letal do gene CALM2 , e que essa teria sido a causa de uma arritmia cardíaca e, por fim, a morte súbita das bebés enquanto dormiam. A investigadora e os colegas revelaram ainda que as duas crianças tinham outras doenças com componentes genéticos. Patrick provavelmente sofria de encefalopatia epiléptica e Caleb sofria de problemas respiratórios.

O juiz, Tom Bathurst, ainda não publicou as suas conclusões, mas geralmente vão ao encontro das do seu advogado principal. Pode haver uma recomendação de clemência iminente, mas a decisão de libertar Folbigg será do político do Partido Trabalhista Australiano, Michael Daley, procurador-geral de Nova Gales do Sul.

Mais de uma centena de cientistas de prestígio – incluindo três vencedores do prémio Nobel australianos: a bioquímica Elizabeth Blackburn, o imunologista Peter Doherty e o astrofísico Brian Schmidt – pediram por escrito em 2021 a libertação de Folbigg. Um deles é Peter Schwartz, diretor do Centro de Arritmias Cardíacas de Origem Genética, em Milão. 

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