Pedro, Catarina e Maria João. Procuram no mundo o que Portugal não consegue oferecer. Falta de acesso à habitação foi só mais um motivo para partirem - TVI

Pedro, Catarina e Maria João. Procuram no mundo o que Portugal não consegue oferecer. Falta de acesso à habitação foi só mais um motivo para partirem

Emigrantes

Cada vez mais jovens emigram para vários cantos do mundo à procura de melhores condições de vida. Em alguns casos, a emigração foi a única forma de saírem de casa dos pais. Em comum, têm uma certeza: não querem regressar a Portugal

Pedro, Catarina e Maria João. Nasceram e delinearam os sonhos para o futuro em Portugal, país dos trajes negros e cânticos universitários que, afinal, não sabe o que fazer com os recém-formados de canudo na mão. O ensino superior, um dos mais prestigiados da Europa, confina o prestígio a esses anos de estudo intensivo. Depois, desagua na aridez de um mercado de trabalho precário e de enormes obstáculos para aceder à habitação. Partir à aventura no estrangeiro é, por vezes, a única alternativa a um futuro ainda mais incerto em casa.

Para cada vez mais jovens, Portugal é uma mera rampa de lançamento em busca da vida que merecem. O emprego até existe no país de nascença, mas os baixos salários e um estilo de vida desproporcionalmente elevado afastam quem ainda se atreve a pensar na juventude como os melhores anos da vida. O rosto do emigrante já não é unicamente representado pelo trabalhador humilde, disposto a tornar-se mão-de-obra barata num país próximo. São estes os novos emigrantes: jovens, ambiciosos, e altamente qualificados.

O estrangeiro oferece melhores salários e a possibilidade de uma vida mais folgada, fora da alçada dos pais. Os jovens portugueses são os que mais tarde abandonam o ninho entre a média europeia, com a independência da casa dos vinte a ser passada no mesmo teto da infância e da adolescência, num adiar constante da emancipação. Em alguns casos, sair de casa dos pais só é possível ao sair do país.

Química holandesa

Pedro Lourenço é engenheiro químico na Holanda desde outubro do ano passado. É o mais novo do trio de entrevistados, com 27 anos, mas já passou por vários países europeus no âmbito da investigação de doutoramento em Ciências dos Materiais. “A remuneração é mais elevada em praticamente todos os países da União Europeia, mesmo tendo em conta o estilo de vida. Ganha-se muito mais, sem dúvida, mas não é só isso”, assegura.

Pedro sabe que estaria a viver em casa da mãe se tivesse permanecido em Rio de Mouro, onde cresceu e frequentou o ensino secundário. Não tanto por não ter capacidade financeira para arrendar uma casa, até porque o salário inicial na sua área de trabalho é de cerca de 1.300 euros em Portugal, mas porque não considera “razoável” ter de gastar mais de metade do salário no mero direito à habitação. “Para quem tirou um doutoramento, não faz sentido ficar apenas com 600 euros depois de pagar a renda”.

Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) são a prova desta realidade. O valor mediano das rendas em Portugal voltou a aumentar no final do terceiro trimestre do ano passado e já era o mais elevado, pelo menos desde 2020. Uma casa para arrendar em Sintra, por exemplo, no concelho de que faz parte Rio de Mouro, atingiu um valor de 8,56 euros por metro quadrado no final do terceiro trimestre do ano passado. Se Pedro quisesse alugar uma casa perto da mãe, provavelmente veria metade do salário desaparecer num apartamento com 75 metros quadrados.

Em Eindhoven, a realidade é outra. O salário que recebe permite-lhe comprar tudo o que quer e precisa. Parte do dinheiro é imediatamente poupada; a outra parte, gasta-a em viagens ao redor do globo. Não é bens materiais que procura. É a experiência de conhecer o mundo.

Mas, como dizia, “não é só isso”. Para além do aspeto financeiro, toda a “cultura de trabalho” é diferente e reduz-se a um dos múltiplos aspetos na vida da pessoa trabalhadora, não ao propósito central. “Só se trabalha um certo número de horas por dia, as perspetivas de progressão na carreira são melhores.” Pedro vai enumerando os privilégios de trabalhar em Eindhoven em conversa telefónica, com os cantos dos pássaros e gargalhadas de conversas alheias a irromper ocasionalmente pelos altifalantes. Vai trabalhar dentro de algumas horas, com uma “motivação genuína” que sabe que não encontraria em Portugal.

“Este ambiente de trabalho tem a ver com os sindicatos”, explica. “Apesar de a Holanda ser um país liberal e capitalista, tem uniões que funcionam muito bem e negoceiam com o Governo”. Portugal é “frouxo” no que toca à luta pelos direitos dos trabalhadores: vão-se ouvindo críticas aqui e ali, os comentários das redes sociais multiplicam-se em lamentos de que “tudo funciona mal” e “isto não pode ser”, mas raramente se tomam as ruas em protesto digno desse nome. E tudo permanece igual.

A somar às dificuldades, Portugal é também um país de criatividade limitada. Pedro trabalha numa empresa de semicondutores onde se fabricam chips para telemóveis, carros e computadores. Em Portugal, teria de se resignar a um trabalho na área da programação: parecido, mas não totalmente a sua área. “Imagino eu, porque nunca trabalhei em Portugal, mas provavelmente agora estaria a trabalhar para uma consultora encarregada de fazer um projeto para outra empresa qualquer”. Em Eindhoven, tem a oportunidade de “fazer coisas novas, criá-las e mudá-las” desde a sua origem, ser agente criativo e não apenas passivo. “Há funções aqui que nem sequer têm nome em Portugal”.

Pedro Lourenço, 27 anos. Trabalha na Holanda desde outubro de 2022

Microbiologia em Copenhaga

No coração de Copenhaga, na Dinamarca, Catarina Rocha debate-se com a mesma dificuldade. Depois do Mestrado em Microbiologia em Lisboa e de uma passagem pela Alemanha, trabalha há cerca de um ano como química analítica na Universidade Técnica de Copenhaga, onde também está a frequentar um Doutoramento na área de Biotecnologia, Bioquímica e Microbiologia. Detém-se alguns momentos a explicar as funções que foi desempenhando nos últimos anos, pronunciando “química analítica” e “técnica superior” com hesitação palpável, antes de se desculpar: “Tenho alguma dificuldade em traduzir as posições em que estive até agora, exatamente por não existirem equivalentes em Portugal”.

A ciência em Portugal é um caminho estreito e sem grandes ramificações. “É fazer o mestrado, doutoramento, pós-doc, e não há muitas opções para além disto”, lamenta. O que existe, é a recibos verdes e sempre ensombrado pela inescapável sensação de que pode ser despedida "sem razão nenhuma, de um dia para o outro”. Em contraste com as portas fechadas e becos sem saída no país de origem, as oportunidades abundam no exterior e conduziram-na “ao melhor país” onde já viveu, a Dinamarca, onde até mesmo os invernos de seis horas de sol se gerem bem com suplementos de vitamina D e um equilíbrio entre as horas de trabalho e, enfim, a vida.

À semelhança de Pedro, a jovem de 30 anos começa por reconhecer que “os salários são muito diferentes” e permitem acompanhar um custo de vida algo elevado quando comparado com outros países europeus, sobretudo na renda e em atividades não essenciais como idas ao cinema ou jantares em restaurantes. Ainda assim, dá para usufruir de “tudo”, muito mais do que seria possível em Portugal, em que o fosso entre ordenados e custo de vida começa a tornar-se um abismo.

Para além do salário, importa também “toda a segurança que vem associada a ele”. O trabalho de investigação na Dinamarca dispõe de todas as regalias associadas a um contrato de trabalho, desde seguro de saúde a subsídios de férias e bónus ocasionais. “Não é só o ordenado em si ser mais elevado, é também tudo o que está associado a não ser uma bolsa, que seria o estatuto em que estaria a trabalhar se estivesse em Portugal”.

Mais do que a necessidade, Catarina reconhece que foi a paixão pelo desconhecido a impulsioná-la para fora. “Queria experimentar um ambiente internacional, queria abrir horizontes”, e ter encontrado uma estabilidade praticamente inacessível aos colegas que permaneceram em Portugal foi a cereja no topo de um bolo que já planeava confecionar desde o início. Se sentir que “já não há mais nada a aprender”, não precisa de ficar atrelada a um trabalho já ultrapassado porque há uma longa lista de opções à sua espera.

A estabilidade, o descanso de saber que o emprego deve adaptar-se às suas necessidades e não as limitar, repercute-se na qualidade de vida. Depois das sete horas e meia de trabalho, a cultura dinamarquesa não só espera como incentiva a que sobre tempo para a família, para passear, para praticar hobbies diariamente. “As pessoas são mais relaxadas: não há a ideia de que a semana é para trabalhar e que só é permitido descansar ao fim de semana”, diz Catarina, embora os velhos costumes portugueses tenham resistido por algum tempo.

Tanto na Alemanha como na Dinamarca, assim que excedia as horas diárias de trabalho os colegas faziam questão de relembrá-la do novo enquadramento. Entre risos, imita o tom de voz assertivo de quem a abordava com um pigarrear e dizia: “Olha, tudo bem, acabaste de chegar, mas é assim que as coisas funcionam aqui. Não é suposto ficares mais tempo do que as tuas horas de trabalho”. O mesmo acontece com os dias de férias – um direito tão inviolável que até os Recursos Humanos o supervisionam de perto. “Não podemos passar mais do que cinco dias de férias para o ano seguinte, e se passarem vários meses sem que o trabalhador tenha tirado férias chamam-no logo à atenção”.

Uma vez adaptada à cultura de trabalho nórdica, Catarina admite que regressar à engrenagem portuguesa “não está, de todo, nos planos”. Pouco a liga ao país, de qualquer modo. As saudades da família gerem-se com telefonemas, com férias passadas em conjunto, com visitas de uma parte ou de outra. As capitais portuguesa e dinamarquesa estão a menos de quatro horas de distância e, encolhe os ombros, “é uma gestão”. Reivindicar um melhor futuro implica quase sempre deixar algo para trás, mas isso já o sabia: “faz parte da decisão que tomamos ao sair do país”.

Catarina Rocha, 30 anos. Vive na Dinamarca há cerca de um ano

Ensinar português em Macau

Para Maria João da Cruz, professora de Português Língua Estrangeira em Macau, a decisão foi mais difícil. Macau obriga a uma viagem de avião intercontinental tão longa que nem sequer tem percurso direto, da periferia europeia ao outro lado do mundo.

Licenciada em Tradução, sabia que o Mestrado lhe abria as portas ao resto da Europa. Ficar em Portugal era a última opção, porque não se queria sujeitar “a recibos verdes e a condições de trabalho precárias.” Começou com um estágio na Alemanha, onde recebeu um telefonema que viria a ditar o rumo dos anos seguintes. Estaria interessada numa vaga em Macau, acabada de abrir?

Mesmo quando foi aceite e começou a lecionar no Instituto Português do Oriente, geralmente encurtado no acrónimo IPOR, de mais fácil deslize na língua, “vinha à experiência” e não pensava fazer de Macau um destino permanente. O plano era “ficar algum tempo e depois regressar à Europa, mas acabou por não acontecer”. Tinha 24 anos quando pisou pela primeira vez o solo asiático. Agora, com 28, tem uma filha bebé que começa a juntar as primeiras palavras em inglês, mandarim e cantonês à língua da mãe.

Macau passou para as mãos da China em 1999, mas nunca cortou definitivamente o vínculo com Portugal. Um vínculo linguístico, cultural, que se estende dos pastéis de nata às pedras da calçada. Há uma presença portuguesa ainda ancorada na península, representada oficialmente por instituições como o IPOR, onde alunos macaenses e chineses aprendem uma das duas línguas oficiais de Macau. A língua que aparece em documentos e nomes de ruas, mas que poucos nativos compreendem.

Macau oferece mais estabilidade financeira do que Portugal. A juntar a ordenados superiores, disponibiliza também infraestruturas eficientes e um custo de vida que, se antes era compreensivelmente mais caro por se tratar da capital mundial do jogo, é agora equiparável à média portuguesa. As rendas têm aumentado nos últimos anos, muito devido à pandemia. Maria João conta que um T2 “deve rondar os 1.100, 1.200 euros”, mas, em Lisboa, anunciam-se T0 ainda mais caros nas plataformas de arrendamento de imóveis.

A filha de Maria João nasceu durante a pandemia, quando as medidas em vigor obrigavam a testagens em massa e quarentenas sempre que se entrava no país. Voltou a Portugal com o marido e a filha em maio de 2022, incertos se regressariam a Macau. Tinha enviado currículos desde fevereiro, a preparar-se para uma estadia mais ou menos prolongada em Barcelos, mas tudo estava diferente. Para começar, as rendas. “Quando saí em 2014 rondavam uns 300, 400 euros, mas agora tinham subido para 700 ou 800 euros”.

Depois, os salários que a condenariam a ficar em casa dos pais. De todos os currículos enviados, recebeu resposta de apenas uma escola de línguas. “Fui à entrevista e o diretor da escola disse-me que pagavam 20 euros à hora, em regime de recibos verdes, no horário pós-laboral. Portanto, pensei: tenho uma filha, tenho um marido que também ainda não encontrou trabalho, e vou receber cerca de 300 euros por mês, com descontos. É isto?”

Os risos soam ainda incrédulos, vincados pela indignação. Foi aí, nesse momento, que soube que os laços com Portugal tinham sido definitivamente cortados. Não por decisão totalmente sua, mas do país que parecia não ter condições para a acolher. A instituição onde trabalha em Macau garante-lhe a estabilidade de saber que tem dinheiro para “pagar as contas no final do mês e ainda aproveitar alguma coisa”. Em Portugal, trabalharia somente para sobreviver.

Maria João tem 28 anos e uma juventude para usufruir, mas sente também o peso da responsabilidade enquanto mãe. “Quero dar o exemplo à minha filha de que não podemos só trabalhar e não ver nenhum retorno, de que é preciso usufruir e viver a vida”. Há cinco anos em Macau, faltam-lhe apenas dois para obter o bilhete de identidade de residente permanente e todos os benefícios que dele resultam. Os subsídios anuais do Governo; a segurança de saber que pode sempre regressar, mesmo que um dia mude de ideias e tente outro sítio qualquer. Não Portugal, que deixou de ser opção desde a última visita. “É muito, muito triste ver jovens altamente qualificados a saírem de Portugal porque o país não consegue agarrá-los”, lamenta.

Não consegue agarrá-los e acaba por perdê-los, talvez para sempre. Segundo números das Nações Unidas, citados pelo Observatório da Emigração, em 2020 havia cerca de dois milhões de portugueses emigrados a residir no estrangeiro, ano em que se terá atingido o valor mais alto de sempre de emigrantes portugueses no mundo.

Maria João Cruz, 28 anos. Vive em Macau há cinco anos

Pedro aceitou a proposta da empresa onde trabalha e em outubro começa uma nova jornada de dois anos na Coreia do Sul. Catarina está satisfeita em Copenhaga, por enquanto, mas tem a certeza de que ainda vai “saltitar mais um bocadinho” nos próximos anos. São profissões, países e circunstâncias diferentes, mas os três jovens falam a uma só voz: Portugal não faz parte do plano. A juventude é finita e demasiado efémera para ser desperdiçada numa semana arrastada a custo e num fim de semana tão fugidio que logo se extingue noutra segunda-feira. Como lembra o pensamento nórdico, o trabalhador é um ser humano e não uma peça num sistema desumanizante que não reconhece o seu mérito e valor. Então, ficam no estrangeiro.

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