Uma máscara que fez do olhar protagonista, um ecrã cuja câmara mostrou o rosto num determinado ângulo, mais tempo do que o habitual para se olhar ao espelho, filtros de redes sociais que tornaram as selfies em plena pandemia próximas da perfeição. À partida, todos estes fatores parecem isolados uns dos outros, mas fazem parte do leque de razões pelas quais a procura por procedimentos estéticos, invasivos ou não, aumentou nos últimos dois anos.

“As videoconferências foram o limiar da questão para mim”, conta Lúcia Silva, de 38 anos. A diretora financeira, residente em Lisboa, já era seguida por um dermatologista que lhe tinha dito que tinha “pouco lábio superior”, mas foi o ver-se com os olhos dos outros, através das reuniões por Zoom, que percebeu que queria mudar e que estava na hora de o fazer. “Já tinha ideia de fazer algo relativamente ao lábio”, diz, “mas trabalhar em casa e ver-me ao ecrã, ter mais tempo em frente ao espelho, ter mais tempo para me ver” fê-la agir. “Pensei: ‘vou ficar em casa e vou ficar em bom, já que vou ter mais tempo para me ver ao espelho quero ver-me mais bonita’”, conta-nos a rir.

Lúcia Silva fez os dois primeiros procedimentos estéticos pouco depois da chegada da pandemia. Colocou ácido hialurónico no lábio e botox na testa, para ficar com uma aparência mais relaxada, algo que achava que tinha. “Temos uma tendência de não ver muito a nossa cara, mas quando nos vemos num ecrã percebemos que estamos com cansaço”, continua.

Um estudo da UP Clinics, citado no início de 2022 pelo Expresso, dá conta de um aumento considerável da procura por procedimentos e cirurgias estéticas. “Os portugueses procuraram de forma bastante mais intensa os procedimentos estéticos e cirurgias plásticas, como as rinoplastias (procura aumentou 144%), rejuvenescimento das pálpebras e sobrancelhas (55%), aumentos mamários (40%), de glúteos (40%) e a substituição de próteses (60%)”, lê-se no semanário. Contactada pela CNN Portugal, a Sociedade Portuguesa de Medicina Estética (SPME) diz que não dispõe de dados “do levantamento estatístico” do número de procedimentos estéticos invasivos ou não feitos durante o período de pandemia, já a Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética (SPCPRE) não respondeu em tempo útil. Mas quem está no terreno diz que há uma maior procura.

“Notei um aumento”, revela Ana Silva Guerra, médica especialista em Cirurgia Plástica e Reconstrutiva e Estética com consultório em nome próprio, quando questionada se notou diferenças na procura durante estes quase três anos de pandemia. Mas além do aumento, percebeu que a procura por determinados procedimentos era geral. “As reuniões de Zoom mostram uma imagem de nós que não é a que estamos habituados a ver e o procedimento que se começou a fazer, mais por causa das videochamadas, foi o tratamento da região periorbitária, a zona dos olhos, com ácido hialurónico e botox, mas também cirurgia, incluindo nos homens que nunca teriam pensado fazer nada”, relata. 

Também Luísa Magalhães Ramos, igualmente médica especialista em Cirurgia Plástica e Reconstrutiva e Estética, admite que “o número de pessoas que pensou em fazer um procedimento aumentou”, assim como aquelas que o executaram. Ao Público, a médica Rita Valença Filipe fala de um aumento de 15% na cirurgia facial e procedimentos faciais.

Durante a pandemia houve um aumento de procura, houve várias pessoas que referiram que, por estar mais tempo em frente ao computador e fazer videochamada, perceberam que tinham aspetos que nunca tinham reparado”, adianta Luísa Magalhães Ramos.


A aplicação de ácido hialurónico e de botox - seja para o preenchimento de lábios ou correção de rugas - são dois dos procedimentos mais comuns agora e dos mais procurados durante a pandemia. (Fairfax Media via Getty Images)

Lúcia Silva, que, entretanto, já fez mais dois procedimentos estéticos não invasivos com a médica Ana Silva Guerra, quis manter-se o mais fiel a si mesma, sendo que o seu principal objetivo era sentir-se bem na sua própria pele. “A pandemia levou-me a pensar mais em mim. Não sou nova nem sou velha, fiz [os procedimentos] mais pela parte de me sentir bem. E eu até era anti [este tipo de procedimentos]”.

Mas não foi apenas a autoestima e a vontade de estar bem com o próprio corpo que levou a um aumento dos procedimentos estéticos: o estar em casa e poder recuperar longe da vista dos outros e a maior e mais credível informação sobre procedimentos estéticos serviram igualmente de empurrão para este fenómeno, que também aconteceu lá fora e que já foi alvo de estudo. A maior oferta e os preços mais competitivos são também fatores em cima da mesa, dizem as médicas entrevistadas.

O que procuraram os portugueses?

Tanto Ana Silva Guerra como Luísa Magalhães Ramos destacam a blefaroplastia, que pode ser feita para correção das pálpebras inferiores ou superiores ou ambas e também para reduzir os papos na parte inferior dos olhos, como um dos procedimentos mais procurados durante a pandemia. 

O uso da máscara tornou a região dos olhos mais evidente, que sempre falou por si só, mas que na pandemia passou a ser uma forma de expressão quase única, e ao consultório de Luísa Magalhães Ramos não faltaram mulheres a dizer “gostava de melhorar essa parte”. 

A médica adianta que há cada vez mais pessoas “a relacionar a aparência com o trabalho” e que a região dos olhos acaba por ser uma das primeiras a chamar a atenção, mas longe de ser a única. Foi o caso de Sónia Janeiro, de 41 anos. Há muito que queria esconder as rugas do rosto, os dentes e o nariz e viu a máscara como uma aliada, uma espécie de escudo-protetor que tapava aquilo que menos gostava em si e que tinha de mostrar dia após dia aos seus clientes e colaboradores, fosse presencial ou digitalmente.

A liderar uma empresa de limpezas, Sónia não se “sentia à vontade mesmo a falar com os clientes, sentia-me desmotivada mesmo para o meu trabalho”. E, nos primeiros dias de janeiro de 2021, decidiu mudar. Foi na clínica da médica Luísa Magalhães Ramos que fez uma rinoplastia e tratou dos dentes e das rugas. “Parecia uma velha, mas correu tudo bem, fazia tudo outra vez”, adianta-se, contente com o resultado.

Segundo alguns estudos feitos desde 2020, foi sobretudo quem ficou em casa e à mercê da imagem que passava aos outros que decidiu mudar. “Como o computador está normalmente abaixo do rosto é como se estivéssemos a olhar para baixo” e esse foi um dos motivos pelos quais os portugueses procuraram corrigir também a zona da boca e do pescoço, diz Ana Silva Guerra. 

O maior uso de redes sociais e de videochamadas, seja em ambiente profissional ou pessoal, trouxe uma perspetiva diferente do próprio rosto, o que, para alguns, tornou notórias imperfeições nas quais até então não tinham reparado. (Pexels)

Ana Silva Guerra destaca que, “em relação à volta da boca, os sulcos à volta da boca ficaram mais evidentes, aquilo a que chamamos código de barras à volta do lábio”, sendo o uso de ácido hialurónico uma das apostas para estes casos e dos procedimentos mais procurados também. Mas houve igualmente procura por cirurgia, “porque o pescoço e a zona do queixo ficaram mais evidentes e essa pele começou a incomodar”.

As pessoas querem ter um ar saudável e descansado”, diz, afirmando que este foi também um dos argumentos apresentados em consultório ao longo destes anos de pandemia.

Ana Silva Guerra diz que houve um aumento na procura por parte de pessoas entre os 30 e os 50 anos e um “aumento na procura masculina”. Já Luísa Magalhães Ramos, que trabalha exclusivamente com pacientes femininas, diz que a procura aumentou em mulheres com mais de 35 anos.

Quanto aos procedimentos, adianta que nota que “há mais aceitação do que noutros anos de um lifting cervico facial, antigamente as pessoas quase que fugiam do consultório”, mas são as blefaroplastias, sobretudo para tratar as pálpebras, e rinoplastia aqueles que destaca como mais procurados.

Jovens mais à mercê das redes sociais

A população mais nova, adolescentes ou jovens adultos, também procurou mais procedimentos estéticos nestes últimos meses, mas não para esconder rugas, pele descaída ou cansaço: há quem chegue ao consultório à procura do que as redes sociais oferecem, um fenómeno que não é de hoje, mas que as duas especialistas associam à pandemia, aos confinamentos e ao refúgio no mundo digital.

“Já me aconteceu na consulta dizerem-me “eu queria uma pele assim, como está aqui”, mostrando um filtro [na rede social]”, revela Ana Silva Guerra. A especialista diz que os “filtros podem transportar para uma realidade preocupante” e que isso “está relacionado com imagem e autoestima” e que não são poucas as vezes em que reforça, em consulta, “que o filtro não é realidade e que pode haver melhorias, mas que não há milagres, que não é possível alterar a nossa pele até um certo ponto”.

O ‘rosto do Instagram’ é um modelo estético reconhecido: etnicamente ambíguo e com pele impecável, olhos grandes, lábios carnudos, nariz pequeno e curvas perfeitamente contornadas, acessíveis em grande parte por filtros”, escreve o MIT. E é isso o que vários jovens parecem procurar.

Luísa Magalhães Ramos explica que “a câmara que vemos em selfie é diferente da câmara com que filmamos, desfigura um pouco, tem uma angular diferente, e isso ainda aumenta mais a nossa perceção de coisas que não corresponde à realidade”, algo que fica ainda mais deturpado quando se dá uma ‘roupagem digital’, com filtros que alisam a pele, preenchem os lábios e aumentam os olhos.

A médica Ana Silva Guerra reconhece que “a componente psicológica das pessoas sofreu muito na pandemia, teve impacto profundo na autoestima, sendo que os filtros vieram colmatar isso, mas são refúgio, a ideia que as pessoas têm delas é já com isso”, o que a preocupa e, em alguns casos, sobretudo naqueles em que o objetivo é inalcançável e a compreensão é reduzida, é necessária uma “referência para psicologia”, algo que já fez.

“Não há mal nenhum em querer mudar ou intervir em aspetos do nosso corpo/rosto com os quais não nos sentimos confortáveis, mas importa que tenhamos em consideração as motivações por trás dessa vontade”, admite Débora Bento Correia, da Academia Transformar. No entanto, a psicóloga alerta para o facto de as redes sociais colocarem evidentes “defeitos” que muitos acharam ter ou que até então passaram despercebidos e que isso levou a se procurasse “uma ‘perfeição’ irrealista que não respeita necessariamente a nossa fisionomia”. 

“Procuramos atingir ‘padrões de beleza’ que não são reais, não aceitando que a perfeição não existe e que, como tal, esses ‘defeitos’ são perfeitamente naturais. Em última instância, a procura incessante por essa imagem fará com que a pessoa passe a ter uma visão distorcida de si mesma - dismorfia corporal, que consiste numa preocupação excessiva com uma imperfeição ou defeito na aparência física real ou imaginário -, o que causará níveis de auto estima mais baixos, frustração, baixa autoconfiança e em casos mais extremos isolamento”.

A médica Ana Silva Guerra destaca um aumento da procura por procedimentos estéticos, cirúrgicos ou não, por parte dos homens. A maior informação e normalização ajuda a quebrar a barreira do estigma. (Keith Beaty/Toronto Star via Getty Images)

A procura por procedimentos estéticos por parte dos mais novos é uma realidade transversal em todo o mundo, sobretudo nos Estados Unidos e já desde os tempos do Snapchat (como mostra este estudo de 2014 e este que fala da pressão que as redes sociais colocam), muito antes dos filtros do Instagram terem vindo mostrar um rosto perfeito e inalcançável. Mas as redes sociais apenas vieram deixar ao de cima algo que já se fazia notar, diz Luísa Magalhães Ramos.

“Temos uma geração mais nova que nasceu com a plástica, que defende que recorrer à plástica é super normal, que faz parte. Assume que é óbvio que um dia fará uma plástica, que tem direito de fazer algo por si própria”, adianta.

Segundo o estudo TGI da Marktest, divulgado em 2022, 31% dos jovens entre os 15 e os 24 anos consideram submeter-se a uma cirurgia plástica, “um valor 3,5 vezes mais elevado do que o dado pelos maiores de 54 anos (8.7%)”, lê-se na publicação. O mesmo cenário acontece na Bélgica, como mostra este estudo publicado na revista científica Journal of Children and Media, que revela que o uso de filtros nas redes sociais está relacionado com uma maior aceitação das cirurgias e procedimentos estéticos. Outros dois estudos, um publicado na The American Journal of Cosmetic Surgery  e outro na Body Image, mostram o mesmo, que o uso de filtros do Instagram para melhorar o rosto está associado ao desejo subsequente de se submeter a procedimentos faciais.

Vários outros estudos, questionários e ensaios foram já levados a cabo um pouco por todo o mundo sobre este fenómeno e a psicóloga Débora Bento Correia destaca um, levado a cabo pela marca Dove junto de jovens, onde Portugal foi incluído, e que mostrou que “64% destas jovens ‘tentam editar ou esconder pelo menos uma característica do seu corpo antes de publicarem uma fotografia de si mesmas’ e ainda que mais de metade ‘afirma que não se atreve a publicar se não estiver confiante com a sua aparência’ procurando publicar apenas ‘fotografias perfeitas’”.  

A psicóloga não hesita em dizer que “os pais e as famílias têm um papel fundamental na desconstrução destes padrões irrealistas”. 

Procedimentos mais baratos, mais oferta ou mais confiança?

Ora, a resposta é afirmativa nos três cenários. Comparando com outros anos, os procedimentos estéticos, sejam cirúrgicos ou não, estão agora com preços mais competitivos, facilitando o acesso, embora o custo não seja ainda para todas as carteiras. “A informação vem mudar isto e há uma certa democratização, além de que as cirurgias são caras, mas não como antigamente”, diz Luísa Magalhães Ramos.

Mas a redução do estigma de outrora face aos procedimentos estéticos - chamados muitas vezes de forma pejorativa de ‘plásticas’ - também ajuda a que haja mais procura e mais abertura para falar do tema e mostrar que se mudou algo no rosto ou no corpo. “Isto também está associado ao facto de se ficar no ativo até mais tarde” e de as pessoas quererem ter uma aparência mais jovem e saudável, diz a médica, que reconhece que, nos últimos anos, “o mindset das pessoas mudou” e passaram a aceitar e a assumir querer estar bem consigo mesmas, mesmo que isso implique mudanças.

“Tornou-se mais normal e mais comum a realização deste tipo de procedimentos. As redes sociais tornam as pessoas mais próximas de como se executam e dos resultados. Mas é preciso ter cuidado sempre. O facto de mais gente recorrer a estes procedimentos fez com que o mercado sofresse alterações e nem sempre são profissionais qualificados e experientes e cheguei a ver vários problemas com ácido hialurónico, porque as pessoas procuram o que é o mais acessível”, lamenta Ana Silva Guerra. Verificar no diretório da Ordem dos Médicos o nome do profissional é um passo para garantir que é um profissional qualificado a fazer o procedimento estético, mesmo que pareça simples e pouco invasivo.

“Claro que associado a isso houve outro fenómeno: as pessoas tinham tempo de recuperar, não tinham necessidade de se expor, podiam desligar a câmara [da videochamada] e, além disso, tivemos outro fator relacionado com o poder económico, pois muitas pessoas não perderam rendimento”, diz Luísa Magalhães Ramos, que continua: “outros concorrentes da cirurgia plástica, como as viagem, a roupa, as idas aos restaurantes, deixaram de existir. As pessoas viram isso como oportunidade de investir nelas próprias”.

Os tratamentos não cirúrgicos são a alternativa para quem procura resultados imediatos, não invasivos e com um custo menor. E a oferta é vasta. (Pexels)

Quanto custa mudar?

Quanto aos preços, basta uma ronda por vários sites de clínicas de estética e cirurgia estética para perceber os preços praticados, que pouco ou nada variam consoante o estabelecimento. No que diz respeito a procedimentos cirúrgicos, a rinoplastia é o mais comum e o preço da cirurgia pode rondar os 4.000 e 5.000 euros, ao qual deve ser acrescido o preço da consulta de avaliação cirúrgica e de pós-cirurgia. Com preços semelhantes está a ritidoplastia (ou lifting facial), um procedimento cirúrgico que corrige a flacidez, excesso de pele (como a chamada papada) e rugas que surjam no rosto e pescoço. Dependendo de cada caso, a cirurgia pode durar até quatro horas.

A blefaroplastia, como já foi dito pelas médicas entrevistadas, é um procedimento cirúrgico que ganhou destaque na pandemia à boleia do uso recorrente de máscara. Esta cirurgia pode custar entre 950 euros e 1.750 euros.

No que diz respeito aos procedimentos não cirúrgicos, a oferta é bem maior e os preços menores. A rinomodelação, isto é, a correção de deformidades do nariz sem recurso a cirurgia, pode custar cerca de 500 euros, o que é dez vezes menos do que uma rinoplastia, apesar de serem procedimentos distintos e de complexidade distinta.

A aplicação de toxina botulínica, o chamado botox, tem um custo variável consoante as sessões e as áreas do rosto a ser aplicada, tal como acontece com o ácido hialurónico. A título de exemplo, diz a médica Ana Silva Guerra, “cada ampola de ácido hialurónico tem um valor aproximado de 400 euros, há quem possa precisar de só uma ou duas”. Estes dois componentes são comummente usados na correção daquilo a que os especialistas chamam de ‘código de barras’, isto é, as rugas periorais, as que surgem por cima do lábio superior. 

Já o rejuvenescimento perioral ou aumento do volume de lábios pode custar até 1.500 euros. A remoção de olheiras e papos sem recurso a cirurgia (que neste caso seria a blefaroplastia) pode custar cerca de 250 euros ou mais.

“Relativamente ao que se pensa que vai ser o futuro na área”, conclui a médica Luísa Magalhães Ramos, “pensa-se que vai haver uma estabilização, a taxa de crescimento nos últimos dois anos não se irá manter”, embora reconheça que as pessoas irão continuar a procurar sentir-se melhor na sua própria pele e terão cada vez menos estigma e preconceitos em assumi-lo.

Daniela Costa Teixeira