Um só estudo, duas conclusões que prometem mudar o paradigma científico e médico: as bactérias que temos ‘saltam’ de pessoa para pessoa (sobretudo por via oral) e, por isso, há doenças que até agora se entendiam como intransmissíveis que, na verdade, podem passar para terceiros - e, aqui, inclui-se o cancro.

Publicado na revista Nature, o estudo analisou as bactérias presentes em fezes e salivas de 4.840 pessoas, uma coleção que incluiu 9.715 amostras de microbioma (7.646 fezes e 2.069 saliva) e informações do hospedeiro, “permitindo a avaliação da transmissão entre pares mãe-bebé (até aos três anos de idade), membros da família, pares de gémeos adultos, localidades e populações”, lê-se no estudo. Os participantes eram oriundos de 20 países diferentes em cinco continentes, representando, assim, “diversos estilos de vida”.

Entre as principais conclusões, destaca-se o facto de uma mãe partilhar com o bebé 34% das cepas bacterianas existentes no seu intestino. Mas se a transmissão de mãe para filho parece até óbvia, o estudo vem revelar que o simples convívio é também uma rampa de lançamento para a transmissão, se bem que a diferentes níveis. Duas pessoas que coabitam partilham 12% das suas bactérias (por exemplo, companheiros; pais e filhos; e até mães e filhos com mais de quatro anos), sendo que dois gémeos adultos, a viver em habitações diferentes, partilham 8%, a mesma percentagem que qualquer pessoa, na sua convivência diária com outros, seja no trabalho, nos transportes, num jantar de amigos ou num bar, com terceiros, sejam conhecidos ou não.

Enquanto a partilha da cepa entre gémeos adultos pode resultar, em parte, da transmissão materna partilhada, a partilha da cepa entre indivíduos na mesma localidade é provavelmente o resultado da transmissão horizontal através da interação física e do ambiente partilhado”, dizem os autores do estudo, liderado pela espanhola Mireia Vallès, da Universidade de Trento, no norte da Itália.

O estudo destaca que a transmissão do microbioma oral ocorreu em grande parte horizontalmente e “foi intensificada pela duração da coabitação”, mas não descarta ainda a transmissão fecal, por má higienização das mãos, por exemplo.

Se as bactérias se transmitem, mais doenças se transmitem?

Esta foi uma das questões que o estudo colocou em cima da mesa e cuja resposta, que, em parte já têm, requer mais análise por parte da comunidade científica. Mas a teoria não é nova, apenas ganhou um novo fôlego.

Esta ideia de que as bactérias partilhadas horizontalmente podem ser responsáveis pela transmissão de doenças tidas até agora como não transmissíveis foi abordada, em 2020, num artigo na revista Science, e que é citado neste estudo recente.

Na publicação de há três anos, o microbiologista Brett Finlay criticou o facto de a definição de doenças não transmissíveis - grupo onde inclui o cancro, as doenças cardiovasculares e as doenças respiratórias - não incluir o envolvimento microbiano, que, sabe-se agora, é facilmente transmissível de pessoa para pessoa.

Os dados mostram cada vez mais que a microbiota é disbiótica (alterada) em indivíduos com várias doenças não transmissíveis”, escreveu o especialista, tendo esta questão servido de ponto de partida para um aprofundamento por parte dos cientistas italianos.

Para levarem avante a teoria neste estudo, os cientistas defendem que “a extensão da transmissão de micro-organismos” reforça a sua “relevância em estudos de microbioma humano”, especialmente aqueles que são focados em “doenças não infecciosas associadas ao microbioma”.

Uma vez que o estudo mostra que há, de facto, uma partilha de bactérias entre pessoas, os autores asseguram que “os resultados destacam um efeito não desprezível das interações sociais na formação do microbioma, o que poderia ter um papel em doenças associadas ao microbioma”.

E frisam: “os nossos resultados reforçam a hipótese de que várias doenças e condições atualmente consideradas não transmissíveis devem ser reavaliadas, e que a consideração da transmissibilidade e da estrutura da rede social melhorará o design de futuras investigações de microbioma e abordagens de modulação”.

Daniela Costa Teixeira