A situação económica do Egito é tão terrível que o governo está a pedir às pessoas que comam patas de galinha.

A nação mais populosa do mundo árabe está a sofrer uma crise cambial recorde e a pior inflação em cinco anos, tornando a comida tão cara que muitos egípcios já não podem pagar por um frango, alimento básico da sua dieta.

Os preços das aves de capoeira subiram de 30 libras egípcias (0,94 euros) por quilo em 2021 para 70 libras egípcias (2,2 euros) a partir desta segunda-feira, de acordo com os meios de comunicação estatais.

A subida dos custos levou a Instituição Nacional de Nutrição do país a apelar às pessoas para que passassem a comer patas de galinha.

“Está à procura de alternativas alimentares ricas em proteínas com que consiga poupar no seu orçamento?”, perguntou a instituição numa publicação do Facebook no mês passado, listando depois uma série de itens que começa com patas de galinha e cascos de gado.

Muitos egípcios estão furiosos por o governo pedir aos cidadãos que recorram a alimentos que são símbolos de extrema pobreza no país. No Egito, as patas de galinha são vistas como os artigos de carne mais baratos, sendo considerados pela maioria como resíduos animais em vez de comida.

“(Entrámos) na era das patas de galinha, o colapso da libra egípcia... e o afogamento em dívidas", publicou no Twitter Mohamed Al-Hashimi, uma personalidade mediática, para os seus 400 mil seguidores.

Mas outros parecem estar a dar ouvidos ao apelo. Após a recomendação de mudar para patas de galinha, o preço de um quilo do produto terá duplicado para 20 libras egípcias (0,62 euros).

As autoridades dizem que cerca de 30% da população do Egito está abaixo do limiar da pobreza. O Banco Mundial, no entanto, estimava em 2019 que “cerca de 60% da população do Egito é pobre ou vulnerável”.

Eis o que é preciso saber sobre a economia em espiral do Egito:

Como é que o Egito chegou aqui?

O Egito atravessou uma série de crises financeiras durante a última década, o que o forçou a procurar ajuda de credores como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e aliados árabes do Golfo.

Mas o país ficou preso num ciclo de empréstimos que os analistas dizem ter-se tornado insustentável. A sua dívida este ano ascende a 85,6% da dimensão da sua economia, de acordo com o FMI.

Alguns dos fatores que contribuem para o fracasso da economia egípcia incluem o papel dos militares, que os analistas dizem enfraquecer o sector privado, bem como a atribuição de grandes somas a megaprojetos como a torre mais alta de África e uma nova capital no deserto, que alberga um Ministério da Defesa que as autoridades se orgulham de ser maior do que o Pentágono.

A economia do Egito sofreu um golpe significativo nos últimos dois anos, quando os efeitos da pandemia da Covid-19 e a guerra da Ucrânia esmagaram as suas reservas de moeda estrangeira e o aumento dos preços dos combustíveis puxaram a inflação para cima.

A pandemia viu os investidores retirarem 20 mil milhões de dólares (18,5 mil milhões de euros) do Egito em 2020, e as consequências económicas da guerra da Ucrânia levaram a um montante semelhante a abandonar o país no ano passado, de acordo com a Reuters.

“Vinte mil milhões de dólares é o equivalente a cada cêntimo que o Egito pediu emprestado ao FMI desde 2016, e desapareceu em semanas (no ano passado)”, disse Timothy Kaldas, um professor não residente de Políticas do Médio Oriente no Tahrir Institute Middle East Policy, em Washington, EUA.

Estes acontecimentos contribuíram para a crise cambial que o Egito enfrenta hoje. A libra egípcia perdeu quase metade do seu valor no ano passado, e na semana passada atingiu por momentos uma taxa de câmbio de 32 libras para o dólar americano, a mais baixa da sua história.

No seu último resgate, acordado em dezembro, o FMI emprestou três mil milhões de dólares (2,8 mil milhões de euros) ao Egito, que espera que venham a catalisar um apoio adicional de 14 mil milhões de dólares (13 mil milhões de euros) por parte dos parceiros internacionais e regionais do Egito, incluindo as nações ricas em petróleo do Golfo.

O que é que o FMI precisa que o Egito faça de diferente desta vez?

O empréstimo deste ano do FMI foi condicionado à implementação pelo Egito de uma série de reformas estruturais. E desta vez, o credor está a enfrentar o poderoso exército egípcio.

Além de introduzir uma taxa de câmbio flexível - que permitiria que o valor da moeda fosse determinado pelo mercado em vez de pelo banco central -, o FMI também pediu que o Egito reduza o papel do Estado, incluindo os militares, na economia, e abrande os projetos nacionais, a fim de limitar as pressões sobre a moeda e a inflação.

“O que é excecional é que também abrange as companhias militares do Egito”, escreveu Yezid Sayigh, membro sénior do Malcolm H. Kerr Carnegie Middle East Center, em Beirute, no Líbano. “Isto contradiz a impressão inicial dada pelo anúncio do acordo de empréstimo em outubro de 2022, de que o FMI não tinha utilizado a sua influência para colocar as empresas militares na agenda".

O FMI exigiu também que todas as empresas - incluindo as que são propriedade de militares - publicassem um relatório anual “com detalhes e estimativas de isenções fiscais e benefícios fiscais”.

Resta saber se estes relatórios alguma vez serão publicados. Kaldas diz que muitos egípcios querem saber quão ricos são os militares e também “o nível de risco que o império económico militar do Egito representa”.

“Um dos desafios neste momento de compreender o nível de risco económico do Egito é não sabermos quanto dinheiro as empresas militares tomaram de empréstimo”, disse ele.

Porque é que o papel dos militares na economia é tão controverso?

O sector privado no Egito tem vindo a diminuir nos últimos sete anos, de acordo com Kaldas.

O Índice da S&P de Gestores de Compras do Egito (PMI), que mede a saúde do sector privado não petrolífero do Egito, mostrou para dezembro uma “deterioração sólida”, permanecendo abaixo dos 50 marcos necessários para um crescimento económico saudável durante 25 meses consecutivos.

O sector militar egípcio possui e opera um número significativo de empresas com as quais as empresas privadas lutam para competir. Desde postos de gasolina e produtos farmacêuticos à carne e lacticínios, as empresas militares constituem uma grande proporção da economia do Egito.

Mas essas empresas não operam como empresas privadas, gozando de privilégios especiais sem revelar os seus dados financeiros ao público.

Os militares também lideram os vastos projetos nacionais do Presidente Abdel Fattah el-Sisi, que os críticos dizem ter sugado grande parte dos fundos do Egito.

As autoridades prometeram dispersar capital de empresas estatais, incluindo empresas de propriedade militar, na bolsa de valores, um plano destinado a envolver o sector privado na sua gestão. O plano ainda não foi totalmente implementado, e os analistas estão céticos quanto ao mesmo, dado o segredo com que estas empresas normalmente operam.

É provável que o Egito atenda ao apelo do FMI?

Sayigh, do Carnegie Middle East Center, afirma que o atraso na entrada das empresas de propriedade militar na bolsa de valores e na divulgação das suas contas financeiras é prova do recuo dos militares em relação às condições impostas.

Vários especialistas questionaram por que razão os credores internacionais não aproveitaram os seus empréstimos para empurrar os militares egípcios da economia. Esta é uma instituição poderosa no Egito, tanto financeira como politicamente.

Foi com o apoio dos militares que Sisi conseguiu ascender ao poder. O antigo marechal de campo esteve na vanguarda de um golpe militar de 2013, que derrubou o antigo presidente Mohamed Morsy, o único presidente democraticamente eleito do país.

Falando com Becky Anderson da CNN em Abu Dhabi na segunda-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros egípcio, Sameh Shoukry, afirmou que as empresas estatais “serão vendidas ao sector privado para encorajar mais investimento” e que o Egito “é apoiado pelo FMI neste aspecto”.

Questionado sobre como irá o governo rever o envolvimento dos militares na economia, Shoukry disse que o Egito está a lidar com os desafios de uma “forma holística”, ao mesmo tempo que “reconhece a dimensão social” no centro das preocupações financeiras do país.

Kaldas, do Instituto Tahrir, afirmou que existem formas de o governo contornar as condições do FMI, fazendo alterações que parecem compromissos mas não alteram a estrutura da economia. “Se tudo neste acordo for efetivamente seguido, é quase certo que haverá um papel reduzido (para os militares no Egito)”, declarou.

Porque deve o resto do mundo estar preocupado?

Quando o Egito desvalorizou a sua moeda em outubro, a embaixada dos EUA no Cairo emitiu um “alerta de demonstração”, alertando para uma eventual agitação.

Há mais de uma década, o Egito e outros Estados do Médio Oriente caíram numa onda de protestos que derrubaram governos, atrofiaram economias, e até desencadearam guerras civis que levaram milhões de refugiados a fugir da região.

Em 2011, quando milhões de pessoas saíram à rua exigindo mudanças de regime, o slogan mais comum no Egito era “Pão, liberdade e igualdade social”.

O Egito é casa de mais de 106 milhões de pessoas, mais de metade das quais vivem em condições económicas precárias. Muitos não têm capacidade para pagar os alimentos básicos, limitando as suas despesas e mesmo restringindo as dietas alimentares, e os analistas alertaram para a agitação no caso de a situação se deteriorar significativamente.

CNN / Nadeen Ebrahim