Quem tem o esquema vacinal completo e já foi infetado por SARS-CoV-2 tem uma maior proteção contra a variante Ómicron BA.5: esta mantém-se “até pelo menos oito meses após a primeira infeção”. Esta é a conclusão de um estudo realizado por investigadores portugueses, com dados da população nacional, e publicado na revista científica Lancet Infectious Diseases.

O trabalho foi liderado por Luís Graça, investigador principal do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes e Professor Catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, e por Manuel Carmo Gomes, Professor Associado com Agregação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa), ambos membros da Comissão Técnica de Vacinação contra a Covid-19 (CTVC) da Direção Geral de Saúde (DGS).

Os especialistas já sabiam que a proteção ao vírus era dada pela vacinação ou pela infeção. “Quer a vacinação, quer a infeção dão a origem à produção de anticorpos que circulam no nosso sangue”, explica à TVI/CNN Portugal Manuel Carmo Gomes, epidemiologista e um dos colíderes do estudo.

Numa altura em que a maioria da população já foi vacinada e infetada, alcançado a chamada “imunidade híbrida”, ainda havia perguntas sem resposta. No caso das pessoas apenas vacinadas, sabia-se que “a proteção desaparecia ao fim de 4/5 meses”. A pergunta agora era se a proteção desta “imunidade hibrida também decaía ao longo do tempo? Desaparecia também ao fim de 4/5 meses? Ou seria mais estável, duradoura?”. E a resposta foi clara. A imunidade híbrida dá mais tempo de proteção, é mais estável, mais duradora.

As variantes da Ómicron BA1 e BA2 surgiram em Portugal mais ao menos na mesma altura: janeiro/fevereiro de 2022. Em seguida, por volta de maio, aparece a BA5. As primeiras “deram origem a uma onda monstruosa, chegamos a ter 50 e tal mil casos por dia, vários dias seguidos”, recorda Manuel do Carmo Gomes. Mas “quando chegou a BA5, que já era uma versão diferente do vírus”, a onda de infeções foi substancialmente menor, “porque a maior parte da população já tinha sido infetada pela BA1 e BA2 e estava protegida”.

“O que é que encontrámos?”

O epidemiologista explicou que foram formados “dois grupos de pessoas”. “Em primeiro lugar as que foram vacinadas e também infetadas pela ómicron”. O segundo grupo eram pessoas que tinham as vacinas, “mas não chegaram a ser infetadas”. “Depois fomos comparar a proteção conferida em relação à BA5 – que surge em maio -  por estes dois grupos”.

“O que é que nós encontrámos? No início a proteção é muito alta nos dois grupos, mas depois, à medida que o tempo vai passando, as pessoas do primeiro grupo perdem a proteção muito mais devagar do que as pessoas do segundo grupo. Ao fim de oito meses, a proteção das pessoas que estavam só vacinadas é praticamente nula, enquanto as pessoas do primeiro grupo mantinham uma proteção na ordem dos 65%”, acrescenta Manuel Carmo Gomes. Ou seja, a cada 100 pessoas (com imunidade híbrida), 35 pessoas tinham sido infetadas pela BA5, enquanto 65 tinham escapado ao vírus.

Esta maior proteção dada pela imunidade híbrida, que a maioria dos portugueses já tem, segundo este especialista também ajuda a explicar, porque é que “neste momento, em Portugal, não temos uma grande onda de Covid-19, ao contrário do que receávamos”. 

Esta investigação segue os resultados publicados em setembro passado, pelos mesmos investigadores, na revista científica New England Journal of Medicine onde mostraram, através do estudo da população portuguesa largamente vacinada, que a infeção pelas primeiras subvariantes Ómicron (BA1 e BA2), em circulação em aneiro/Fevereiro de 2022, conferia proteção considerável para a subvariante Ómicron BA.5. Só que até agora, a estabilidade da proteção conferida pela chamada imunidade híbrida, a imunidade conferida pela combinação da vacinação e infeção, não era ainda conhecida. 

“A proteção conferida pela imunidade híbrida é inicialmente de cerca de 90%, reduzindo-se ao fim de 5 meses para cerca de 70%, e mostrando uma tendência para estabilizar num valor de cerca de 65% ao fim de 8 meses, por comparação com a proteção em pessoas vacinadas e não infetadas. Estes resultados mostram que a imunidade híbrida conferida pela infeção por subvariantes anteriores de SARS-CoV-2 em pessoas vacinadas é bastante estável”, diz Luís Graça, colíder do estudo.

À semelhança do primeiro estudo que efetuaram os investigadores usaram o registo dos casos de covid-19 a nível nacional até setembro de 2022, especialmente completo devido à obrigatoriedade legal de registar todos os casos de infeção por SARS-CoV-2 para ter acesso a baixa médica nos dias de isolamento obrigatório.

“Usámos o registo nacional de casos de covid-19 para obter a informação de todos os casos de infeções por SARS-CoV-2 na população com mais de 12 anos residente em Portugal. Os dados da população portuguesa permitem-nos concluir sobre a imunidade híbrida porque a vacinação abrangia já 98% da população estudada no final de 2021. A variante do vírus de cada infeção foi determinada tendo em conta a data da infeção e a variante dominante nessa altura”, explica Manuel Carmo Gomes.

“Felizmente, a partir do momento em que somos infetados pela Ómicron, como aconteceu em janeiro e fevereiro à maioria dos portugueses, mantemos uma grande capacidade de reconhecer o vírus. Apesar das mutações que está a ter”, conclui o especialista.

Patrícia Pires