Confrontos entre grupos rivais de insurgentes rohingya entre o Bangladesh e Myanmar, os primeiros conhecidos entre fações armadas opostas desta minoria muçulmana, provocaram um morto, enquanto centenas de abrigos improvisados foram incendiados na fronteira, revelou esta quinta-feira a polícia local.

Quase um milhão de membros da etnia rohingya vive em enormes campos de refugiados no Bangladesh desde que fugiram de Myanmar (antiga Birmânia) em 2017.

O Exército de Salvação Arakan Rohingya (ARSA), um dos grupos envolvidos nos confrontos, foi acusado de tráfico de droga e assassínio de líderes refugiados que se opõem às suas operações.

Segundo fontes rohingya, centenas de militantes da menos conhecida Organização de Solidariedade Rohingya (RSO) lançaram na quarta-feira um ataque antes do amanhecer a um posto de retransmissão da ARSA na chamada “terra de ninguém”, na fronteira entre o Bangladesh e Myanmar.

Pelo menos uma pessoa morreu no ataque, disse à AFP um membro da equipa médica de uma clínica da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF), que adiantou que três outras pessoas foram tratadas na clínica por ferimentos de bala, incluindo uma criança baleada na mão.

Dil Mohammad, funcionário do campo de refugiados onde ocorreram os confrontos, indicou que a maioria das tendas e abrigos do campo foi incendiada durante o ataque.

"Pelo menos 80% dos abrigos, que chegam às centenas, foram incendiados. Muitos [dos refugiados] fugiram para Myanmar ou para [outras zonas do] Bangladesh", disse.

Segundo Dil Mohammad, a unidade policial de elite de Bangladesh, o Batalhão de Ação Rápida, facilitou o ataque da RSO, depois de um oficial dessa unidade ter sido morto há alguns meses.

O responsável humanitário sublinhou que os soldados de Myanmar dispararam armas de fogo para o ar para evitar que os rohingya fugitivos entrassem no país.

Um alto responsável do ARSA, que esteve envolvido nos confrontos de quarta-feira, denunciou à agência noticiosa France-Presse (AFP) que as forças de segurança de Bangladesh estiveram envolvidas no ataque do RSO.

"Queimaram centenas de casas rohingya e usaram armas pesadas", sublinhou.

O administrador do governo distrital local, Romen Sharma, negou que as forças de segurança de Bangladesh estivessem envolvidas.

"O incidente aconteceu na fronteira internacional do Bangladesh e de Myanmar. Não temos jurisdição", argumentou Sharma.

A AFP referiu que tentou contactar quer a polícia do Bangladesh quer as forças militares que estão no terreno na região da 'terra de ninguém' mas que não obteve quaisquer respostas, o mesmo se passando com um porta-voz da Junta Militar de Myanmar.

Uma série de ataques do ARSA a postos de segurança de Myanmar, em 2017, desencadeou uma brutal repressão militar que forçou centenas de milhares de rohingyas a fugir para o Bangladesh. Os abusos cometidos durante a repressão são agora objeto de uma investigação de genocídio da ONU.

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