O voo mais longo do mundo passou 64 dias, 22 horas e 19 minutos no ar - uma história incrível de superação - TVI

O voo mais longo do mundo passou 64 dias, 22 horas e 19 minutos no ar - uma história incrível de superação

  • CNN
  • Jacopo Prisco
  • 5 fev 2023, 16:00

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No final de agosto passado, um drone movido a energia solar chamado Zephyr quase bateu um dos recordes mais duradouros da aviação.

A aeronave não tripulada, operada pelo Exército norte-americano e produzida pela Airbus, voou durante 64 dias, 18 horas e 26 minutos antes de se despenhar inesperadamente no Arizona - apenas quatro horas antes de quebrar o recorde de voo contínuo mais longo de sempre.

Esse recorde foi estabelecido há 64 anos, em 1959, por Robert Timm e John Cook, que voaram a bordo de um avião de quatro lugares sobre os céus de Las Vegas durante 64 dias, 22 horas e 19 minutos.

É notável que o Zephyr - uma aeronave leve com tecnologia moderna que voava autónoma - não só não tenha conseguido bater esse tempo, mas, mesmo que o tivesse feito, Timm e Cook ainda teriam mantido o recorde mundial de resistência para um voo tripulado.

De facto, é surpreendente que Timm e Cook tenham conseguido ficar no ar durante tanto tempo, numa época que estava mais próxima do primeiro voo dos irmãos Wright do que de hoje.

O problema do combustível

Em 1956, foi inagurado o hotel e casino Hacienda em Las Vegas.

Foi um dos primeiros resorts voltados para as famílias em Las Vegas e, procurando publicidade, o proprietário do hotel aceitou a sugestão de um dos seus empregados: pilotar um avião com o nome do hotel na lateral e usá-lo para bater o recorde de resistência em voo, estabelecido em 1949 após quase 47 dias no ar.

O empregado, um antigo piloto de caças da Segunda Guerra Mundial que se tornou mecânico de slot machines chamado Robert Timm, recebeu 100.000 dólares [mais de 92 mil euros] para organizar o evento, que foi associado a uma angariação de fundos para a investigação do cancro.

Timm passou meses a modificar o avião que escolheu, um Cessna 172: "Foi um design relativamente novo", diz Janet Bednarek, historiadora de aviação e professora na Universidade de Dayton, no Ohio. "É um avião espaçoso de quatro lugares e era conhecido por ser de confiança e bastante fácil de voar - não sendo preciso prestar atenção a cada momento. E quando se está a fazer um voo de longa duração, quer-se um avião assim."

As modificações incluíram um colchão para dormir, um pequeno lavatório de aço para higiene pessoal, a remoção da maioria dos acessórios interiores para poupar no peso, e um piloto automático básico.

"O importante, contudo, era criar uma forma de reabastecer", observa Bednarek. "Tinha havido muitas experiências até este ponto com reabastecimento aéreo, mas não havia realmente maneira de modificar um Cessna 172 para ser reabastecido em pleno ar. Então eles montaram um tanque extra que podia ser enchido a partir de um camião no solo. Quando precisavam de reabastecer, desciam e voavam a uma velocidade muito baixa e pouco acima da 'stall speed', depois aparecia o camião e com uma mangueira e uma bomba o combustível era transferido para o avião. Foi realmente um espetáculo dramático de pilotagem, porque por vezes tinham de o fazer à noite e isso exigia alguma precisão."
Robert Timm (à frente) e John Cook voam no seu Cessna 172 modificado. Créditos: Howard W. Cannon Aviation Museum

À quarta foi de vez

As três primeiras tentativas de Timm de bater o recorde terminaram abruptamente devido a falhas mecânicas, sendo que a mais longa o tinha deixado e ao seu copiloto no ar durante cerca de 17 dias. Em setembro de 1958, porém, o recorde foi batido por outra equipa, que também pilotava um Cessna 172, tendo ficado em mais de 50 dias.

Para a sua quarta tentativa, Timm seleccionou John Cook, que também era mecânico de aviões, como seu novo copiloto, depois de não se ter dado bem com o anterior.

Partiram a 4 de dezembro de 1958, do Aeroporto McCarran, em Las Vegas. Tal como nas tentativas anteriores, o primeiro passo foi voar baixo sobre um carro em alta velocidade, pintar uma das rodas de aterragem e excluir a possibilidade de fazer batota. "Não teria havido qualquer forma de acompanhar a sua altitude e velocidade em todos os momentos", sublinha Bednarek, "por isso pintaram uma faixa branca em pelo menos um dos pneus. Ele ficaria riscado se alguma vez tivessem aterrado e, antes da aterragem, seria verificado se nenhuma da tinta tinha sido riscada".

O voo decorreu sem problemas no início e a dupla passou o dia de Natal no ar. Cada vez que reabasteciam - num troço de estrada reta ao longo da fronteira entre a Califórnia e o Arizona - também recebiam mantimentos e também comida dos restaurantes do Hacienda que era colocada em frascos térmicos, para ser mais prático enviá-la para o avião.

As pausas para ir à casa de banho aconteceram numa sanita de campismo e os sacos de plástico resultantes eram lançados sobre o deserto. Uma plataforma extensível no lado do copiloto proporcionava mais espaço para fazer a barba e tomar banho (um litro de água seria enviado de dois em dois dias).

Os dois revezavam-se para dormir, embora o incessante ruído do motor e as vibrações aerodinâmicas impossibilitassem uma noite descansada. Como resultado da privação do sono, no dia 36, Timm adormeceu aos comandos e o avião voou sozinho durante mais de uma hora, a uma altitude de apenas 4.000 pés. O piloto automático tinha salvado as suas vidas - embora parasse de trabalhar apenas alguns dias mais tarde.

O reabastecimento aéreo "foi realmente um espetáculo dramático", diz a historiadora da aviação Janet Bednarek. Créditos: Howard W. Cannon Aviation Museum

O fim, finalmente

No dia 39, a bomba elétrica que enviava o combustível para os tanques do avião falhou, forçando-os a iniciar a operação manualmente. Quando finalmente bateram o recorde, a 23 de janeiro de 1959, a lista de falhas técnicas incluía, entre outras coisas, o aquecedor de cabine, o indicador de combustível e as luzes de aterragem: "O importante foi que o motor continuou a funcionar, o que é realmente notável. É muito tempo para estar a voar. Mesmo que o mantenha abastecido e lubrificado, eventualmente só o calor e o atrito vão causar problemas", observa Bednarek.

No entanto, os dois permaneceram no ar e mantiveram-se o máximo de tempo possível, para garantir que o seu novo recorde fosse impossível de bater. Aguentaram por mais 15 dias, antes de finalmente aterrarem em McCarran a 7 de fevereiro de 1959, tendo voado sem parar durante mais de dois meses e 150.000 milhas (240 mil quilómetros).

"Eles tinham determinado que tinham passado o ponto em que mais ninguém ia tentar isto - e ninguém o fez", acrescenta Bednarek.

"Penso que eles sentiam que já tinham dado tudo e que era melhor não se despenharem, por isso desceram. Eles estavam em péssimo estado: sabemos que um período assim de inatividade pode ser muito mau para o corpo e, mesmo que se movessem no avião, não se podiam levantar ou alongar e, certamente, não podiam fazer exercício ou caminhar.

"Seria como estar sentado durante 64 dias - isso não é bom para o corpo. Tiveram de ser retirados do avião."

Será este recorde alguma vez batido por uma tripulação? Bednarek acredita que isso só poderá acontecer se a tentativa envolver uma aeronave a testar alguma nova forma de propulsão ou fonte de energia, para mostrar a sua utilidade.

Qualquer um que pretenda tentar, no entanto, deve ter em conta o aviso do copiloto John Cook, que disse isto quando um repórter lhe perguntou se alguma vez o faria novamente: "Da próxima vez que me apetecer fazer um voo de resistência, vou fechar-me num caixote do lixo com o aspirador ligado e pedir ao Bob [Timm] que me sirva costeletas picadas numa garrafa térmica. Isto até o meu psiquiatra abrir o consultório pela manhã."

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