"Infelizmente não é uma surpresa". Vaticano esperava números de abusos sexuais em Portugal - e admite expulsar padres condenados - TVI

"Infelizmente não é uma surpresa". Vaticano esperava números de abusos sexuais em Portugal - e admite expulsar padres condenados

Jesuíta Hans Zollner fala de uma realidade "muito negra para vítimas, famílias e amigos"

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Os padres e clérigos portugueses que cometeram abusos sexuais contra menores e que ainda estejam no ativo podem vir a ser expulsos pelo Vaticano. Quem o admite é Hans Zollner, membro da Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores e um dos principais rostos do pontificado do Papa Francisco no combate a este flagelo.

Tal como nos casos de igrejas de outros países, o jesuíta alemão esteve presente na conferência de imprensa de apresentação dos resultados obtidos, neste caso pela Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica, que esta segunda-feira revelou que pelo menos 4.815 menores terão sido abusados por membros da Igreja portuguesa, num número que deve ser bem maior que a estimativa avançada, e que surge depois da validação de 512 casos sinalizados durante um ano de trabalho da comissão.

À margem da conferência, e em conversa com a CNN Portugal, Hans Zollner entende que é muito claro. "Um perpetrador que foi acusado, então o procedimento legal tem de ser seguido" pelas leis portuguesas. Quanto ao Direito Canónico, aplicado pela Igreja, pede que os casos que tenham um "vestígio de verdade" sejam denunciados ao Vaticano, que a partir daí abrirá o seu próprio processo.

"Nos casos em que as alegações sejam comprovadas o resultado normal é a expulsão", afirmou.

O padre alemão confessou que não ficou surpreendido com a dimensão do fenómemo em Portugal: "A proporção de perpetradores e vítimas, honestamente, infelizmente, lamento dizê-lo, não é uma surpresa", sublinhou, admitindo a surpresa por um dado que não é comum noutros relatórios, o facto de haver uma maior percentagem de vítimas do sexo feminino.

Uma realidade que Hans Zollner diz ser "muito negra para vítimas, famílias e amigos", ainda que veja um "sinal de esperança". "Agora a Igreja pode libertar muito mais energia, ter muito mais liberdade e aceitar o que aconteceu no passado, bem como reconhecer o sofrimento de quem saiu magoado", disse.

Uma das perguntas mais ouvidas durante a apresentação do relatório foi "e agora?". O padre alemão, que também é um dos maiores especialistas no campo da proteção contra o abuso sexual, pede a implementação de novas formas de acautelar que os problemas terminam por aqui, nomeadamente pela criação de novas comissões de acompanhamento.

Um olhar para o futuro que não esquece o passado: "Temos de ver como acompanhamos vítimas e famílias. Precisamos de olhar para as estruturas da Igreja e saber como como agir e reagir em casos de alegações [de abusos sexuais]", referiu o alemão, pedindo que se garanta a aplicação das medidas necessárias para a proteção de eventuais vítimas.

Um dos pontos mais relevados pela comissão portuguesa é a da necessidade de acompanhamento de vítimas de abusos sexuais. Sugerem os especialistas portugueses, nomeadamente o psiquiatra Daniel Sampaio, que parta da Igreja Católica a obrigatoriedade de pagamento de consultas na área da saúde mental àqueles que foram afetados.

Hans Zollner entende que esse é um assunto que tem de ser decidido dentro de cada país, mas avisou que "a Igreja tem de ter em consideração a situação em toda a sociedade".

"A Igreja pode fazer muito nestes pontos e a sociedade precisa de olhar para o que a Igreja está a fazer", acrescentou.

Sobre o que pode ainda ser feito a nível global, o jesuíta alemão estranha certas situações, nomeadamente a ausência de um relatório em Itália, país onde se insere o Estado do Vaticano.

"Itália não se costuma interessar por esta questão e, para mim, isso é algo difícil de entender", vincou, lembrando que entre 25 a 30 países fizeram relatórios semelhantes, faltando, por isso, mais de 100 países em que a Igreja Católica está presente. Entre esses muitos países estão alguns do continente africano ou da América do Sul, onde o assunto não é falado, segundo Hans Zollner.

Voltando a Portugal, Hans Zollner concluiu dizendo que "este relatório não será a última palavra sobre o assunto". "É um bom começo e precisamos de analisar os factos com mais profundidade."

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