O cardeal-patriarca de Lisboa realçou a “enorme clareza doutrinal” do papa emérito Bento XVI, que morreu este sábado aos 95 anos, destacando, em particular, a abertura ao diálogo “dentro e fora da Igreja”.

Manuel Clemente considerou, em declarações à agência Ecclesia, que este é o momento para “uma ação de graças” pela vida de Bento XVI, “pelo que ela significou, pelo seu pontificado e pela sua enorme clareza do ponto de vista doutrinal, que não foi de modo algum de fechamento, mas de grande abertura à atualidade, das pessoas com quem dialogou, dentro e fora da Igreja e na maneira como ele conseguiu expressar as verdades da (…) fé, numa linguagem coerente, clara e atual”.

Na sua mensagem, o cardeal-patriarca sublinha, por outro lado, a “coragem” de Joseph Ratzinger ao pedir a resignação ao papado, “quando sentiu não ter condições para continuar a exercer o ministério”.

Para Manuel Clemente, Bento XVI foi uma figura “gigantesca, do ponto de vista teológico, filosófico, pastoral e pontifical”.

O patriarca de Lisboa evocou ainda as deslocações de Bento XVI a Portugal, e a sua ligação à mensagem de Fátima: “Muito ligado a Portugal, onde veio, teve ocasião de visitar Fátima, com os pastorinhos, com a explicação da terceira parte do segredo de Fátima, que tantas dúvidas levantava e que afinal liga a mensagem e Fátima e o que os pastorinhos viveram à vida e ao drama da Igreja e do mundo, neste século e no século passado”, assinalou.

Entretanto, numa mensagem escrita divulgada ao início da tarde, Manuel Clemente considerou que Bento XVI deixa "um grande legado", do qual destacou "a lucidez com que seguia todos os debates culturais e religiosos e a clareza com que se pronunciava a seu propósito, oralmente ou por escrito, com crentes ou não crentes".

"A centralidade que sempre deu à Pessoa de Jesus Cristo, como fulcro e norma da fé da Igreja, bem como nas suas fecundas considerações sobre o amor e a caridade" e "a determinação com que levou por diante a vida interna da Igreja e com que decidiu resignar, quando concluiu que já não estava em condições para exercer o ministério" foram também destacadas nesta mensagem escrita, em que Manuel Clemente resume o lugado do papa emérito em três palavras: "inteligência, determinação e liberdade".

Entretanto, começam a surgir indicações sobre cerimónias que as dioceses portuguesas vão realizar em memória do papa Bento XVI. Assim, o Patriarcado de Lisboa anunciou já que vai celebrar uma missa de sufrágio por Bento XVI, na segunda-feira, 02 de janeiro de 2023, às 19:00, na Sé Patriarcal.

Numa nota ao clero da diocese, é ainda recomendado que, “nas igrejas, se dobrem os sinos a anunciar ao povo de Deus” a morte do papa emérito.

Também a diocese do Funchal já anunciou que, no dia 07 de janeiro, será celebrada uma missa por Bento XVI, às 11:00, na catedral local, pelo bispo Nuno Brás.

O papa emérito Bento XVI abalou a Igreja ao resignar do pontificado por motivos de saúde, a 11 de fevereiro de 2013, a dois meses de comemorar oito anos no cargo.

Joseph Ratzinger nasceu em 1927 em Marktl am Inn, na diocese alemã de Passau, e foi Papa entre 2005 e 2013.

Ratzinger tornou-se no primeiro alemão a chefiar a Igreja Católica em muitos séculos e um representante da linha mais dogmática da Igreja.

Os abusos sexuais a menores por padres e o “Vatileaks”, caso em que se revelaram documentos confidenciais do papa, foram casos que agitaram o seu pontificado.

Bento XVI ordenou uma inspeção às dioceses envolvidas, classificou os abusos como um "crime hediondo" e pediu desculpa às vítimas.

Durante a viagem a Portugal, em maio de 2010, Bento XVI disse que "o perdão não substitui a justiça".

/ AM