Portugal está entre os dez países da União Europeia com menor percentagem de alunos do secundário a frequentar o ensino profissional. No ano letivo 2020/2021, 37% dos alunos portugueses completaram o ensino profissional. Um valor que fica muito aquém da média europeia (49%). O preconceito é, ainda, o principal motivo que justifica a diferença. Isto mesmo que as vantagens sejam cada vez mais notórias, começando pela empregabilidade e terminando no salário, revela o “Guia sobre o Ensino Profissional”, realizado pela Fundação José Neves, e divulgado esta quarta-feira.

“Portugal, e os portugueses em particular, têm de reforçar a aposta no ensino profissional para disponibilizar ao mercado de trabalho e ao país competências muito necessárias e hoje em falta. Para ter sucesso neste objetivo é necessário um esforço coletivo que combata o preconceito e realce as vantagens deste tipo de ensino”, afirma Carlos Oliveira, presidente executivo da Fundação José Neves (FJN), em declarações à Pessoas.

“Cabe aos alunos, aos pais às famílias terem a correta informação e perceberem a importância do ensino profissional para o futuro e fazerem esta aposta, cabe às empresas envolverem-se ativamente no desenvolvimento do ensino profissional e reconhecerem as mais-valias para as suas necessidades de recrutamento, e ao país enquanto um todo perceber o valor social desta formação da mesma forma que outros países o fazem”, apela ainda.

O preconceito em relação ao ensino profissional, muito enraizado na sociedade, justifica o posicionamento de Portugal na cauda da Europa. Um estudo europeu realizado pela McKinsey, e que inquiriu mais de 5.200 jovens de oito países (incluindo Portugal), revela que os próprios jovens assumem o preconceito associado ao ensino profissional. Em cinco países, os estudantes que concluíram uma licenciatura universitária consideram que a sociedade valoriza mais um curso académico do que cursos profissionais. No entanto, 80% acreditam que esta via teria, provavelmente, sido mais útil para encontrarem um emprego e 63% referem que teriam preferido optar pelo ensino profissional.

É importante contrariar o preconceito relacionado com o ensino profissional e realçar as mais-valias desta via, que pode revelar-se bastante vantajosa, sobretudo no rápido ingresso no mercado de trabalho e no aspeto salarial no início da carreira, além de dotar o mercado de trabalho de profissionais qualificados e com experiência prática",  Carlos Oliveira, Presidente executivo da Fundação José Neves.

O preconceito inicial contrasta também com as necessidades de recrutamento das empresas. Num inquérito sobre este tema, as empresas indicaram que metade das suas necessidades de recrutamento futuras serão de trabalhadores com formação profissional e que já enfrentam dificuldades em encontrar trabalhadores com este tipo de ensino, em particular técnicos de restaurante/bar e eletricistas de instalações.

A perceção de que o ensino profissional apresenta uma qualidade inferior e que é destinado aos jovens que não encontram outras alternativas é, para a FJN, altamente “enganadora”, sobretudo quando os números provam que não se trata de uma escolha de ‘segunda categoria’.

Vantagens salariais e de empregabilidade

As vantagens salariais e de empregabilidade associadas a esta via de ensino estão a ajudar à sua credibilização. “É importante contrariar o preconceito relacionado com o ensino profissional e realçar as mais-valias desta via, que pode revelar-se bastante vantajosa, sobretudo no rápido ingresso no mercado de trabalho e no aspeto salarial no início da carreira, além de dotar o mercado de trabalho de profissionais qualificados e com experiência prática”, refere o presidente executivo da Fundação José Neves.

Mais de metade dos jovens (51%), 14 meses depois de concluírem um curso profissional já estavam a trabalhar, e 9% estavam, simultaneamente, a trabalhar e a estudar. Além disso, um em cada cinco jovens que concluíram cursos profissionais consegue obter emprego na empresa na qual estagiou.

A nível remuneratório, no início da vida profissional, um jovem com o ensino secundário que tenha optado pelo ensino profissional terá maior probabilidade de obter emprego e um salário mais elevado do que quem tenha optado pelo ensino científico-humanístico, revelam os dados que constam do guia da FJN.

O ensino profissional tem sido uma prioridade internacional e várias organizações têm insistido na sua importância estratégica. A nível europeu, o Centro Europeu para o Desenvolvimento Profissional (CEDEFOP) reconhece que esta via de ensino oferece um conjunto alargado de benefícios económicos e sociais para os indivíduos, empresas, organizações e sociedade em geral. Maior capacidade de corresponder às necessidades do mercado de trabalho, acesso a salários competitivos no início da vida profissional e inúmeras oportunidades de progresso nas carreiras profissionais são alguns dos que destaca.

O país também acompanha a valorização do ensino profissional e definiu como objetivo ter, até 2030, 55% dos diplomados do ensino secundário pela via profissionalizante, reconhecendo que uma mão de obra mais qualificada, com mais competências cognitivas, analíticas e digitais é fundamental para o desenvolvimento económico do país.

Estas vantagens têm, no entanto, tendência a esbater-se e podem até converter-se em desvantagens no futuro, pelo facto de o ensino profissional formar os alunos para profissões concretas, com base na tecnologia e no conhecimento existentes no momento da formação, que podem ficar rapidamente desatualizados.

“É evidente que este tipo de ensino requer uma maior atualização de competências ao longo da vida, mas essa é uma realidade cada vez mais transversal no mercado de trabalho, independentemente da via que se escolha”, alerta Carlos Oliveira. “A aprendizagem ao longo da vida é um tema fundamental para o país. As pessoas têm de reconhecer a importância da constante atualização de competências para se manterem competitivas no mercado de trabalho e poderem progredir na carreira profissional. No caso do ensino profissional ganha ainda mais relevância.”

Além disso, recorda o responsável, o ensino profissional permite prosseguir os estudos para o ensino superior. Uma opção seguida por um terço dos jovens que concluíram um curso profissional: 22% destes frequentaram uma licenciatura numa universidade, 23% frequentaram uma licenciatura num instituto politécnico e uma percentagem mais significativa (48%) preferiu inscrever-se num curso Técnico Superior Profissional (TeSP).

Cursos profissionais em mais áreas, e em mais regiões

Em Portugal, a oferta de cursos profissionais está organizada por áreas de educação e formação, sendo as Ciências Informáticas, Hotelaria e Restauração, Audiovisuais e Produção nos Media, Turismo e Lazer e Desporto as que têm mais ofertas formativas.

O presidente executivo da fundação alerta para a necessidade de alargar a oferta formativa de qualidade, em termos de áreas e regiões. “É muito importante proporcionar a todos os alunos a possibilidade de escolherem em igualdade a área que pretendem seguir.”

O “Guia sobre o Ensino Profissional: uma escolha com futuro” da Fundação José Neves, lançado esta quarta-feira, pretende precisamente ser uma ferramenta de apoio para os estudantes e respetivas famílias, que têm dúvidas sobre se esta via de ensino poderá ser uma boa escolha.

É evidente que este tipo de ensino requer uma maior atualização de competências ao longo da vida, mas essa é uma realidade cada vez mais transversal no mercado de trabalho, independentemente da via que se escolha",  Carlos Oliveira, Presidente executivo da Fundação José Neves.

“É fundamental aproximar o ensino profissional das famílias, para que percebam as vantagens deste tipo de ensino e a importância do mesmo para o futuro académico e profissional”, considera Carlos Oliveira.

O documento reúne dados sobre os alunos e diplomados do ensino profissional, apresenta as vantagens e desvantagens deste tipo de ensino e deixa ainda sugestões para quem pretende enveredar por esta via.

A versão integral do guia está disponível para consulta ou download através deste link.

ECO - Parceiro CNN Portugal / Joana Nabais Ferreira