À medida que a China continua a aumentar aquela que já é a maior marinha do mundo, um professor do Colégio Naval de Guerra dos EUA tem um aviso para os estrategas militares americanos: na guerra naval, a maior frota ganha quase sempre.

Os líderes do Pentágono norte-americano identificaram a China como uma ameaça em curso aos militares americanos. Mas os números da frota mostram que os militares americanos não conseguem acompanhar o curso do crescimento naval da China.

A Marinha do Exército de Libertação Popular (MELP) ultrapassou a Marinha dos EUA em tamanho de frota por volta de 2020 e tem agora cerca de 340 navios de guerra, de acordo com o Relatório do Pentágono de 2022 sobre o Poder Militar da China, publicado em novembro. A frota da China deverá crescer para 400 navios nos próximos dois anos, prevê o relatório.

Enquanto isso, a frota americana tem menos de 300 navios, e o objetivo do Pentágono é ter 350 navios tripulados até 2045, o que mesmo assim ficará bem atrás da China, de acordo com o Plano de Navegação da Marinha dos EUA de 2022, divulgado no Verão passado.

Assim, para competir, os líderes militares dos EUA contam com a tecnologia.

O mesmo documento diz que “o mundo está a entrar numa nova era de guerra, em que a integração de tecnologia, conceitos, parceiros e sistemas - mais do que apenas a dimensão da frota - determinará a vitória no conflito”.

Não se precipitem nessa conclusão, alerta Sam Tangredi, da Cátedra Leidos em Estudos de Guerra Futura da Escola Naval dos EUA.

Se a história ensina alguma lição, então a vantagem numérica da China é suscetível de levar à derrota da Marinha dos EUA em qualquer guerra com a China, de acordo com a pesquisa de Tangredi, apresentada na edição de janeiro da revista "Proceedings" do Instituto Naval dos EUA.

Tangredi, ex-comandante da Marinha dos EUA, analisou 28 guerras navais, desde as Guerras Greco-Persianas de 500 a.C. até aos recentes conflitos e intervenções por procuração na Guerra Fria. E apurou que apenas em três casos uma tecnologia superior venceu números maiores.

“Todas as outras guerras foram vencidas por números superiores ou, quando entre forças iguais, por estratégia superior ou almirantado”, escreve Tangredi. “Muitas vezes as três qualidades atuam em conjunto, porque operar uma grande frota geralmente facilita um treino mais extensivo e é muitas vezes um indicador de que os líderes estão preocupados com os requisitos estratégicos”, escreve ainda Tangredi.

Os três casos foras do padrão – as guerras dos séculos XI, XVI e XIX - provavelmente não são familiares a todos, exceto aos mais fervorosos estudiosos. Os outros casos mostram onde que números batem a tecnologia.

Veja-se, por exemplo, as guerras napoleónicas do início do século XIX.

“Os navios de guerra franceses eram superiores na tecnologia de conceção e construção naval, mas, em última análise, foram os grandes números de navios da Marinha Real que impediram Napoleão de atravessar o canal [inglês]", escreve Tangredi.

Uma lição da Segunda Guerra Mundial

Ou a Segunda Guerra Mundial no Pacífico, onde a tecnologia japonesa começou como sendo melhor que a da América.

“O Japão imperial entrou na guerra com algumas tecnologias superiores: o caça Zero, o torpedo Long-Lance, e os torpedos aéreos que podiam atacar em águas rasas", escreve Tangredi.

“Contudo, foi o poder geral da indústria norte-americana e a dimensão da frota norte-americana (particularmente a sua logística e os seus navios anfíbios) que ancoraram a vitória sobre a Marinha Imperial Japonesa”, diz.

Alessio Patalano, professor de guerra e estratégia no King's College em Londres, elogia o trabalho de Tangredi.

“A sua investigação é uma forma muito boa de fazer recuar a suposição tola de que a massa não importa na guerra no mar", diz.

Patalano sublinha dois pontos-chave:

Uma dimensão maior da frota significa que mais líderes tentam ganhar vantagem aos seus comandos. “Uma frota maior tende a ser mais competitiva, na formação do pessoal de desenvolvimento, e na capacidade operacional”, diz Patalano.

E afirma ainda que uma grande base industrial é essencial, especialmente em ser capaz de construir novas unidades após incorrer em baixas em batalha. “Na guerra naval, o desgaste é uma coisa real, por isso a capacidade de substituir é vital”, acrescenta.

Contratorpedeiro americano no rio Ohio, em 1944, parte do enorme esforço de construção naval dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. Foto 12/Universal Images Group Editorial/Getty Images

O olhar de Tangredi sobre as frotas de porta-aviões da Segunda Guerra Mundial mostra os números impressionantes. Tanto os EUA como o Japão começaram a guerra com oito porta-aviões, diz.

“Durante a guerra, o Japão Imperial construiu 18 equivalentes de porta-aviões ... enquanto os Estados Unidos construíram 144. A menos que os Estados Unidos decidissem não lutar, o Japão nunca teve hipóteses", escreve.

A construção naval foi uma força dos EUA quando foi o gigante industrial mundial na década de 1940. Esse título pertence agora à China.

“A maioria dos analistas duvida que a indústria de defesa dos EUA - que se consolidou e encolheu desde o fim da Guerra Fria - pudesse expandir-se suficientemente depressa para satisfazer a procura em tempo de guerra”, escreveu Tangredi.

Reposição de stocks de munições

De facto, a indústria norte-americana não consegue acompanhar a procura em matéria de assistência de armas à Ucrânia para combater a invasão russa, mantendo os inventários de armas dos EUA a níveis adequados.

O Almirante Daryl Caudle, comandante do Comando das Forças Armadas dos EUA, apelou na semana passada às indústrias de defesa da nação para intensificarem a sua produção, dizendo “não vão entregar a artilharia de que precisamos”.

“Isso é essencial para vencer. E não posso fazê-lo sem artilharia”, disse Caudle num simpósio em Washington, acrescentando que os EUA estão “aqui a ir contra um concorrente, e um potencial adversário, como nunca vimos”.

Num fórum online na semana passada, o almirante Mike Gilday, Chefe de Operações Navais, também notou o problema dos números que os EUA enfrentam num potencial conflito no Pacífico.

“A Marinha dos Estados Unidos não vai conseguir igualar o plano míssil para míssil”, disse Gilday. E se a Marinha dos EUA não conseguir igualar a China no míssil para míssil, ou navio para navio, Tangredi questiona-se onde poderá então encontrar uma vantagem.

“Os líderes dos EUA devem perguntar-se até que ponto estão dispostos a apostar na superioridade tecnológica – e não numérica - nessa luta”, escreve ele.

“Não digo que uma frota menor e tecnologicamente superior nunca poderá derrotar uma frota muito maior, apenas digo que - com a possível exceção de três casos nos últimos 1.200 anos – nunca nenhuma o conseguir fazer".

Foto no topo: fragata de tipo 54A da marinha chinesa deixa o Mar Báltico através do Canal de Kiel. Joerg Waterstraat/SULUPRESS.DE/dpa/AP

 

CNN / Brad Lendon