Sentado na secretária do seu escritório e rodeado de livros de doutrina militar, o general responsável pela defesa da Ucrânia, Valerii Zaluzhnyi, não esconde a sua admiração pelo homólogo russo, Valery Gerasimov. “Ele é dos homens mais inteligentes e as minhas expectativas dele eram enormes. Li tudo o que escreveu”, admitiu à revista TIME. Da sua forma de pensar até à forma de fazer guerra, Zaluzhnyi, militar formado pela doutrina soviética, mas um ávido estudante dos métodos ocidentais, estudou tudo, mas, até agora, os dois nunca se chegaram a defrontar no campo de batalha. A partir desta quarta-feira, essa realidade vai mudar.

Passados quase 11 meses desde o início daquilo que Vladimir Putin apelidou de “Operação Militar Especial”, Valery Gerasimov, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Federação Russa, foi nomeado o comandante do exército russo na Ucrânia. Substitui Serguei Surovikin, o “general Apocalipse” que fica como chefe-adjunto.

Espera-se que a escolha de Gerasimov seja alvo de duras críticas por parte da franja ultra-nacionalista da comunidade de bloggers militares que seguem o conflito do lado russo, uma vez que Surovikin é uma figura muito popular que, apesar de ter dado a ordem de retirada em Kherson, estabilizou a frente de batalha e iniciou a campanha de bombardeamento de infraestruturas críticas ucranianas, algo que é visto com bons olhos pelo núcleo duro de Moscovo.

Para o coronel Mendes Dias, esta mudança não é demonstrativa de confusão ou desgaste por parte do comando russo. Muito pelo contrário. Para o especialista militar, esta alteração pode ser a antecipação de algo muito maior para o lado russo.

"Avizinha-se uma operação militar de grande dimensão. Num comando tendencialmente centralizado como é o das forças russas, quanto mais alto for o escalão em que se coordenam os meios melhor o desempenho. Gerasimov mantém adjuntos. Surovikin fica a liderar a força aérea e o comandante das forças terrestres como adjunto. Pode significar que há algo que está para vir", explicou.

Gerasimov, de 67 anos, formou-se na Academia Militar Frunze em 1978 e começou a sua carreira militar como oficial dos serviços de inteligência. Durante a sua carreira serviu em vários postos, incluindo como oficial de inteligência na região da Transcaucásia e chefe de inteligência militar na região de Volga. Foi nesta área que alcançou o reconhecimento dos seus pares, sendo considerado um especialista em inteligência militar e operações de contra-insurgência.

A “Doutrina de Gerasimov”

A sua experiência e o aparecimento das “Revoluções Coloridas” um pouco por todo o mundo levou-o a desenvolver a doutrina militar pela qual viria a ganhar notoriedade, ficando para sempre conhecida como a “Doutrina de Gerasimov”. A tese do general russo defende a utilização de uma variedade de métodos em guerra, incluindo ações psicológicas, económicas e de natureza informacional, para influenciar a opinião pública e desestabilizar adversários políticos sem o uso de força militar direta.

Vários alicerces do seu trabalho são, neste momento, utilizados pelo Ocidente contra o potencial militar russo. Entre as ações “não militares” propostas por Gerasimov está a aplicação de sanções económicas, pressão política e diplomática, a criação de coligações e alianças, a formação de uma oposição política e tentativa de alterar a liderança do país adversário. Alguns dos seus maiores críticos apontam que o trabalho académico de Gerasimov torna as fronteiras entre a guerra e a paz menos definidas e que às vezes uma se mistura com a outra.

Um dos aspectos mais importantes da doutrina de Gerasimov é o comunicacional. Para o líder russo, a guerra moderna apresenta a necessidade de desenvolver capacidades para controlar e manipular a opinião pública e os meios de comunicação. Isso inclui o uso de propaganda, desinformação e ciberguerra. Essas estratégias devem, no seu entender, servir para influenciar a opinião pública e criar condições favoráveis para o uso da força militar, caso seja necessário.

A estratégia de Gerasimov é, de facto, a dominante no seio militar russo. Depois de ter sido promovido ao cargo de chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Federação Russa em 2012, existem vários exemplos da utilização da “guerra híbrida” por parte da Rússia, em particular, no leste da Ucrânia, em 2014.

Alguns governos e organizações internacionais também criticam a Rússia pela sua abordagem de "guerra híbrida" e acusam-na de usar táticas não convencionais de forma agressiva e inapropriada, como é o caso dos Estados Unidos da América, que acusam o governo de Vladimir Putin de interferência no ato eleitoral de 2016. A situação tem resultado num aumento das tensões e desconfiança em relação à Rússia em vários países, especialmente na Europa e nos Estados Unidos.

João Guerreiro Rodrigues