A invasão deste domingo à Praça dos Três Poderes em Brasília foi, tal como a invasão do Capitólio nos Estados Unidos de há dois anos, preparada antecipadamente - neste caso pelos apoiantes do ex-presidente Jair Bolsonaro. A CNN Portugal teve acesso a dois grupos de Telegram ligados à extrema-direita brasileira e as primeiras mensagens de apelo a uma invasão datam de 3 de janeiro.

“Atenção patriotas de todo o Brasil! A partir do dia 08/01 vamos parar Brasília! Não podemos esperar nossa nação ser destruída! Vamos todos para Brasília! Desentocar todos os ratos que se apossaram do poder!!! Ou lutamos agora ou viveremos de joelhos! Ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil. Dia 08/01/2023 em Brasília começa o nosso novo dia da independência!”, pode ler-se na mensagem partilhada num dos grupos, que apelava à participação de militares, agricultores, camionistas e empresários no protesto.

Mensagens similares foram sendo partilhadas e repartilhadas ao longo dos últimos dias. O local designado para a concentração dos participantes é sempre o mesmo, a Praça dos Três Poderes, mas a linguagem varia: enquanto umas apelam a uma manifestação pacífica, outras pedem mesmo uma “intervenção” ou “revolução” militar liderada pelos “militares no ativo e reservistas patriotas anticomunistas e antiditaduras” para depor o presidente Lula da Silva e dar novamente posse ao anterior chefe de Estado.

A estada de Bolsonaro na Florida, nos Estados Unidos, está a ser aproveitada pelos seus apoiantes, que querem realizar um “golpe” sem que o seu ídolo possa ser acusado. “A gente quer acreditar que estamos ainda sobre a proteção e ação das FA (Forças Armadas), da estratégia militar… Pode até ser, mas agora com a saída de Bolsonaro do Brasil e o término do seu mandato, qualquer atitude mais drástica do povo (sem quebradeira ou incêndios) pode ser feita sem que Bolsonaro seja acusado de GOLPE”, lê-se numa das publicações no Telegram.

Nada parece ter sido deixado ao acaso. Foram também várias as publicações que anunciavam a organização de caravanas de autocarros rumo à capital. Uma delas partiu da cidade de Campinas, no estado de São Paulo, no dia 6 de janeiro. O preço anunciado da viagem era de 50 reais (quase nove euros) ida e volta. “Levem tenda, cobertor, itens higiénicos e papel higiénico. Não há data prevista de regresso”, pode ler-se na mensagem.

Outro tipo de publicações relativas ao protesto ensinavam os participantes a fazer cartazes e sinais para levar para o protesto, enquanto outras pediam para não levarem mochilas. “Não usem mochilas nos Três Poderes. Muito cuidado com os infiltrados, eles vão levar mochila com coquetel molotov, armas e coisas pra nos incriminar e nos ferir. Fiquem alertas com as mochilas!”, pede o administrador de um dos grupos.

Ao longo do domingo, os administradores dos grupos analisados pediram repetidas vezes a mobilização dos populares para a Praça dos Três Poderes. Outro pedido bastante frequente, já a invasão estava a decorrer em força, foi o da realização de uma “intervenção militar” e consequente tomada de poder por parte do exército. Os organizadores tentaram ainda convocar protestos para outras cidades do Brasil, designadamente São Paulo. “Manifestantes de São Paulo, se dividam e invadam imediatamente a Globo e a Band. Essas duas emissoras estão distorcendo as informações, foco neles agora”, diz uma das mensagens reencaminhadas para os grupos.

À medida que o protesto foi desmantelado e começaram a surgir as primeiras notícias da detenção de centenas de participantes, o entusiasmo dos membros dos grupos foi diminuindo. À hora da publicação deste artigo, ambos os grupos analisados estavam inativos há várias horas. Mesmo assim, houve lugar à celebração da vandalização das sedes dos três poderes.

No entanto, as publicações sobre o protesto estão longe de ser o único tema nestes grupos. Uma boa parte das mensagens visam Lula da Silva e os membros do seu Governo, bem como Alexandre de Moraes, magistrado do Supremo Tribunal Federal. As mensagens dirigidas a estas personalidades vão desde a simples ofensa até acusações falsas da prática de centenas de crimes. Muitos acreditam também que a tomada de posse do atual presidente foi uma encenação e que Jair Bolsonaro continua a ser o líder do Brasil.

A continuação da propagação de informações falsas sobre a covid-19 e as vacinas que combatem a doença faz parte da retórica. Várias publicações insinuaram que Damar Hamlin, jogador de futebol americano dos Buffalo Bills, sofreu a paragem cardíaca em campo devido à toma de três doses da vacina contra o vírus que provocou a pandemia.

Além da covid-19, outro tema muito abordado nestes grupos é a política americana. Donald Trump reúne o apoio de imensos bolsonaristas inscritos nestes canais, assim como os congressistas Matt Gaetz e Lauren Boebert, e outras figuras como Elon Musk e Kanye West. À semelhança do que acontece com Jair Bolsonaro, é também crença que Donald Trump venceu as últimas eleições presidenciais e é o legítimo chefe de Estado dos Estados Unidos.

Pedro Falardo