Pedro Nuno Santos deixou o Governo, mas não levou a sua influência. Para substituir o ministro das Infraestruturas e da Habitação foram criadas duas pastas com pessoas bem próximas do ex-governante. João Galamba e Marina Sola Gonçalves sobem no Governo, tendo sido nomeados ministros das Infraestruturas e da Habitação, respetivamente. Uma remodelação que se segue à saída de Pedro Nuno Santos do executivo, depois da polémica indemnização de 500 mil euros dada pela TAP a Alexandra Reis, ex-secretária de Estado do Tesouro, que também caiu na sequência do caso.

João Galamba vai para o seu quarto cargo nos três anos de governo de António Costa. O agora ministro transita de Ministério, depois de ter passado sete anos no Ambiente, onde tutelou as secretarias de Estado da Energia e do Ambiente. Foi nessa qualidade que se envolveu em várias polémicas, uma das quais resultou numa investigação que também visava o antigo ministro da Economia, Pedro Siza Vieira.

O Departamento Central de Investigação e Ação Penal, o Ministério Público e a Polícia Judiciária abriram um processo para apurar eventuais crimes de tráfico de influência, corrupção e outros crimes económico-financeiros.

Em causa estão eventuais favorecimentos ao consórcio EDP/Galp/REN para o milionário projeto do hidrogénio verde para Sines. A investigação acontece depois de suspeitas surgidas em 2019, com as autoridades a tentarem perceber se houve favorecimento àqueles grupos naquele que foi um dos maiores investimentos públicos dos últimos anos.

Também o Ministério Público investiga alegadas irregularidades na concessão à exploração de lítio em Montalegre. A concessão dada à LusoRecursos acabou por ser revogada, com o então ministro do Ambiente e Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes, a afirmar que houve “falta de profissionalismo” por parte daquela empresa.

João Galamba defendeu que “teria cometido um crime” caso tivesse revertido o despacho que dava conta da aprovação da concessão da pesquisa e exploração de lítio à LusoRecursos, acrescentando que fez aquilo que lhe tinha sido pedido.

Recorde-se que este caso motivou várias queixas das aldeias de Morgade, Rebordelo e Carvalhais, todas no concelho de Montalegre, onde a população levantou preocupações relativas ao impacto ambiental, bem como na saúde e na agricultura locais.

Os casos no Twitter

Várias das informações que foram surgindo sobre estas polémicas de João Galamba foram noticiadas no programa "Sexta às Nove", da RTP. Conhecido por ser bastante ativo no Twitter, o então secretário de Estado viu-se envolvido em dois casos naquela rede social, um deles precisamente relacionado com aquele conteúdo.

Em resposta a um utilizador João Galamba apelidou de "estrume" o conteúdo do programa: "Lamento, mas estrume só mesmo essa coisa asquerosa que quer ser considerada 'programa de informação'. Mas, se gosta deste caso psicanalítico em busca da sua expiação moral, bom proveito." Isto depois de um utilizador ter dito, na mesma plataforma, que todas as semanas abria "uma garrafinha do @Joaogalamba" e sentava-se "a ver o estrume por ele produzido". A resposta do governante acabou por ser apagada.

Só que o caso não ficou por aí, e motivou reações da RTP e do Sindicato dos Jornalistas. O canal público afirmou que as afirmações de João Galamba não só atentavam "contra o bom nome da RTP e da sua jornalista Sandra Felgueiras" como desrespeitavam a liberdade de informação, assumindo "particular gravidade" por se tratar de um membro do Governo. Já o sindicato disse "repudiar a forma como o secretário de Estado da Energia se referiu ao programa de informação da RTP, Sexta às Nove", acrescentando que "a liberdade de expressão não justifica tudo" e considerando que "uma pessoa com as responsabilidades governativas e públicas de João Galamba deveria ser a primeira a perceber que um ataque à liberdade de imprensa é um ataque à democracia".

Este ano, e já no terceiro Governo, nova polémica na rede social. Depois de ter apelidado de "coisa deveras lamentável" um tweet sobre o preço dos combustíveis feito por um utilizador, cuja conta foi, entretanto, apagada, João Galamba escalou a discussão para mensagens privadas. Só que o utilizador, Applehead, partilhou as mesmas, deixando imagens em que se pode ver o secretário de Estado a enviar mensagens como "Vai para o car****".

Sempre a subir na Habitação

De Marina Sola Gonçalves sabe-se pouco. Foi eleita deputada no início do ano por Viana do Castelo, onde era a segunda colocada, mas já fazia parte dos governos anteriores.

De resto, a agora ministra, cuja pasta é criada de propósito, tem sido sempre uma sombra de Pedro Nuno Santos, subindo a pique no Ministério até agora tutelado por aquele governante, do qual foi assessora quando Pedro Nuno Santos ainda era apenas secretário de Estado, à altura dos Assuntos Parlamentares.

Licenciada em Direito e jurista de profissão, tem já uma longa carreira no PS, onde é também vice-presidente do Grupo Parlamentar. No Governo foi subindo, escolhida, em 2019, para chefe de gabinete de Pedro Nuno Santos, então nomeado ministro das Infraestruturas e da Habitação.

Daí passou para a secretária de Estado da Habitação, sendo reconduzida já nesta nova legislatura. Com a queda do seu ministro apresentou a demissão, à imagem do que fez o seu colega das Infraestruturas. Agora é chamada de volta para tutelar a pasta da qual era braço-direito de Pedro Nuno Santos.

António Guimarães