Um filme para recordar o massacre dos judeus em 1506 em Lisboa: "As fogueiras tinham a altura de casas, numa cidade cheia de corpos despedaçados e onde cabeças eram passeadas na ponta de lanças" - TVI

Um filme para recordar o massacre dos judeus em 1506 em Lisboa: "As fogueiras tinham a altura de casas, numa cidade cheia de corpos despedaçados e onde cabeças eram passeadas na ponta de lanças"

A violência foi terrível. Em três dias morreram cerca de três mil pessoas. A Comunidade Israelita do Porto quer que este acontecimento não seja esquecido: "Um dia, bastará um rastilho para que a tragédia deflagre às mãos de um grande número de populares em fúria"

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"Vi que em Lisboa se alçaram povo baixo e villãos
contra os novos christãos
mais de quatro mil mataram
dos que houveram às mãos:
uns d'elles, vivos queimaram,
meninos despedaçaram,
fizeram grandes cruezas,
grandes roubos e vilezas
em todos quantos acharam."

Garcia de Resende

Aconteceu durante três dias, entre 19 e 21 de abril de 1506, e ficou conhecido como o Massacre de Lisboa: o povo da cidade juntou-se num ato de revolta atacando os cristãos-novos, ou seja, os judeus. Entraram-lhes em casa e arrastaram-nos para as ruas. Foram torturados, esquartejados e queimados. Estima-se que tenham morrido mais de três mil pessoas.

"Bastou um rastilho para que antigos mitos contra os judeus gerassem uma catástrofe. As fogueiras tinham a altura de casas, numa cidade cheia de corpos despedaçados e onde cabeças eram passeadas na ponta de lanças", descreve Gabriel Senderowicz, presidente da Comunidade Israelita do Porto (CIP), que decidiu assinalar a data com o lançamento de um filme documental recordando o evento: "1506 - O Genocídio de Lisboa", realizado por Luís Ismael e produzido pela LightBox.

O filme estará disponível online e gratuitamente às 23:59 do dia 18 de abril de 2024, no canal de Youtube da CIP em cinco idiomas: português, hebraico, inglês, francês e castelhano.

Além disso estão previstas antestreias com debate em Telavive (Israel) e Miami (EUA), já na quarta-feira, e no Porto na quinta-feira (na Fundação Cupertino de Miranda, às 21:00). Outras exibições com debate estão marcadas para Lisboa (2 de maio, Cinema City do Campo Pequeno, às 18:30), Madrid, Londres, Paris, Nova Iorque, Hamburgo, Sidney. 

"Na última década, no âmbito da nossa missão de promoção da cultura e da história judaica, criámos dois museus e produzimos vários filmes, um dos quais é o filme português mais internacionalmente premiado de sempre ("1618" -  sobre uma visitação do Santo Ofício à cidade do Porto). Posto que o genocídio de Lisboa foi um marco relevantíssimo na história judaica europeia, decidimos também avançar para esta produção, que estava pensada e escrita desde 2020", conta à CNN Portugal Michael Rothwell, responsável pelo departamento cultural da Comunidade Israelita do Porto. 

"O filme é realmente um filme-documentário. Não tem romance. É 100% baseado em factos reais, como todos os nossos filmes anteriores. A nossa comunidade tem fins de promoção da religião, da história e da cultura judaica, não faz 'filmes'", sublinha Michael Rothwell. "Há inúmeras fontes da época que foram estudadas pelo nosso departamento de pesquisa histórica, tendo o guião sido revisto pela Cátedra de Estudos Sefarditas Alberto Benveniste, da Universidade de Lisboa, na pessoa da professora Susana Mateus."

"O filme é sobretudo um documentário inspirado em factos reais. O genocídio é o tema e não o enquadramento", acrescenta Gabriel Senderowicz. "Tentamos reduzir o filme-documentário ao mínimo indispensável – cerca de 20 minutos – para que o mesmo possa ser visto por todos, mesmo aqueles que prescindem de longas películas. Isto também nos permite organizar visionamentos e debates em salas de cinema de todo o mundo, com convidados ilustres e intervenção da plateia, algo cada vez mais necessário depois do massacre de 7 de outubro de 2023 em Israel."

A escalada de violência: o que motivou o massacre?

Lendo as descrições da época, é inevitável perguntarmo-nos: como foi possível isto acontecer, de onde veio tanta violência? Desde a Idade Média, os judeus que viviam na Península Ibérica "eram um corpo social à parte, viviam geralmente em zonas específicas, as judiarias, e podiam exercer a sua religião", mas eram vistos com alguma desconfiança, explica à CNN Portugal a historiadora Susana Mateus. Muitos judeus trabalhavam para o rei na cobrança das rendas e na organização da contabilidade pública, o que por si só já justificava a animosidade. Alguns eram ourives ou emprestavam dinheiro cobrando juros, vivendo melhor do que grande parte da população. 

"O sentimento anti-judaico, que está latente, sempre presente nas sociedades europeias, intensificou-se no final do século XIV. Começa a haver episódios de violência contra as populações judaicas. Tinha havido expulsões da Inglaterra e da França e os judeus migram para sul. Houve massacres semelhantes ao de Lisboa noutras regiões, como a Catalunha, em 1291."

Isto levou a que alguns judeus em Portugal se convertessem ao cristianismo, de forma mais ou menos forçada. "A realidade social nesta altura é muito complexa, temos população cristã, judaica, muçulmana, convertidos. Na mesma família podia haver um cristão e um judeu. Isto numa época em que a religião está muito presente na vida das pessoas e pode ser determinante no seu dia a dia, daí que também a sociedade fosse mais intolerante", conta a historiadora. Esta conjuntura de tensão vai manter-se até finais do século XV. 

Imagem do filme "1506 - O Genocídio de Lisboa"

Em Castela e Aragão em 1492 é decretada a expulsão dos judeus. "Começa a espalhar-se esta ideia de que um reino tinha de ser de uma única religião." Nessa altura, uma parte da população judia vem para Portugal.

Em 1496 o rei D. Manuel casou com D. Isabel, filha mais velha dos reis católicos. Uma das premissas do contrato de casamento era que o rei português ordenasse a expulsão de judeus e muçulmanos e ele assim o fez. Só aqueles que se convertessem ao cristinianismo poderiam permanecer no país. Muitos judeus converteram-se - são os cristãos-novos. Em 1497 o rei ordenou a conversão geral. Mandou encerrar todos os portos de embarque e ordenou que se reunissem todos os judeus e os conduzissem à força à pia batismal.

Apelidados de cristãos-novos, foram-lhes dados 20 anos para abandonar as crenças e usos judaicos. Mas muitos persistiram, às escondidas. "A população manteve-se nas zonas da judiarias e não havia nenhuma verificação, não se sabia ao certo quem é que continuava ou não a cumprir os rituais judaicos. Começou a haver desconfiança da população, diziam que eles afinal não eram cristãos. O massacre de 1506 é sobre esta população - os cristãos novos", explica Susana Mateus.

“A conjunta geral é também muito desfavorável: são anos de peste endémica, seca, más colheitas, fome. O rei e a corte já não estavam em Lisboa, tinham fugido à peste. E, como sempre nestes momentos de crise, tenta-se encontrar um culpado, um bode expiatório”, conta a historiadora. “Há uma teoria que é também alimentada por alguns religiosos: como tinha havido esta conversão mas não era sincera isto era crime de heresia e, como os judeus não estavam a ser perseguidos por isto, todos estes males eram um castigo divino contra Portugal."

“Quando eram judeus era muito visíveis,  tinham uma marca na roupa, viviam num bairro separado, usavam uma língua diferentes e tinham hábitos distintos. Quando se convertem, deixam de ser visíveis - formalmente não há distinção. O inimigo está dissimulado no meio de nós, dizia-se. Havia já uma grande desconfiança em relação aos judeus que foi manipulada e estimulada por algumas autoridades eclesiásticas. Começaram a surgir altercações, há uma cronologia de intolerância em crescendo.”

O massacre: uma violência nunca vista

Naquele dia, tudo começou na Igreja de São Domingos, em Lisboa. Começou a falar-se de um fenómeno luminoso que acontecia ali e que as pessoas interpretaram como um milagre. A população começou a acorrer à igreja para ver o milagre, juntaram-se cada vez mais pessoas. No dia 19 de abril de 1506 a igreja estava cheia. Uma luz brilhou no crucifixo da igreja e a multidão rejubilou. Mas houve um cristão novo que disse que não era milagre nenhum, que era só um reflexo de uma das candeias acesas. Foi isso que espoletou a violência. O homem foi arrastado para a rua e foi morto. A partir daí, a multidão não parou.

"No mosteiro de São Domingos existe uma capela, chamada de Jesus, e nela há um Crucifixo, em que foi então visto um sinal, a que deram foros de milagre, embora os que se encontravam na igreja julgassem o contrário. Destes, um Cristão-novo (julgou ver, somente), uma candeia acesa ao lado da imagem de Jesus. Ouvindo isto, alguns homens de baixa condição arrastaram-no pelos cabelos, para fora da igreja, e mataram-no e queimaram logo o corpo no Rossio. Ao alvoroço acudiu muito povo a quem um frade dirigiu uma pregação incitando contra os Cristãos-novos, após o que saíram dois frades do mosteiro com um crucifixo nas mãos e gritando: “Heresia! Heresia!” (...) Juntos mais de quinhentos, começaram a matar os Cristãos-novos que encontravam pelas ruas, e os corpos, mortos ou meio-vivos, queimavam-nos em fogueiras que acendiam na ribeira (do Tejo) e no Rossio. Na tarefa ajudavam-nos escravos e moços portugueses que, com grande diligência, acarretavam lenha e outros materiais para acender o fogo. E, nesse Domingo de Pascoela, mataram mais de quinhentas pessoas."
Damião de Góis, "Chronica do Felicissimo Rey D. Emanuel da Gloriosa Memória"

“Entraram nas casas dos judeus, arrastaram-nos para fora e levavam-nos para as fogueiras, para serem queimados. Não sabemos se eram todos cristãos novos, não temos como saber", conta Susana Mateus. “O massacre durou três dias e foi de extrema violência. Foi um fenómeno de massas irracional. No mínimo, morreram 2 mil pessoas, mas é mais provável que o número de mortos esteja mais próximo dos 4 mil”, diz a historiadora. O rei é avisado e manda autoridades civis e militares para controlar a violência. Só o conseguiram ao terceiro dia.

O massacre está relatado em várias crónicas escritas por testemunhas, em correspondência de mercadores, há uma série de normativas régias que tentam punir os culpados, aparecem notícias em toda a Europa. “Foi um acontecimento muito impactante em toda a Europa e ficou na memória das pessoas que o viveram,  mais de 30 anos depois ainda continuava a ser falado."

"O Rossio abria-se como uma ferida infetada inçada de enxames de pessoas vociferantes. Apinhavam-se em volta de carruagens enfeitadas, gritavam pelas grandes arcadas do Hospital de Todos os Santos, debruçavam-se em risadas das varandas e dos beirais das janelas. (...) Acima das cabeças da multidão, viam-se subir colunas de fumo espesso em frente da Igrejas dos Dominicanos. (...) De repente, avistei Mestre Salomão, o ourives, na orça da multidão. Tinha as mãos amarradas atrás das costas por um gigantes corpulento, com a musculatura lustrosa de um ferreiro. O cabelo e o pescoço do ourives estavam sujos de fezes. (...) Enfiei-me entre as pessoas para o seguir e fui arrastado para o centro por uma corrente inesperada. (...) atingi finalmente uma clareira. Uma pira. Chamas crepitantes. Gavinhas de fogo laranja e verdes desenrolando-se em direção ao telhado da igreja. No campanário, um frade dominicano com uma grande papada empunhava uma espada com uma cabeça decepada na ponta e exortava a populção com uma voz irosa:
- Morte aos heréticos! Matai esses judeus do demónio! Que a justiça do Senhor caia sobre eles! Fazei-os pagar pelos crimes contra as crianças cristãs! Fazei-os...
O fogo causava uma calor infernal, alimentado pela massa dos corpos judeus que lhe tinham sido lançados. (...) A toda a volta da pira havia poças de sangue de onde emergiam corpos mutilados."

Richard Zimler, "O Último Cabalista em Lisboa"

“A política até então era para criar uma sociedade homogénea e com este acontecimento tornou se evidente que essa ideia não era possível, havia diferenças. Até esse momento havia um controlo: os cristãos novos estavam proibidos de sair do país. Em 1507 essa proibição foi levantada e muitos aproveitaram para sair.”

“A hostilidade ganha outros contornos, as pessoas concluem que um cristão convertido nunca poderá ser um verdadeiro cristão, se tem sangue judeu nunca pode ser um verdadeiro cristão e isso tem consequências a nível religioso e racial - a segregação aumenta." Basta lembrarmo-nos da representação do judeu no "Auto da Barca do Inferno", de Gil Vicente (1517). "O anti-judaísmo que se cria nesta época prolonga-se por séculos. A história do povo judeu é uma história de constante perseguição e reconstrução”, sublinha Susana Mateus.

Um filme para lembrar o passado e falar do presente

O realizador Luís Ismael - que é conhecido sobretudo como o autor dos filmes de sucesso "Balas e Bolinhos" - abraçou o desafio de contar o massacre num pequeno filme: "As descrições que existem são muito violentas, as pessoas foram esquartejadas, queimadas, bebés foram atirados contra a parede. Foi uma caça casa a casa, animalesca, procuravam os judeus que se tinham escondido em esgotos, em túneis. Mais de duas mil pessoas foram mortas em três dias. Tínhamos que mostrar a violência mas sem a mostrar, tentando não chocar as pessoas que veem o filme", explica o realizador à CNN Portugal. 

Esse não foi o único desafio da produção. "A Lisboa quinhentista já não existe, as ruas e características arquitectónicas já não existem, isso foi um grande problema. Fomos ao Museu de Lisboa e tentámos saber ao máximo como eram as casas, as cores, como se vivia na cidade de Lisboa naquela altura. E tivemos que recriar tudo", conta Luís Ismael. A rodagem decorreu em vários locais em Braga, Sortelha, Felgueiras, Maia. Alguns cenários de interiores foram construídos nos estúdios da LightBox no Porto. E, sempre que necessário, recorreu-se à tecnologia, com painéis de chroma de 70 ou 80 metros de comprimento que, depois, na pós-produção, davam lugar às ruas de Lisboa. Houve uma grande preocupação de recriação histórica, era essencial mostrar o ambiente da cidade que proporcionou este acontecimento, explica o realizador.

"Na primeira versão havia uma narrativa formal, com personagens, mas acabou por ser mais documental. Aparecem apenas um cobrador de impostos e Dom Joao Mascarenhas, o escudeiro do rei que foi capturado e morto na Praça da Ribeira, que é agora o Terreiro do Paço", diz o realizador. A grande personagem é o povo da cidade de Lisboa. Habituado a liderar um grupo pequeno de atores, aqui Luís Ismael teve a seu cargo "cerca de 150 atores que não eram apenas figurantes, têm intervenção direta no filme, são aquelas pessoas que fazem o massacre e tinham que parecer agressivas, violentas. Isso não é fácil. Tivemos que criar um ambiente desconfortável no set, espalhar sangue fictício no chão, lançar fumo, pusemos corpos (dummies) com marcas profundas de machados - tudo isso também os ajudou a entrar nas personagens." E depois houve todo o cuidado com a caracterização: "Eram pessoas que não tinham posses, os mais ricos já tinham saído da cidade porque havia seca, fome e peste. A corte tinha ido para Aviz. A tipologia das vestimentas das pessoas de Lisboa tinha de ser do povo, ninguém tinha os dentes branquinhos, havia muita sujidade", conta Luís Ismael. "Estávamos no início dos Descobrimentos mas esta era uma cidade enferma."

Imagem do filme "1506 - O Genocídio de Lisboa"

"O filme mostra como é que as multidões se comportam", diz Luís Ismael. "Este massacre foi espoletado por uma coisa de nada. Na altura já havia um mal-estar em relação aos judeus, porque era uma classe que tinha mais posses, tinham que fazer coisas que ninguém gosta como cobrar impostos e tinham lugares proeminentes da sociedade." Mas, por muitas explicações que existam, existe também um lado irracional, é o movimento de uma massa descontrolada.

Para Michael Rothwell o que aconteceu em Lisboa foi, sem dúvida, um genocício: "Assistiu-se ao assassinato indiscriminado da população judia da cidade de Lisboa. Assassinada por ser judia e de modo a que não ficasse uma pessoa viva, uma criança, um velho, uma mulher". 

"Numa perspectiva milenar, as perseguições e os massacres contra os judeus foram cíclicos em toda a parte. O que sucedeu em Lisboa, já tinha acontecido (séculos antes) e voltou a acontecer (séculos depois) em outros lugares. Na Europa houve sempre países onde os judeus eram mais protegidos do que noutros, mas as circunstâncias rapidamente mudavam", explica este responsável da CIP. Por isso é tão importante que não se esqueça o que aconteceu, diz. O que este massacre nos mostra "é o resultado dos mitos antissemitas que não associam os judeus a virtudes. É brincar com o fogo. Um dia, bastará um rastilho para que a tragédia deflagre às mãos de um grande número de populares em fúria".

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