“Foi mediante pagamento”, diz ex-polícia envolvido na morte de Marielle Franco. Relatos do crime falam de metralhadora e carro desmanchado - TVI

“Foi mediante pagamento”, diz ex-polícia envolvido na morte de Marielle Franco. Relatos do crime falam de metralhadora e carro desmanchado

  • CNN Brasil
  • Elijonas Maiada, Leandro Resendeda e Giovanna Bronzeda
  • 1 nov 2023, 17:00
A despedida de Marielle Franco no Rio de Janeiro

Caso Marielle: dois mil dias depois, investigadores trabalham com possibilidade de novas delações premiadas. Principal foco é descobrir se houve um intermediário entre os dois ex-PMs presos pelo crime, e os supostos mandantes. Suspeito da morte de Marielle relata o crime. Élcio de Queiroz fala em “questão pessoal”, mas não responde pergunta sobre existência de mandante

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O ex-polícia militar do Rio de Janeiro Élcio de Queiroz afirmou que a morte da vereadora Marielle Franco ocorreu “mediante pagamento”. No dia do crime, 14 de março de 2018, o motorista da vítima, Anderson Gomes, também foi assassinado.

“Foi mediante pagamento, sim”, declarou o ex-PM durante o depoimento à Justiça do Rio no passado dia 10.

Questionado novamente sobre se houve pagamento pelo crime, reforçou que sim. Alegou, no entanto, que não sabia quem era a vítima. “Eu estou falando, é isso aí, mediante pagamento, mas ele não falou que era a Marielle, falou que era uma mulher”, afirmou.

O delator do duplo assassinato também destacou o aumento patrimonial dos outros envolvidos no crime: o ex-bombeiro Maxwell Corrêa e Ronnie Lessa, apontado como o executor. Citou a compra de carros luxuosos e lanchas após o crime.

“Eles ostentavam padrão de vida de polícia ou ex-polícia ou ex-bombeiro além dos ganhos?”, perguntou a Promotoria. “Com certeza. Muito além”, respondeu Queiroz.

As declarações foram dadas durante a audiência de instrução do processo de julgamento de Maxwell Corrêa. O ex-bombeiro será ouvido no dia 1 de dezembro.

Veja mais destaques do que Élcio de Queiroz disse à Justiça:

Motivo e mandante

Perguntado sobre quem mandou matar Marielle e o motivo do crime, Élcio de Queiroz declarou ter ouvido de Ronnie Lessa que a questão com Marielle era “pessoal”.

“Você teve curiosidade de perguntar depois do crime o porquê?”, questionou a Promotoria.

“Esse detalhe, não. Ele só falou que a situação era pessoal. Maxwell nunca comentou comigo sobre isso”, respondeu.

Noutro momento do depoimento, o advogado de Maxwell Corrêa pergunta sobre Bernardo Mello, o “Macalé”, suspeito de ser o responsável por encomendar o assassinato. Ele foi executado em 2021 na Zona Oeste do Rio e o caso ainda continua aberto.

“Segundo o Ronnie, quem arrumou esse ‘trabalho’, esse homicídio mediante ‘paga’, foi o Macalé”, disse Queiroz. O advogado do ex-bombeiro, então, pergunta se ele pode falar mais.

A defesa do ex-policial, no entanto, interrompe e diz que essa parte está sob sigilo. “Precisamos perguntar ao Ministério Público porque essa parte guarda relação com anexo sigiloso”.

Rio de Janeiro, 2018. Protestos pelo assassínio no funeral de Marielle Franco.

Conforme a CNN já publicou, o caso Marielle agora tem dois eixos. A parte dos “executores” fica na justiça do Rio de Janeiro. E tudo relacionado aos “mandantes” passa tramitar no Superior Tribunal de Justiça (STJ), com investigação da Polícia Federal. Essa segunda parte, federalizada, apura possível ligação de autoridades fluminenses no caso.

Extorsão e propina

No depoimento, Élcio também afirmou que houve extorsão de policiais da Delegacia de Homicídios do Rio para Ronnie Lessa. Disse que não confiava na Polícia Civil do Rio de Janeiro e, por esse motivo, não fechou delação premiada antes.

“Se tratava da Polícia Federal e não da polícia do rio, que tinha várias suspeitas de tentativa de extorsão. E eu não confiava, sem generalizar, na DH [Delegacia de Homicídios]. Eu fui assistido por 7 delegados diferentes e eu senti [confiança] com a Polícia Federal”, declarou.

A CNN procurou a Polícia Civil do Rio de Janeiro e o Ministério Público do Rio de Janeiro, mas ainda não teve retorno.

 

Ronnie Lessa terá sido extorquido em um milhão de reais por polícias

Num depoimento prestado à Justiça do Rio de Janeiro na terça-feira da semana passada (11) e em sua delação premiada, o ex-policial militar Élcio Queiroz – que admitiu participação na morte da vereadora Marielle Franco (do PSOL) em 2018 – relatou que policiais da Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro teriam extorquido Ronnie Lessa, preso como autor do crime.

Terá sido cobrado um valor em torno de um milhão de reais [perto de 200 mil euros] de Lessa, que também é ex-policial militar, para que ele não fosse investigado pelo crime.

A cobrança teria partido de um policial civil conhecido como “Marquinhos”. De acordo com o Ministério Público, a informação pode abrir uma nova linha de investigação dentro da apuração sobre o caso Marielle.

A CNN procurou a Polícia Civil e aguarda retorno.

Num depoimento prestado na semana passada, Queiroz detalhou a participação do ex-bombeiro Maxwell Simões Corrêa – conhecido como Suel – na morte de Marielle e do motorista Anderson Gomes.

Suel foi preso em julho deste ano após a delação de Queiroz vir à tona, no mais significativo avanço do caso Marielle nos últimos anos – e que se deu após a entrada da Polícia Federal (PF) na investigação.

Élcio Queiroz acusou policiais civis de terem extorquido Lessa ao responder à pergunta da defesa de Suel sobre o porquê de, cinco anos depois do crime, ter decidido fechar uma delação premiada.

O ex-PM afirmou não confiar na Polícia Civil que, segundo ele, “estava o tempo todo negociando com Ronnie”.

Na sua resposta ele chegou a citar a morte do contraventor Haylton Escafura, ocorrida em 2017 dentro de um hotel de alto padrão na Barra da Tijuca, como exemplo de condutas equivocadas de policiais.

“Eu confio na Polícia Federal (PF) e no Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado)”, afirmou Queiroz ao justificar em público a opção pela colaboração premiada pela primeira vez.

Responsável pela primeira fase da investigação, o delegado Giniton Lages afirmou “não se surpreender” com uma acusação vinda de um miliciano. O policial citado por Queiroz estava na audiência, na 4ª Vara Criminal do Rio, mas o seu depoimento não foi tomado a pedido do Ministério Público e com a anuência das defesas e dos assistentes de acusação que participaram do caso.

Participantes na audiência relataram à CNN que o começo do julgamento do bombeiro Suel ficou marcado pelo depoimento enfático de Élcio Queiroz sobre o que consta em sua delação premiada. Na opinião dos ouvidos pela reportagem, está descartada qualquer hipótese de que a delação tenha sido feita sob coação e a fala do ex-PM “não deixou buracos”.

 

Metralhadora, placa picada, carro em desmanche: suspeito da morte de Marielle relata o crime

Por videoconferência, o ex-policial militar Elcio Vieira de Queiroz prestou depoimento na terça-feira (10). A oitiva aconteceu no âmbito do primeiro julgamento no processo que apura o envolvimento do ex-bombeiro Maxwell Simões Correa nos assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes aconteceu na terça-feira (10). A audiência ocorreu mais de cinco anos após o caso.

Maxwell participou de forma virtual, já que está detido num presídio federal em Brasília.

No seu depoimento, Queiroz relatou a dinâmica do assassinato, falando sobre as horas que antecederam a execução do crime.

Durante seu depoimento, Queiroz disse ter sido convidado por Ronnie Lessa — também ex-policial militar e principal suspeito das mortes — a dirigir um carro no dia 14 de março de 2018. O ex-PM disse que acredita que foi chamado por Lessa por “falta de confiança” em Maxwell para ser o motorista.

Depois, ele e Lessa se encontraram com Maxwell. Os dois entregaram os telemóveis para o ex-bombeiro e receberam o carro.

Durante o depoimento, Queiroz afirmou que os tiros que resultaram na morte da vereadora e do motorista Anderson foram disparados por Ronnie Lessa, que usou uma metralhadora.

Elcio Queiroz também citou no seu depoimento o que foi feito para se desfazerem do carro, além de esconderem vestígios do crime:

Trocaram as placas de matrícula do veículo e picara-nas, atirando os vestígios na linha férrea na zona norte do Rio.

O carro foi então entregue a um mecânico para que fosse feito o desmanche.

Viúva ouvida

Durante a audiência de terça-feira (10), a viúva de Marielle, Mônica Benício, também foi ouvida. Ela disse que não sabia que a esposa recebia ameaças por atuação política.

Já Ágatha Arnaus Reis, esposa de Anderson, contou que o marido estava a trabalhar com a vereadora havia dois meses e que nunca teve preocupação com segurança.

A terceira testemunha de acusação ouvida foi a assessora de Marielle, Fernanda Gonçalves, que estava no carro no momento da execução. Gonçalves também disse que a vereadora nunca mencionou ameaças ou disse estar preocupada com a segurança. Por causa do crime, a assessora teve de deixar o Rio de Janeiro e hoje mora noutro estado.

O próximo julgamento está marcado para o dia 1º de dezembro, às 13h. Segundo o despacho do juiz, o gabinete deverá providenciar uma conexão para participação de Maxwell e para a testemunha de defesa do ex-bombeiro: Ronnie Lessa. A CNN tenta estabelecer contacto com a defesa de Maxwell Simões.

Manifestação contra o assassinato da vereadora Marielle Franco em Lisboa, em 2018

 

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