Começou aos 13 anos com um "haxixe muito manhoso", aos 17 passou para as drogas duras: António, um dos poucos resistentes dos Narcóticos Anónimos - TVI

Começou aos 13 anos com um "haxixe muito manhoso", aos 17 passou para as drogas duras: António, um dos poucos resistentes dos Narcóticos Anónimos

Narcóticos Anónimos (Fotografia de Miguel Mateus/CNN)

É o coordenador da segunda reunião de Narcóticos Anónimos mais antiga do país e explicou como a doença começa, o processo de recuperação e o que se sente numa recaída. Diz que aos recém-chegados lembra sempre que "se morre de overdose, de desastres de carro ou na prisão mas que ninguém morre de ressaca"

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António (nome fictício), tem 54 anos anos e é o coordenador do grupo de Narcóticos Anónimos que se reúne na Calçada do Combro, em Lisboa, uma das reuniões de narcoadictos mais antigas em Portugal. Semanalmente, encontram-se, falam e entreajudam-se na recuperação da doença que é a adição. O responsável conta que participa em reuniões há mais de 30 anos e que já recaiu mais do que uma vez. Há 13 anos que está "limpo". 

A escassos metros do Bairro Alto, é aqui, na Calçada do Combro, que este grupo se reúne. (Fotografia de Miguel Mateus/CNN)

Qual foi a primeira experiência com drogas?

Foi com 13 anos, no liceu, eu e um amigo comprámos 200 escudos de um haxixe muito manhoso. Fomos para as aulas de manhã e escondemos aquilo debaixo de uma pedra da calçada. Dois dias depois, não aguentámos mais a curiosidade e fomos ver se ainda lá estava. Eram sete da manhã e estávamos os dois em jejum. Faltámos à primeira aula, fizemos uma pipa com a prata do maço de tabaco e fumámos aquela porcaria. Fumei e fumei e aquilo não estava a bater até que, de repente, comecei a ficar com umas tonturas enormes, acabei por ficar no pátio e já não fui à aula. Fui para a casa de banho da escola, fartei-me de vomitar bilis, adormeci no recreio da escola durante cerca de uma hora. Depois, acordaram-me, levantei-me e decidi ir para casa. Apanhei o elétrico e adormeci novamente. O elétrico deu umas três voltas ao itinerário comigo lá dentro. Acordei com uma senhora cabo-verdiana a pegar em mim e a levar-me para os bombeiros, porque estava paralisado da cintura para baixo. Tinha ficado completamente desidratado. Dos bombeiros, fui para o hospital e tive nos cuidados intensivos durante 24 horas. Uma pessoa normal, que tenha tido uma experiência destas com drogas, nunca mais toca numa droga, certo? Pronto, isto diz tudo do quanto eu sou adicto. Não tem a ver com a droga em si, não tem a ver com o comportamento em si, tem a ver com uma data de coisas.

Quando é que se pensa: serei adicto?

Comecei a usar drogas duras, por via injetável, aos 17. Aos 22, já estava numa reunião de Narcóticos Anónimos (NA). Na altura, consegui parar. Fiquei dois anos limpo. Depois, tive uma recaída. Fiz um tratamento, fiquei mais dois anos limpo. Tive mais uma recaída, voltei a fazer um tratamento. Depois, tive 12 anos limpo e tive uma recaída. Foi a minha última recaída. Agora, já estou limpo há 13 anos.

Como é ouvir-se: "Só não paras porque não queres"?

Toda a vida, quando usava, eu conseguia parar. As pessoas diziam: "Tu tens de parar". A minha mãe dizia-me em casa, e eu conseguia parar. Tanto que fiz muitas paragens, fiz muitas desintoxicações, era capaz. Tinha um uso que nem era muito continuado, agarrava no ordenado no início do mês e nos primeiros três ou quatro dias rebentava com o dinheiro todo. Ia ao dealer e gastava o meu ordenado todo em droga. Depois, fechava-me em casa durante outros três ou quatro dias e usava aquela droga toda. Posto isto, passava o resto do mês a ressacar e não usava mais até ao mês seguinte. A adição não se caracteriza por quantidade nem por periodicidade, a adição caracteriza-se por um ciclo comportamental e cada pessoa tem um ciclo comportamental diferente. 

Estive com um alcoólico em tratamento, o senhor já era mais velho, tinha 60 e tal anos. Era CEO de empresas, pai de família, avô e era alcoólico. Mas qual é que era o hábito de consumo dele? Apanhava uma bebedeira por ano. Estava numa seca o ano inteiro e quando chegava aquela semana entre o Natal e o Ano Novo, embebedava-se e punha a vida de pantanas. Estava uma semana a beber, ia preso, tinha desastres de carro, a mulher punha-o fora de casa, ia parar ao hospital, comas alcoólicos, enfim. O ciclo comportamental daquela pessoa era de 365 dias. É super difícil perceber que isto não tem a ver com quantidade nem com periodicidade, mas com um ciclo ou vários ciclos de comportamento. Eu paro, eu até consigo parar. A diferença é que conseguia parar, eu não conseguia era viver sem. Uma coisa é parar e outra coisa é viver sem. Viver sem é exatamente conseguir ultrapassar este ciclo comportamental sem recair. Começar a enfrentar as tuas obrigações, começares a lidar com a vida, tal como ela é, começar a lidar com responsabilidades, começar a lidar com as contrariedades, porque a vida também tem contrariedades. Sem ter que ir usar.

Ao longo dos primeiros meses e, depois, em anos simbólicos (regra-geral nos múltiplos de cinco) os membros que se mantêm em recuperação recebem medalhas ou porta-chaves. Um token simbólico que relembra cada adicto do esforço e de tudo o que conquistou. (Fotografia de Miguel Mateus/CNN)

Porque é tão difícil identificar que se tem uma adição?

O primeiro sintoma da adição é a negação. Se perguntares a um alcoólico ou a um adicto se é adicto, a primeira coisa que vão dizer é que não. Há uma negação do problema durante imenso tempo e depois leva a estados de sensação física e mental brutais. Ainda mais com o álcool do que com as drogas, porque o processo do álcool é mais lento. O álcool é uma droga, mas que é socialmente aceite. Portanto, as pessoas que têm problemas com álcool demoram muito tempo, primeiro até se aperceberem que têm um problema e depois até assumirem que precisam de ajuda para resolver esse problema.

É possível recuperar sem se bater "no fundo do poço"?

Infelizmente, esse é o ponto de partida para uma recuperação bem sucedida (bater no fundo do poço). É muito difícil. No grupo há uma miúda que chegou a uma reunião com 17 anos e conseguiu ficar, mas isso é raríssimo. A grande maioria dos casos de miúdos mais novos, que têm um problema com drogas, vão para as reuniões e normalmente não ficam, porque são muito novos, porque ainda acham que podem usar mais, porque acham que não têm um problema. Demora mais tempo até se aperceberem do problema. Quando digo que uma recuperação bem sucedida é uma recuperação de alguém que bateu realmente no fundo, é verdade. É preciso realmente perder tudo ou quase tudo para se reconhecer que se tem um problema, o que não acontece em muitos casos. Não há estatísticas oficiais, mas em cada dez estreantes em reuniões só dois efetivamente conseguem ficar em recuperação. É extremamente complicado recuperar e é extremamente difícil ser-se bem sucedido numa recuperação de drogas.

Sente que já "bateu no fundo"?

Faço reuniões há 30 anos e já vi muita gente passar. Pessoas do meu tempo contam-se pelos dedos: uns desistem, outros deixam de vir às reuniões, outros recaem, outros acabam por morrer, mas pessoas que ficam efetivamente em recuperação são muito poucas. Uma pessoa que não tenha consequências do seu uso, não vai parar de usar. Eu adoro drogas, adorava drogas, toda a vida adorei drogas e sempre usei e só parei quando comecei a ter consequências reais do uso de drogas. Enquanto tinha dinheiro, enquanto tinha droga, enquanto não tinha problemas de saúde, enquanto não comecei a ir parar aos hospitais, aos cuidados intensivos dos hospitais com overdoses, a acordar num calabouço da prisão, a roubar a casa toda dos meus pais e a ter consequências disso, eu não parei. Só parei quando comecei a ter consequências e esse é que é o lado mais drástico, catastrófico desta doença: é que o adicto só para quando começa a ter consequências reais. Por isso, é que é tão importante as famílias praticarem o tal amor firme, porque esse amor firme, na verdade, deixa de proteger o uso do adicto.

O que muda após a primeira reunião?

Quando se entra em recuperação, quando se entra numa reunião, passa-se a olhar para o problema de uma forma diferente, porque a recuperação, os 12 passos, o apadrinhamento, tudo aquilo que está à volta do programa dos NA, centra-se na solução do problema e não no problema. O adicto deixa de se preocupar com o problema para se preocupar com a solução do problema. Não és responsável pela doença que tens, é um problema que tens, mas não és responsável por ele. Mas és responsável pela recuperação da doença. A partir do momento em que tomas conhecimento, em que sabes que há uma saída, passas a ser responsável pela recuperação. O propósito das reuniões é um adicto ligar-se aos outros através da identificação e perceber que só através dos outros consegue vencer a doença da adição, porque sozinhos não conseguimos. As reuniões têm muito mais poder do que nós e acaba por ser a consciência do grupo o que te salva da adição.

Como são os primeiros dias de abstinência?

É extremamente difícil vencer uma dependência física de qualquer substância em que houve uma dependência continuada durante anos. Uma coisa é certa, nunca ninguém morreu de ressaca. É uma coisa que dizemos a quem chega: morre-se do consumo, morre-se de overdose, morre-se de desastres de carro, morre-se na prisão, mas ninguém morre de ressaca. A ressaca de não consumir é uma coisa que se trata em 15 dias, isso é o mais fácil. A única coisa que nós prometemos a quem chega é que a compulsão para usar passa e passa de facto. Quem se mantiver ali, quem fizer as reuniões, quem conseguir seguir minimamente aquilo que é sugerido, a compulsão para beber e para usar acaba por passar. Mas leva tempo, varia de caso para caso, são meses ou um ano até acabar por passar. Quando se entra em recuperação há uma mudança gigantesca. Tem de haver uma mudança enorme da maneira de estar, das crenças, até do vocabulário e da postura. Fingir para acreditar, no início não acreditas que aquilo vai funcionar, mas tens de fingir para acreditar e de tanto fingires aquilo vai entrando.

A porta de entrada da sala de reuniões da Calçada do Combro, em Lisboa. (Fotografia de Miguel Mateus/CNN)

Como é estar em recuperação? O excesso de confiança pode levar a tentativas de autocontrolo falhadas?

Acontece muito e é perigosíssimo. São tentativas de controlo. Eu próprio, a minha última recaída depois de 12 anos limpo, foi uma tentativa de autocontrolo. Foi exatamente isso e até correu bem. Eu tive três anos afastado, a usar. Os primeiros dois anos foram tranquilos, porque tudo me corria bem: tinha dinheiro, o trabalho estava a correr bem, estava numa relação, não tinha problemas e eu próprio me espantei. Quando começaram a aparecer os problemas decorrentes da vida normal, comecei a ter mais chatices no trabalho, de repente a minha sociedade acabou, comecei a ter menos trabalho e mais dívidas; com o aparecimento dos problemas decorrentes da vida normal, o meu uso também aumentou. Foi isso que aconteceu e o último ano foi outra vez dramático. Acabei o último ano com aquela confusão toda, todo lixado, emocionalmente destruído com a agravante que já tinha consciência do problema. Olhava para o espelho e pensava: eu já não sou esta pessoa, por muito que eu queira, já não sou esta pessoa. Portanto, vou ter de voltar outra vez para onde estava e recomeçar tudo do zero outra vez. Uma grande frustração, com uma grande vergonha, mas a verdade é que isso aconteceu-me sempre que me afastei das reuniões e, como acontece com todas as pessoas que se afastam, fui sempre recebido novamente de braços abertos e sem julgamentos. O amor incondicional com que és recebido e que permite um ensinamento de vida muito grande. Achava que estava diferente: consigo ir ao Lux (discoteca em Lisboa) só beber um copo de vodca e vir para casa, já não bebo a garrafa toda. A recuperação não é constante, isto não é sempre a subir. As coisas andam para a frente, depois andam para trás, depois andam para o lado, é preciso estar vigilante. Estar atento para se poder ir lidando com a doença, connosco próprios e com a recuperação, sem ter que ir usar.

Há algum gatilho que possa provocar uma recaída?

Tudo pode ser e tudo podia ser um gatilho. Se ficar sozinho com a minha cabeça, naturalmente vou usar. Já passei por isto, sei muito bem o que isto é. Se deixar de fazer reuniões e quanto mais tempo passar sem reuniões, mais começo a acreditar que não preciso de ir às reuniões. Há um processo de negação que entra em curso, a tal negação. Esse processo de negação vai-me dizendo cada vez mais que não tenho problema nenhum e que se calhar até posso beber um copo. Quanto mais longe eu estiver de mim próprio, quanto mais longe eu estiver do meu grupo, quanto mais longe estiver do meu programa de recuperação, mais eu acho que não preciso daquilo e mais perto eu estou de ir beber um copo ou de ir usar uma droga.

À disposição dos adictos e livre de qualquer custo existem folhetos informativos que podem auxiliar os membros em cada fase da recuperação. (Fotografia de Miguel Mateus/CNN)

O que sente e pensa no pós-recaída?

Que tinha acabado de perder aquilo que tinha ido à procura quando decidi voltar a usar. Não sei se isto faz algum sentido, ou seja, a maior mais-valia da recuperação para mim é a expansão da minha consciência, daquilo que eu sou, das minhas limitações e do quanto eu ainda preciso de recuperar, porque esta doença da adição é devastadora. É devastadora ao nível das relações, ao nível pessoal. É uma vida inteira destruída mesmo que não vás usar, porque a doença da adição é muito mais tentacular do que o uso de drogas. O uso de drogas é só um reflexo, é só um sintoma da doença. Há as pessoas que comem, há adição a sexo, há a adição ao jogo, há a adição ao trabalho, há a adição a pessoas, a drogas, há 500 mil adições e isso são tudo manifestações da doença que é a mesma. 

A recaída é inevitável?

Ninguém precisa de recair, porque podes não voltar de uma recaída, mas a recaída faz parte do processo e eu precisei de ir recair para perceber que isto é a coisa mais importante que eu tenho na minha vida: a recuperação. Porque se eu não estiver em recuperação, não consigo fazer mais nada. A recuperação é a base da minha vida. E, se calhar, passei uma vida inteira, porque fui muito novo para as reuniões, a saber que não podia usar e, por isso, é que frequentava reuniões. Queria casar, queria ter uma carreira profissional, queria ter filhos, queria ser um membro funcional e aceitável da sociedade, para isso sabia que não podia usar. Mas, durante muito tempo, não percebi que isto é um modo de vida em si e não um meio para atingir um fim e passei muito tempo a usar a minha recuperação como um meio para atingir um fim. Só que cada vez que atingia esse fim, cada vez que arranjava um trabalho, cada vez que atingia um objetivo acabava por ir usar, porque não tinha consciência da globalidade do problema. Acho que o meu tempo, o meu despertar espiritual que é o que a gente lhe costuma chamar, só chegou há 14 anos, quando percebi que isto é um modo de vida e que não só um meio para atingir um fim. Por isso é que é tão difícil de recuperar para muita gente, porque é difícil baixar os braços, é difícil perceber que se tem um problema e que é crónico e que precisa de uma atenção continuada. Por isso é que fazemos reuniões todas as semanas e é por isso que se tem uma série de cuidados em relação a isto, porque tem de ser continuado.

Em recuperação, o álcool é aceite? Pode beber-se, por exemplo, um copo de vinho ao jantar?

Vinho para mim é veneno. Hoje em dia, olho para uma garrafa de vinho e vejo uma garrafa de veneno. Percebo as pessoas que gostam, adoro vinho, adorava poder beber um copo de vinho tinto, porque gosto. Eu gosto de vinho, aliás como gosto de droga, que não seja mal interpretado, agora aquilo é veneno para mim. Já tenho muito a perder. Nunca vai ser só um copo. Um é demasiado e mil nunca são suficientes, não é? Nunca vai ser só um, o álcool é uma droga. Por isso é que o tempo de limpeza é tão importante. Costumo dizer que já não me posso dar ao luxo de recair, porque já não tenho tempo útil de vida para conseguir alcançar aquilo que quero alcançar em termos pessoais, em termos de crescimento pessoal, em termos de maturidade, em termos de perdão, paz interior. Eu não posso ir usar, porquê? Porque este crescimento da consciência é extremamente lento e não é a direito, há idas e vindas. Ir usar seria estar a fechar essa porta, outra vez.

A terapia de grupo é vista como benéfica no tratamento de uma adição. Já tendo estado sob internamento clínico e neste método, porque existe esta ideia?

Tem uma explicação, este processo tem muitas condicionantes e as pessoas teriam de perceber um bocadinho mais o quão é difícil o tratamento desta doença, é difícil alguém de fora perceber a natureza desta doença. É por isso que este método é tão eficaz. A ajuda de um adicto a outro é terapêutico, a recuperação entre adictos, entre alcoólicos, entre pessoas que têm problema de adição e é por isso que as reuniões são tão eficazes e acabam por ajudar tanta gente. Este programa dos 12 passos está muito bem feito, muitíssimo bem feito, porque é altamente sustentado na ajuda de um adicto a outro.

Narcóticos Anónimos regem-se por este programa de 12 passos. (Fotografia de Miguel Mateus/CNN)

Qual é o papel da família na recuperação?

O papel da família é fundamental, porque a família também está doente. A droga e o álcool estão para o adicto como o próprio adicto está para a família. O adicto passa a ser a preocupação central da família e muitas vezes veem-se as mulheres, as namoradas, as mães, os pais a ficarem obcecados com o problema do adicto e a viverem para este problema, o que leva a que haja uma disfuncionalidade cada vez maior nas relações familiares e haja uma falência enorme de tudo aquilo que é necessário para que existam relações saudáveis. A família acima de tudo tem de entrar em contacto com o problema e tomar conhecimento. Depois, muitas vezes precisa de uma coisa, que se apregoa muito nas reuniões das Famílias Anónimas, que é o amor firme. Ou seja, se eu gosto do meu marido, se eu gosto do meu namorado, se eu gosto do meu filho, eu vou ter de lhe fechar a porta. Vou ter de parar de alimentar a adição, vou ter de parar de prover meios para que possa continuar a drogar-se e a beber e a fazer tudo aquilo que ele faz. Isto, uma coisa que é extremamente dura para as famílias, às vezes, é praticar este amor firme, mas, é fundamental, o apoio da família é muito importante na recuperação do adicto.

Porque é tão difícil superar uma adição a drogas?

A doença da adição tem de se atacar nas cinco áreas que atacam o adicto: física, emocional, mental, espiritual, familiar e social. Tem de se atacar estas vertentes, em todas as frentes e em simultâneo. Para dar um exemplo, um adicto quando entra em recuperação tem de deixar um bocado o meio onde vive. As pessoas com quem se relaciona, não pode continuar a frequentar bares e locais de uso, tem de abandonar companhias que não são boas para ele, tem que começar a substituir velhas maneiras de pensar por coisas novas, que sejam mais saudáveis. Muitas vezes o adicto também tem de sair do seio familiar, porque é comum a família continuar a alimentar a doença. Não é por maldade de todo, é muito por ignorância.

Durante as reuniões, membros sentam-se lado a lado ao redor de mesas dispostas em circulo. (Fotografia de Miguel Mateus/CNN)

Uma adição pode ser prevenida ou perante determinadas condições qual pessoa está suscetível?

Ninguém está livre de desenvolver uma adição e há pessoas que desenvolvem adições aos 12 anos, como há pessoas que desenvolvem adições aos 50 e aos 60. Conheço casos de pessoas que passaram a vida toda a ter uma vida normalíssima e que de repente aos 50 ou aos 60 anos resolveram experimentar determinada droga e daí desenvolveram uma adição, é impossível de prever. A minha experiência diz-me isso, que na verdade não há como prevenir. Isso também é um lado mais drástico desta situação. É evidente que se uma pessoa com potencial de adição nascer no seio de uma família saudável e tiver um percurso de crescimento minimamente saudável, minimamente estruturado, é mais difícil desenvolver uma adição, mas isso também não está provado. Há muitos fatores: o meio, as circunstâncias em que se vive, a forma como se foi educado, a composição genética, a apetência e sensibilidade para o álcool e drogas. Todas estas áreas têm uma palavra a dizer na possibilidade do desenvolvimento dessa doença. Dou-te um exemplo: posso dizer que venho de uma família disfuncional, mas somos três irmãos, dois são adictos e um não é. Vivemos exatamente na mesma casa, tivemos a mesma educação, recebemos os mesmos valores, passámos pelas mesmas coisas e um nunca tocou numa droga. A doença da adição não é determinada por traços comuns, por isso é que também é tão difícil de detetar e de tratar, porque de facto tem muitas condicionantes e nuances.

Ainda existe preconceito?

Há um estigma, há um preconceito e isso advém de uma sociedade que é preconceituosa per si e ainda com uma grande ignorância em relação a este problema. Também por isso é que existe o anonimato, que não tem só a ver com isso, mas é um modo de nos protegermos dessa ignorância e desse preconceito. Uma vez tive um chefe que me disse: "Tu não progrides, porque toda a gente sabe que tiveste problemas com drogas" e eu já não tocava numa droga há 15 anos. Há um preconceito, potenciado ainda mais nos meios pequenos.

O último a sair fecha a porta e, no Combro, é sempre António a fechá-la. (Fotografia de Miguel Mateus/CNN)

Se precisar de contactar os NA, dispõe do número 219 477 970, podendo também aceder ao site www.https://na-pt.org/ 

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