Maria Olímpia Especiosa é um caso de vocação que se concretizou de forma tardia. Tem 44 anos, é licenciada há mais de 20, mas só começou a dar aulas há dois anos. Porque gosta. Por verdadeiro amor ao ensino. Desde menina que queria ser professora.

“Por isso é que me licenciei em 1999. Mas na altura não havia colocação e a vida tomou outro rumo. Tive um negócio próprio. Mas resolvi regressar, porque era mesmo um sonho de criança”, confessa a docente, que está a dar aulas pelo segundo ano consecutivo, em conversa com a CNN Portugal.

Maria Olímpia diz que adora o que faz. Fala da emoção que sente todos os dias, quando abre a porta da sala de aula e vê os rostos dos alunos ávidos de conhecimento. Mas confessa-se desiludida e cansada.

Neste segundo ano a dar aulas, ficou colocada logo a 1 de setembro, com horário completo, até final do ano. Mas, para isso, teve de deixar a família a mais de 500 quilómetros de distância, em Bragança, e ir para Sintra. E aí começa o primeiro revés.

“Só há vagas para professores em Lisboa e no Algarve. Eu, sendo do Norte, vou estar a minha vida toda deslocada. Não sei quando vou ter segurança financeira. Ganho pouco mais de mil euros por mês. Gasto tudo para vir trabalhar”, admite.

E só vai a Bragança, onde se mantém o marido, de três em três semanas. O dinheiro não dá para mais. Sente-se sozinha, deslocada, desacompanhada: “É uma vida adiada. Não sei onde vou estar para o ano.”

“Ninguém é nada sem passar por nós”

Maria Olímpia admite que só consegue esta ginástica familiar, emocional e financeira porque não tem filhos. “Se tivesse, não era capaz. Deixá-los não conseguia e trazê-los, sem qualquer suporte familiar, seria impossível”, assegura.

É que o trabalho da professora de Português não fica na escola. Todos os dias traz trabalho para casa. Além da preparação diária das aulas, periodicamente, tem 140 testes ou trabalhos para corrigir. Não há fim de semana que se desloque a Trás-os-Montes que consiga aproveitar integralmente em família. Há sempre uma burocracia para preencher, uma reunião para preparar, uma classificação para atribuir.

“No Natal fui para cima. Mas levei trabalho para casa para fazer”, exemplifica.

E prossegue o desabafo, com desilusão estampada na voz: “Os professores vivem em constante pressão. Não temos autonomia, não temos autoridade, somos mal pagos.”

“Sinto um desrespeito muito grande por nós, por uma profissão base da sociedade. Ninguém é nada sem passar por nós. Nenhum médico, nenhum juiz, nenhum jornalista se tornam profissionais sem a nossa contribuição… todos passam por nós”, argumenta.

Por tudo isto, Maria Olímpia está convencida que “quem vier de novo para esta profissão vem enganado, porque não tem noção de como estão as coisas”.

“Ninguém quer ser professor”

Todos os dias, Olímpia trabalha com jovens de 15 e 16 anos. Dá aulas de Português a alunos entre o sétimo e nono anos. E vê nos seus alunos o mesmo desalento que lhe vai na alma e a prova de que o problema na educação é muito mais profundo.

“Já perguntei várias vezes se algum quer ser professor. Ninguém quer. Riem-se, gozam e brincam com isso. Eles também não gostam da escola. Há exceções. Em 140 alunos que tenho, cinco ou seis gostarão da escola e de aprender. O resto não. Se formos colocar as coisas em percentagens, mais de 95% dos alunos não gostam da escola”, lamenta.

Maria Olímpia assegura que a esmagadora maioria dos seus alunos também não gosta da escola enquanto instituição

Se a professora Maria Olímpia está a entrar na profissão, a professora Emília está de saída. Também ela identifica o mesmo desapontamento nos seus alunos e o mesmo descrédito com que os jovens encaram a profissão de professor. “É um em mil. Ao longo destes últimos anos, tive uns três alunos que me disseram que queriam ser professores. A profissão não está bem vista. Eu própria, quando alguém me diz ‘quero ser professor’, eu pergunto ‘pensaste bem?’”, admite Emília Paco, 66 anos, reformada desde 1 de dezembro.

“Em paz com a profissão”

À semelhança de Maria Olímpia, também Emília Paco sempre desejou ser professora. As brincadeiras de menina consistiam em dar aulas às bonecas ou a amigos imaginários.

“Esta foi a profissão que sempre desejei ter. Desde pequenina. Dava aulas aos bonecos e depois passei para as pessoas. Tive a hipótese de ir trabalhar para uma empresa e disse sempre que não”, revela.

Emília ainda está na fase de adaptação à inércia da reforma. Está há menos de um mês em casa e ainda não desligou por completo. E acha quem nem o fará tão depressa: “Há ali um aluno ou outro que vou querer acompanhar, porque sinto que posso fazer a diferença.”

Diz que sai com um misto de sentimentos. “Estou em paz com a profissão, embora sinta que esta profissão está a ser muito maltratada e muito desrespeitada. E nem sequer é pelos pais e pelos alunos. É pelo próprio Ministério. É pelo Governo! Devíamos estar mais orientados para a pesquisa e para as aulas e inundam-nos de trabalho burocrático”, lamenta.

É nas mais altas instâncias que Emília Paco vê a maior desvalorização da profissão. E isso inclui a progressão na carreira ou a ausência dela. “Eu, felizmente, já estava no 10.º escalão. Mas tenho colegas com 58 anos, que ainda estão no 5.º escalão. E depois obrigam as pessoas a estarem quatro anos em cada escalão, depois têm excelente nas avaliações a que são sujeitos, mas não podem passar de escalão, porque há quotas.”

Os colegas de Emília Paco que, perto dos 60 anos, ainda estão no 5.º escalão estão a meio da carreira. Ganham, líquidos, cerca de 1400 euros mensais, dependendo da sua situação fiscal. Nunca chegarão ao topo da carreira docente.

“Na pandemia, se pudesse, tinha-me reformado”

A professora Emília sai “em paz”, mas confessa o mesmo desalento que atormenta a iniciante Olímpia. Deu aulas de Alemão e Inglês durante 43 anos. Tem consciência que o facto de dar uma língua estrangeira lhe facilitou a vida. É mais fácil encontrar estratégias para motivar os alunos.

Mas, mesmo assim, acusa o “desgaste muito grande”. “É mais exigente, porque temos de ter em atenção que os alunos têm outros interesses e há outras coisas que os atraem sem ser o professor que está ali à sua frente a debitar matéria. Os alunos agora vivem noutro mundo e é necessário um esforço muito grande da nossa parte para chegarmos até eles. E, além disso, quando eu comecei, os professores eram mais respeitados e os pais olhavam para o professor como alguém que estava ali para ajudar os filhos e a orientá-los para um futuro melhor. Nos últimos anos, noto que o professor está ali para fazer aquilo que os pais acham que deve ser feito”, lamenta.

Emília Paco diz que a ausência física dos alunos durante a pandemia lhe fez sentir vontade de se reformar mais cedo 

Por tudo isso, Emília, que ainda não se sente reformada, garante que se teria reformado mais cedo, se lho tivessem permitido. “Se eu pudesse, depois do primeiro ano da pandemia, tinha-me reformado logo. As aulas online foram muito desgastantes. Faltava-me o contacto com os alunos. E, depois, quando regressámos, falava com os alunos e eles também me diziam que não era a mesma coisa”, justifica.

São mais os que partem do que aqueles que chegam

Emília e Olímpia são dois exemplos de quem está de partida e de quem está a entrar na profissão docente. Uma equação que dificilmente será equilibrada nos próximos anos. O corpo docente em Portugal está cada vez mais envelhecido e, a avaliar pelos exemplos destas duas professoras, os mais novos não querem ser professores.

O número de professores que se reforma mensalmente em Portugal não para de bater recordes. De acordo com dados tornados públicos pela Caixa Geral de Aposentações (CGA), em dezembro reformaram-se cerca de 300 docentes. Em outubro foram 280. Em setembro 257.

E a situação só tende a piorar: em 2023 é esperado que passem à reforma 3.500 professores e educadores de infância. Só em janeiro devem deixar as escolas 265 professores e 24 educadores de infância. É preciso recuar a 2013 para encontrar números tão altos de professores a deixar a profissão por reforma.

“Assobiar para o lado”

Um estudo da Universidade Nova e do Conselho Nacional de Educação aponta para que, até 2030, se reformem entre 49 mil e 52 mil professores. “São números assustadores, sobretudo se pensarmos que temos cerca de 38 mil docentes que concorreram no último concurso externo e, desses, apenas 2700 têm menos de 30 anos”, alerta João Pereira, da Fenprof.

O dirigente sindical diz que muitos professores que se licenciam aos 22 ou 23 anos acabam por não ficar na profissão: “Isto não é nada atrativo. Muito dificilmente um jovem hoje vai para a Educação.”

“Entre 10 a 12 mil professores abandonaram a profissão e seguiram outros caminhos. Era muito importante conseguir recuperá-los, mas será muito difícil com este nível de instabilidade”, sublinha João Pereira.

E, mesmo que todos os que se licenciam ficassem a dar aulas, não seriam suficientes para colmatar as falhas que já se sente e se preveem que se venham a acentuar. A média de idades dos docentes que vinculam está nos 45 anos, com 16 anos de serviço, e há mesmo grupos disciplinares onde a média de idades dos professores que vinculam atinge os 55 anos.

“A maior parte das aposentações vai acontecer a partir de 2025. Se nada for feito para combater o envelhecimento do pessoal docente, esses 38 mil professores que temos a contrato não serão suficientes. O Ministério tem estes números. Sabe quem são os professores que se formam e quem são os que saem. Mas continuam a assobiar para o lado e nada fazem”, denuncia o dirigente sindical.

Maria Olímpia não sabe se não irá voltar a abandonar a profissão. Talvez volte a abrir o seu restaurante e regresse para junto da família em Trás-os-Montes. Confessa que, neste momento, tem muita vontade de desistir. Se o fizer, não acredita que regresse.

Manuela Micael