Um filho que adoece, a renda da casa que fica mais cara, idas ao supermercado que obrigam a contas atrás de contas, taxas de juro que não param de subir, uma excessiva carga de trabalho com prazos cada vez mais curtos, uma correria constante contra o tempo. O stress é o ‘companheiro’ dos tempos modernos e não escolhe idades, empregos, estatutos sociais e géneros. Mas homens e mulheres têm reações e respostas diferentes.

Para Maria Moreno, psiquiatra na Fisiogaspar, há “algumas diferenças na forma como homens e mulheres vão reagir ao stress”, embora essas mesmas diferenças não sejam “universais” a cada género e variem, na verdade, de indivíduo para indivíduo, consoante os gatilhos e o meio-envolvente, fatores por si só, nem sempre controláveis.

Rita Fonseca e Costa, psicóloga no Hospital Lusíadas Lisboa, destaca os dados da Associação Americana de Psicologia que dão conta de que “as mulheres, efetivamente, relatam níveis de stress mais elevados que os homens”, mas tal não quer dizer que esse stress sentido seja mais prolongado no tempo e com maiores consequências para o bem-estar físico e emocional. A título de exemplo, o stress causa batimentos cardíacos mais acelerados nas mulheres, mas pode desencadear mais facilmente problemas de saúde cardíacos ao homem.

“Relativamente aos estudos feitos, é transversal neste tema a identificação de diferenças, mas existe uma grande discussão, pois alguns mostram diferenças significativas entre homens e mulheres, mas outros põem em causa as diferenças encontradas”, refere Maria Moreno, explicando que tal deve-se ao facto de o stress ter implicações aos mais variados níveis, assim como são variados os fatores que o podem desencadear, tornando, por isso, difícil quantificar taxativamente que as mulheres são mais stressadas do que os homens, embora estejam, efetivamente, numa posição menos favorável. 

A psiquiatra explica que as diferenças estudadas pela ciência dizem respeito às respostas fisiológicas, aos diferentes comportamentos de resposta, às emoções e estilo de coping usados para fazer frente ao stress e às doenças que podem surgir. Mas vamos por partes.

Enquanto as mulheres exteriorizam mais o stress através de emoções, “os homens têm uma maneira mais agressiva e competitiva de lidar com o stress, usam mecanismos de coping mais verbais e menos ativos, usam o trabalho e o exercício, por exemplo”, diz a psiquiatra Maria Moreno. (Pexels)

Diferentes respostas biológicas

Quanto às respostas fisiológicas, “homens e mulheres tendencialmente têm respostas dos diferentes sistemas do corpo humano e hormonas”, sendo que “as mulheres têm uma resposta maior do sistema cardiovascular, mas os homens são mais sensíveis ao efeito do stress no sistema cardiovascular”, exemplifica Maria Moreno. Além de que, continua, nas mulheres, “o stress tem mais efeito no sistema nervoso central, há mais alteração dos níveis de cortisol, mas o aumento é mais rápido nos homens”.

Um estudo publicado em 2019 na revista científica Neurobiology of Stress revela que são já várias as “evidências emergentes” que “sugerem diferenças” entre homem e mulher na “resposta a diferentes tipos de exposição ao stress”, uma vez que “a ativação induzida pelo stress do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal [HPA] varia entre os sexos”, com as mulheres a apresentarem uma maior propensão para “exibir efeitos adversos”, bem como “distintos de atividade neuronal induzida pelo stress”. 

Um dos motivos para esta diferença pode estar, diz o mesmo estudo, nas hormonas sexuais, como nos disse Maria Moreno. Mas o meio envolvente também não pode ser ignorado, sobretudo pela ainda existe acomulação de tarefas domésticas por parte da mulher, como vamos ver mais à frente. 

As diferenças biológicas entre os sexos e a diversidade sociocultural de género influenciam a reatividade endócrina ao stress em humanos e as interações entre o eixo HPA e as hormonas sexuais (por exemplo, testosterona, estrogénio) podem influenciar as diferenças biológicas entre os sexos nos padrões de resposta ao stress”, escreve o estudo.

Também publicado na Neurobiology of Stress, e igualmente em 2019, um outro estudo levanta o véu sobre as diferenças neurais que podem estar na origem desta discrepância entre os dois géneros, embora os investigadores deixem claro que mais estudos são necessários para compreender a descoberta. A investigação, levada a cabo pela Escola de Medicina de Yale, nos Estados Unidos, diz que ficou demonstrado “que as respostas emocionais ao stress, abrangendo tanto a reatividade quanto a regulação do stress, diferem entre homens e mulheres, mas as redes neurais que apoiam esses processos permanecem obscuras”, embora os homens mostrem “maiores respostas ao stress nas regiões do córtex pré-frontal, enquanto as mulheres tiveram respostas mais fortes nas regiões límbicas/estriatal”.

Parte das diferenças entre homens e mulheres acontece porque “as áreas límbicas das mulheres que ajudam a controlar as emoções e as memórias são mais ativas, fazendo com que se lembrem mais prontamente de momentos negativos”, deixando-as, por isso, mais suscetíveis ao stress, mas também à tristeza e ansiedade, explica a psicóloga Rita Fonseca e Costa.

As partes do cérebro masculino mais ativos, são as que estão mais orientadas para a ação e planeamento. Enquanto o cérebro feminino, as áreas mais ativas, são as que implica processar cognitivamente e emocionalmente a experiência”, afirma a psicóloga.

De acordo com Maria Moreno, há ainda “diferença na atividade do sistema nervoso simpático e parassimpático” perante o stress. “O sistema simpático é responsável pela resposta de luta e fuga, o parassimpático é o responsável por ajudar o corpo a recuperar após a situação de stress”, sendo que, “as mulheres têm uma resposta mais pronta no sistema nervoso simpático e nele é mais pronunciado na resposta do sistema nervoso parassimpático”.

Além destas diferenças a nível cerebral, continua a psicóloga, “o papel que as mulheres e os homens desempenham no seio da família e da parentalidade, continua a ser diferente, o que faz com que [a mulher] tenha múltiplas exigências em relação ao bem-estar do agregado familiar a que se juntam as profissionais, o foco é mais difuso, o que diminui a perceção  de controlo, levando mais facilmente a níveis de stress”.

A mesma necessidade de reagir, mas de formas distintas

Já no que diz respeito ao comportamentos, emoções e estilos de coping usados em reação ao stress e para fazer frente ao mesmo, há também diferenças entre géneros - até porque, dizem as especialistas, os homens tendem a demorar mais a procurar ajuda quando o stress assume o controlo.

Maria Moreno destaca  que “os estudos descrevem que as mulheres são mais propensas a subestimar a capacidade de lidar com stress numa situação menos boa, enquanto os homens superestimam”. E perante o stress, tanto o homem como a mulher desenvolvem também diferentes tipos de emoções e reações: elas tendem a desenvolver emoções “mais negativas, como tristeza e ansiedade e expressam-nas mais abertamente”, já. os homens “vão experimentar emoções ligeiramente diferentes, menos ansiedade e menos tristeza, mas mais raiva e irritação, tendem a reprimir e a negar estas emoções negativas”, adianta a psiquiatra.

“Quando olhamos para as mulheres e para as estratégias que usam para lidar com o stress, elas exteriorizam mais e gerem de uma forma mais cooperativa, evitam confronto e procuram o apoio social e algum tipo de tratamento mais frequentemente do que os homens. Eles têm uma maneira mais agressiva e competitiva de lidar com o stress, usam mecanismos de coping mais verbais e menos ativos, usam o trabalho e o exercício, por exemplo, e vão usar alguns comportamento de escape e fuga, como fumar e beber em excesso. Isto é mais comum entre homens e mulheres”, esclarece Maria Moreno.

Este tipo de análise que coloca a mulher e o homem num frente a frente não é, porém, de agora, nem mesmo quando parte da análise se foca na parte da reação, no efeito que o stress tem na mente e no comportamento. 

Já em 2003, uma publicação feita na revista científica brasileira da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Psicologia: Reflexão e Crítica, dava conta de que as mulheres apresentam um “maior nível de stress em todos”, sendo que “a sintomatologia apresentada foi predominantemente psicológica e os sintomas mais prevalentes foram sensibilidade emotiva excessiva, para as mulheres e, para os homens, pensamento recorrente”.

Na mulher, o stress tem uma forte influência hormonal e social, como o ter de cuidar da casa. Já nos homens, os gatilhos são mais circunstanciais, pois eles respondem mais ao stress no trabalho, ao divórcio, à perda de emprego, por exemplo. (Pexels)

Saúde à mercê, mas em graus diferentes

Há um outro fator que separa o homem da mulher quanto o tema é o stress: a saúde, mais concretamente, o impacto do stress na mesma. Ambos sofrem por tabela, mas de forma diferente e com consequências também diferentes.

Após levarem a cabo uma série de testes, os cientistas Universidade do Sul da Califórnia (USC), nos Estados Unidos, “descobriram que as moscas-da-fruta fêmeas eram mais capazes de responder ao stress causado por um oxidante comum, o peróxido de hidrogénio (produzido naturalmente no corpo para sinalização celular e para combater infecções) do que os machos”, e elevados níveis deste oxidante têm implicações diretas em algumas doenças, como Parkinson e Alzheimer, o que leva a crer que os homens podem ser mais suscetíveis a estas doenças.

Maria Moreno volta a destacar a falta de consenso científico quanto às doenças causadas pelo stress e às diferenças entre homens e mulheres nesse aspeto. “As informações são muito contraditórias”, lamenta, mas do que se sabe, diz, crê-se que “as mulheres são mais propensas a desenvolver doenças autoimunes secundárias ao stress, como diabetes, e doenças gastrointestinais, como a Síndrome do Intestino Irritável  e Doença Intestinal Inflamatória”, enquanto “os homens são mais propensos ao desenvolvimento doença cardíaca secundária ao stress, como enfarte e doença coronária”.

Nas doenças mentais, adianta a psicóloga Rita Fonseca e Costa, “as mulheres efetivamente relatam níveis de stress mais elevados que os homens e, por vezes, ainda mais sintomas físicos e emocionais relacionados com o stress, como dores de cabeça, dores de estômago, fadiga, irritabilidade e tristeza. As mulheres são mais propensas a problemas de saúde mental induzidos pelo stress, como ansiedade e depressão”.

Mas “dentro da própria doença mental, esclarece Maria Moreno, “a doença mental vai ter características distintas entre homem e mulher nos diferentes sintomas que existem, tem uma prevalência diferente entre homens e mulher”. 

Os sintomas emocionais são mais comuns na mulher, como o medo e tristeza, mas intensos e prolongados. Já sintomas comportamentais, como agitação e irritação e sintomas físicos, como taquicardia, são mais comuns nos homens”, frisa a psiquiatra.

Andamos todos stressados, é um facto, mas os motivos não são sempre os mesmos

As mulheres são duas vezes mais propensas a sofrer de stress e ansiedade severos do que os homens, de acordo com um estudo de 2016 publicado no The Journal of Brain & Behavior. O tema mereceu atenção por parte do The New York Times, sobretudo pelo impacto da vida quotidiana no homem e na mulher e as diferenças dessa mesma vida quotidiana em ambos os géneros.

A título de exemplo, o jornal norte-americano fala de um estudo da Nova Southeastern University Florida, uma universidade privada norte-americana, que descobriu que as gerentes do sexo feminino eram mais propensas do que os gerentes do sexo masculino a exibir aquilo a que o estudo chamou “atuação superficial”, isto é, o forçar emoções que não são totalmente sentidas - o comum sorriso forçado, por exemplo. “A atuação superficial é um excelente exemplo de ‘trabalho emocional’, um conceito que a escritora Jess Zimmerman tornou familiar num ensaio de 2015 para The Toast”, escreve o jornal, explicando que “o trabalho emocional pode levar à insónia e a conflitos familiares, de acordo com um estudo publicado na revista Personnel Psychology”.

Porém, apesar de as mulheres serem também mais propensas ao stress causado pela atuação superficial, são elas também que se mostram mais capazes de controlar o stress e de geri-lo, segundo a Associação Americana de Psicologia. Em 2010, o organismo relatou ainda que, no que diz respeito aos gatilhos, “as mulheres são mais propensas a relatar que o dinheiro (79% em comparação com 73% dos homens) e a economia (68% em comparação com 61% dos homens) são fontes de stress, enquanto os homens são muito mais propensos a citar que o trabalho é uma fonte de stress (76% em comparação com 65% das mulheres)”.

Já este ano, o cenário americano é outro e há três fatores que não olham a género, sendo um deles bem atual: a inflação. “A inflação foi relatada como uma fonte de stress para a grande maioria dos adultos (83%), e a maioria de todos os adultos também disse que a economia (69%) e o dinheiro (66%) são uma fonte significativa de stress”, lê-se no site do organismo. E a ansiedade financeira é uma realidade que 2023 promete trazer à casa de muitos portugueses.

A psiquiatra refere ainda que o stress na mulher é mais derivado por “fatores hormonais”, dando como exemplo a gravidez e a menopausa como fases mais ‘críticas’, mas também aponta os “fatores sociais, o ter de cuidar da casa” como gatilhos. Já eles, diz, “respondem mais ao stress no trabalho, ao divórcio, à perda de emprego”.

Mas o stress é um problema tanto para homem como para a mulher, sobretudo em períodos mais críticos e de maior incerteza. De acordo com o estudo STADA Health Report 2022, 47% dos adultos portugueses relataram que  os seus níveis de stress se agravaram desde o início da pandemia. Como se não bastasse, Portugal é o terceiro país mais stressado da Europa, revela um estudo da Eachnight, citado pelo ECO. Com piores níveis do que Portugal estão a Sérvia e a Letónia.

Daniela Costa Teixeira