Testes de mísseis e provocações aos vizinhos. Foi assim que a Coreia do Norte fechou 2022 e foi assim que abriu 2023, estreando um novo sistema de lançamento múltiplo que, segundo Kim Jong-un, pode alcançar qualquer parte da Coreia do Sul com ogivas nucleares táticas. O objetivo, esse, foi anunciado pelo próprio líder: ser a maior potência nuclear do mundo.

Sinais que prometem um clima tenso na região, já de si quente pelos vários exercícios militares conduzidos por Pyongyang, alguns dos quais ameaças diretas à Coreia do Sul, mas também ao Japão, que chegou a ver mísseis atravessarem a ilha, levando mesmo o país à ativação do estado de alerta.

Mas 2023 será também o ano do primeiro satélite militar norte-coreano. Pelo menos foi isso que prometeu Kim Jong-un, que quer mais mísseis balísticos a partir de submarinos e um novo tipo de míssil balístico intercontinental, o que poderá dar capacidade para conduzir lançamentos de forma mais secreta. Em paralelo, e segundo especialistas norte-americanos, Pyongyang pode também lançar o seu sétimo teste nuclear, que, a acontecer, será o primeiro desde 2017.

Se em 2020 foram feitos quatro testes de mísseis balísticos, em 2021 foram oito. No ano passado esse número subiu para perto de 100 disparos, chegando mesmo a 23 num só dia, num total superior a 40 testes. Entre esses estão os três mísseis que caíram no Mar do Japão no último dia do ano.

Um total que, desde 1984, perfaz mais de 270 lançamentos de mísseis e testes nucleares realizados pela Coreia do Norte, de acordo com o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. Na prática, um terço desses lançamentos e testes ocorreram num só ano: 2022. Além disso, mais de três quartos foram realizados desde 2011, altura em que Kim Jong-un assumiu os comandos do país.

O míssil balístico intercontinental é aquele que causa maior preocupação. Trata-se de um projétil que pode percorrer grandes distâncias (mais de cinco mil quilómetros), e que torna possível alvejar território norte-americano a partir de Pyongyang com uma ogiva nuclear.

Só no ano passado foram sete os lançamentos deste míssil que mereceram a presença de Kim Jong-un, o que mostra a importância dos testes, até porque o líder norte-coreano tinha defendido anteriormente o fim dos testes com armas nucleares e mísseis de longo alcance.

Entre os lançamentos mais temidos estiveram o Hwasong-17, batizado de “o monstro”, e que motivou, em março, a ida de Joe Biden à Coreia do Sul e ao Japão, e o Hwasong-12, que sobrevoou o arquipélago nipónico em outubro.

Depois de alguns anos aparentemente mais calmo durante a presidência de Donald Trump, com quem até se chegou a reunir pessoalmente, Kim Jong-un parece empenhado em mostrar ao mundo todo o seu poder militar, seja como provocação ou dissuasão. Resta esperar para perceber o que acontecerá em 2023.

António Guimarães