Em Portugal, cerca de 16% da população não consegue aquecer de forma adequada a sua habitação. Os dados, atualizados na semana passada pelo Eurostat, indicam que a tendência tem sido para a descida nacional deste indicador. Ainda assim, comparativamente com o resto da União Europeia (UE), Portugal continua no top 5 dos países cuja população apresenta maiores dificuldades no aquecimento.

Os dados dizem respeito ao ano de 2021 e concluem que houve uma descida efetiva desde os 17,5% registados em 2020, para os atuais 16,4%. No entanto, Portugal é o quinto país da UE onde a população apresenta mais dificuldades com o aquecimento da habitação, ficando apenas à frente da Grécia (17,5%), Chipre (19,4%), Lituânia (22,5%) e Bulgária (23,7%).

Num contexto marcado pela subida generalizada dos preços da eletricidade e da necessidade de poupar energia, os gastos com o aquecimento da habitação em Portugal entram em contraciclo com aquilo que são as necessidades atuais. Quem o diz é Mário Jordão, diretor executivo da Associação Portuguesa dos Fabricantes de Argamassas e etics (APFAC).

Representando uma associação especialista em soluções de isolamento térmico pelo exterior (ETICS), Mário Jordão sublinha que Portugal peca pelo baixo investimento nas chamadas soluções passivas de isolamento, em alternativa às soluções ativas. Isto é, a aposta na impermeabilização da casa (através de revestimentos por exemplo), contra a aposta em soluções ativas como o ar condicionado ou bombas de calor.

Para o representante setorial, o aquecimento da habitação torna-se mais rentável e eficiente, de um ponto de vista energético, através das soluções passivas. Mário Jordão acrescenta ainda que antes de ser lançada a iniciativa Edifícios Mais Sustentáveis, ou nas reuniões com o Fundo Ambiental antes do PRR, o maior investimento em soluções passivas foi precisamente uma das reivindicações da associação.

No entanto, “o que assistimos com o PRR foi precisamente o contrário. O resultado do PRR, em termos de ETICS, foi que as verbas para o isolamento representaram menos de 0,5%”, esclarece Mário Jordão. A agravar o problema existem ainda outras complexidades, garante.

No caso do Programa Edifícios Mais Sustentáveis, existe uma comparticipação máxima de 3 mil euros, sendo que a candidatura à referida comparticipação pode ser aceite, mas o valor investido pode não ser reembolsado caso os requisitos não sejam cumpridos. Adicionalmente, para o diretor executivo da APFAC este valor não é o suficiente para isolar uma vivenda, já que tal empreendimento ficará, “no mínimo, entre os 10 e os 12 mil euros”, refere.

Mário Jordão sustém que este limite de 3 mil euros, através de uma comparticipação de 85% do investimento feito, levanta outro problema, o incentivo às soluções ativas de aquecimento. O diretor executivo explica que, tendo em conta os limites do programa, o investimento em soluções como ar condicionado ou bombas de calor traduzem-se em investimentos “quase” gratuitos para o cidadão comum. O mesmo não é o caso quando se discutem soluções passivas.

Comprando equipamentos para aquecer, vamos todos os anos consumir a mesma fatura de eletricidade. O aparelho vai consumir sempre o mesmo porque não fizemos o investimento passivo, não impermeabilizámos a casa”, Mário Jordão, diretor executivo da APFAC.

Havendo lugar à impermeabilização, ao isolamento térmico e acústico, o representante setorial assegura que os gastos com consumos energéticos, ou com a reparação de danos na habitação, são reduzidos. Neste sentido, Mário Jordão apela à necessidade de aumentar os limites para ETICS “para que sejam razoáveis como existe no resto da Europa”, além de facilitar o processo.

Embora as ETICS representem uma solução de isolamento usada há 50 anos na Suíça e na Alemanha, o investimento no mercado português só está agora a ser feito, critica o diretor executivo da APFAC. Mário Jordão sublinha mesmo que as ETICS representam uma das famílias das argamassas que continua a crescer mesmo em tempo de crise, destacando para tal o ano de 2009 e o período de início da pandemia.

No entanto, o diretor executivo da APFAC destaca também que o setor tem sofrido com os aumentos de custos, em linha com o restante setor da construção. “houve matérias-primas que aumentaram mais de 40% e outras que aumentaram mais de 50%. Na eletricidade ainda foi mais”, explica. De forma complementar, é também esperado um aumento do custo do cimento já em janeiro na ordem dos 12%, algo que irá agravar a situação do setor, partilha.

Filipe Maria