A sede da Eurolocarno - Sociedade Imobiliária fica na rua da Palmeira, em Lisboa, mas na fachada não há qualquer indicação de que aqui funcione uma sociedade imobiliária. Apenas o registo de uma agência criativa.

Consultada a certidão comercial na conservatória do registo comercial, verifica-se que o ministro dos Negócios Estrangeiros adquiriu a primeira quota da empresa Imobiliária Eurolocarno em 2015 e não já depois de se ter tornado ministro da Defesa. 

O ministro dos Negócios Estrangeiros detém uma quota de mil euros a par com outro sócio, e divide a sociedade com mais seis sócios, que detêm uma quota de apenas 500 euros. 

Como se comprova por uma certidão publicada no portal da justiça, a empresa foi constituída por António João Barata da Silva Barão, que esteve envolvido num negócio que lesou o fundo de resolução do Novo Banco em 260 milhões de euros.

Em 2017, o Novo Banco vendeu 13.000 imóveis a um fundo anónimo. Foi o maior negócio imobiliário em Portugal nos últimos anos e a operação teve até um nome de códido dentro do banco "Portfólio Viriato".

As casas e terrenos foram vendidos muito abaixo do valor que estavam avaliados, de 613 milhões de euros: acabaram por ser vendidas por 364 milhões. António da Silva Barão e a mulher registaram cinco sociedades imobiliárias de uma só vez.

Mas de gerente em gerente, a Eurolocarno, que o ministro dos Negócios Estrangeiros declarou ao Tribunal Constitucional bem como ao Parlamento, só foi somando gestores com percursos que acabaram na Justiça.

Se em maio de 2015 o gerente era Silva Barão, menos de um mês depois a gerência passou para Marcos de Almeida Lagoa, também ele condenado por fraude fiscal. Só que neste caso a situação é mais grave.

Marcos Lagoa é ainda hoje sócio do ministro João Gomes Cravinho. Tem metade da quota do titular da pasta dos Negócios Estrangeiros, mas foi um dos 11 arguidos no processo dos CTT. Além disso, foi julgado por vários crimes económicos que terão causado 13,5 milhões de euros de prejuízo aos Correios num negócio de venda de dois imóveis da empresa: um dos edifícios dos CTT, em Coimbra, foi vendido por cerca de 15 milhões de euros e, no mesmo dia, voltou a ser vendido pela mesma empresa por 20 milhões.

Marcos Lagoa era responsável pelo fundo de investimento imobiliário que comprou o prédio dos CTT e foi condenado a entregar 20 mil euros ao Estado, suspeito de ter recebido uma comissão dos vendedores.

Contactado pela TVI, do mesmo grupo da CNN Portugal, o ministro Gomes Cravinho alega que não tinha conhecimento dos problemas judiciais dos seus sócios. Já após este contacto, o ministro sublinhou que a empresa Eurolacarmo "nunca teve qualquer problema com a justiça, tendo a sua situação judicial e fiscal regularizadas".

Gomes Cravinho acrescentou ainda que "tem declarado sempre" a sua participação na sociedade imobiliária nas várias declarações entregues ao Tribunal Constitucional - "uma participação minoritária no valor de 1000 euros, 20% do capital social" - tendo, afirma, "as obrigações fiscais em dia".

Andreia Jorge Luís / Notícia atualizada às 13:37 de segunda-feira