Pai amado descoberto: afinal era um assassino condenado que viveu uma vida secreta em fuga - TVI

Pai amado descoberto: afinal era um assassino condenado que viveu uma vida secreta em fuga

  • CNN
  • Hilary Whiteman
  • 14 mai 2023, 19:00
William Leslie Arnold
Foto US Marshals Service

William Leslie Arnold foi condenado a prisão perpétua em 1959 pelo homicídio dos pais.Depois viveu uma ida secreta. Até para a sua nova família.

Os factos básicos do caso expõem o adolescente americano William Leslie Arnold como um vilão assassino que matou os pais porque estes se recusaram a deixá-lo levar o carro a um cinema “drive-in” em 1958.

Com apenas 16 anos, Arnold enterrou os corpos no quintal da casa da família em Omaha, no Nebraska, Estados Unidos, e levou uma vida normal durante duas semanas, até ser confrontado e confessar o crime que o condenou a prisão perpétua.

A partir daí, a história de Arnold poderia ter seguido o caminho habitual de um condenado a prisão perpétua nos Estados Unidos - décadas de encarceramento antes de uma morte notada por alguns e lamentada por poucos.

Mas a fuga da prisão de Arnold, ainda jovem, em 1967, conduziu a um desfecho diferente, que acabou de forma incongruente na Austrália, e à morte de um homem já com um nome diferente, conhecido como um pai amado por uma família que não fazia ideia da sua vida secreta.

Os homicídios

Imagens a preto e branco da imprensa dos anos 50 mostram um rapaz de baixa estatura a ser levado para o jardim da sua casa, rodeado de polícias, enquanto aponta para o local onde enterrou os pais.

Geoff Britton, chefe do Gabinete de Apoio à Aplicação da Lei na Califórnia, recorda pormenores do caso com a vivacidade de quem passou anos a analisar os ficheiros.

Na noite dos crimes, Arnold matou os pais a tiro antes de pegar no carro e ir ver uma sessão dupla com a namorada do liceu - e antes de dizer a toda a gente - mesmo a familiares - que os pais tinham ido viajar.

Ele tinha matado os pais... e estava no drive-in a ver "The Undead" [“A Morta-Viva”]. Geoff Britton, investigador americano

“Ele tinha matado os pais. E ia enterrá-lo no quintal mais tarde nessa noite e estava no drive-in a ver ‘The Undead’ [“A Morta-Viva”]", disse Britton, que trabalhou no caso durante nove anos, de 2004 a 2013, no Departamento de Serviços Correcionais do Estado do Nebraska.

“Matar os pais por causa do poder usar o carro para ir ao cinema - isso não é normal. Fez-me pensar que algo mais se estaria a passar”, disse à CNN.

Na altura em que Britton começou a trabalhar no caso, Arnold já estava em fuga há mais de três décadas.

Em 1967, depois de ter cumprido apenas oito anos da sua pena de prisão perpétua, Arnold e um outro recluso, James Harding, comunicaram com alguém do exterior, através de anúncios colocados no jornal local, o Lincoln Journal Star, contou Britton.

“Consegui identificar a pessoa que os ajudou a obter o equipamento para sair da prisão - era um ex-recluso em liberdade condicional”, disse Britton, explicando que o recluso em liberdade condicional obteve as máscaras que os prisioneiros usaram para enganar os guardas que faziam a contagem diária dos efetivos na prisão.

"[Foi] semelhante ao filme 'Fuga de Alcatraz', com Clint Eastwood”, acrescentou Britton.

Os relatos dos jornais da época documentaram a sua ousada fuga por cima de uma vedação de 3,5 metros na área de baixa segurança da prisão, usando uma T-shirt para cobrir o arame farpado.

Houve buscas por terra e ar em quatro estados, com helicópteros, aeronaves, tropas de patrulha, delegados do xerife e agentes da polícia, segundo um artigo do Lincoln Journal Star de 15 de julho de 1967. Três meses mais tarde, o Omaha World-Herald citou um diretor de prisão dizendo que a fuga deles tinha sido a mais “limpa” entre todas sobre as da sua experiência.

As notícias dos jornais da altura documentaram a fuga por cima de uma vedação de 3,5 metros de altura. Cortesia: Omaha World Herald

Segundo Britton, os investigadores descobriram mais tarde que os fugitivos chegaram a Omaha e apanharam um autocarro para Chicago, onde se separaram, segundo Harding, que seria capturado no espaço de um ano.

Arnold pareceu pura e simplesmente ter desaparecido.

Ao longo dos anos, os investigadores seguiram várias pistas, incluindo rumores de que ele teria fugido para a América do Sul, embora não tenham encontrado provas de que ele lá tivesse estado.

Britton ficou tão obcecado com o caso que continuou a investigá-lo mesmo quando se mudou do Nebraska - e mais tarde foi posto em contacto com Matthew Westover, um delegado dos Estados Unidos no Nebraska, que disse à CNN que assumiu o caso em 2020.

“Um dos gajos deixou o escritório, e [quando uma pessoa sai] tem de entregar os seus casos. Então, um dos meus amigos deu-me este caso, como uma espécie de piada, tipo 'nunca vais encontrar este tipo'", contou Westover.

Westover leu no Omaha World-Herald notícias do repórter Henry J. Cordes, que cobriu o caso de forma extensiva numa série intitulada “O Mistério de Leslie Arnold”.

Um dos meus amigos deu-me este caso, como uma espécie de piada, tipo 'nunca vais encontrar este tipo’”. Matthew Westover, delegado

Através de numerosas entrevistas, Cordes descobriu uma história mais complicada do que muitos tinham sido levados a acreditar. Na série, Arnold foi retratado como um bom aluno que tinha uma relação difícil com os pais. O tiroteio, escreveu Cordes, ocorreu após uma discussão acesa entre Arnold e a sua mãe, que não aprovava a sua namorada.

Na prisão, Arnold seguiu as regras e poderia ter sido libertado mais cedo, escreveu Cordes. Era um músico dedicado e a sala de música da prisão, onde passava grande parte do seu tempo, tornou-se literalmente a sua janela de fuga.

Juntamente com as máscaras, o prisioneiro em liberdade condicional atirou serras por cima da vedação, que Arnold e Harding usaram para cortar as barras da janela antes de escalarem a vedação, segundo Cordes.

Quanto mais Westover lia, mais convencido ficava de que era o homem certo para encontrar Arnold.

“Desde o primeiro dia, fiquei agarrado”, disse ele.

Como a justiça foi chegando a Arnold

Na altura em que o caso chegou à secretária de Westover, o mundo tinha mudado.

Arnold pode ter usado anúncios classificados para escapar da prisão, mas, décadas depois, os crimes já não eram resolvidos folheando jornais antigos. Em 2020, os testes de ADN tinham-se tornado comuns, pelo que Westover pegou no carro e conduziu cinco horas através da fronteira para encontrar James Arnold, o irmão mais novo de William Leslie Arnold.

James Arnold não estava em casa quando os assassinatos foram cometidos, mas mais de 60 anos depois, ficou feliz em atender a um pedido de Westover para ter uma amostra de DNA, que o US Marshal carregou num site de ascendentes. O resultado não foi útil.

Determinado, Westover procurou ficheiros antigos do FBI e utilizou a investigação anterior de Britton para tentar reconstituir os movimentos de Arnold.

À medida que Westover aprofundava as suas investigações, a amostra de ADN que tinha carregado em 2020 acabou por encontrar uma correspondência. Em 2022, Westover recebeu um alerta de que o ADN de James Arnold tinha coincidido com outra amostra com semelhanças suficientes para ser um parente próximo.

“Reparei logo que tinha uma correspondência muito superior a tudo o que tinha tido antes. Era exatamente o que eu procurava”, disse Westover, que comunicou imediatamente a descoberta a Britton.

Westover disse que também recebeu um e-mail do homem que tinha feito o “upload”. Dizia: "Olá, estou a tentar obter mais informações sobre o meu pai. Ele era um órfão de Chicago'".

Passei-o ao Geoff e pensei: “É este o tipo. É impossível que não seja este o tipo.”

O homem por detrás da mensagem de correio eletrónico

O homem que enviou o e-mail era o filho de Arnold, cuja identidade tanto Westover como Britton têm o cuidado de proteger.

Westover disse que o filho não sabia que tinha enviado um e-mail a um agente US Marshal que tinha sido incumbido de localizar o seu pai. Segundo Westover, o filho presumiu que ele era um membro da família, pois tinha usado o nome de James Arnold para carregar o ADN.

O filho disse que queria saber mais sobre o pai, que ele conhecia como John Damon, que morreu em 2010.

Westover disse que trocou correspondência com muita cautela, para não alertar Arnold de que a justiça estava a aproximar-se - se ele estivesse, de facto, vivo.

“Se ele é assim tão esperto e foi capaz de iludir a polícia durante 50 anos, quem é que pode dizer que ele não fingiu a sua morte e todas as fotos?”, perguntou Westover.

Westover ficou finalmente convencido de que Arnold estava morto quando as autoridades locais confirmaram uma certidão de óbito - e foi nessa altura que Westover soube que tinha de contar ao filho de Arnold os pormenores do segredo mais obscuro do seu pai.

“Senti-me culpado. Quer dizer, ele estava a dar-me toda esta informação. E aqui estou eu a segurar a chave para o que ele precisava”, disse Westover.

“Senti-me culpado. Quer dizer, ele estava a dar-me toda esta informação. E aqui estou eu a segurar a chave para o que ele precisava”, Matthew Westover, agente US Marshal

“E, ao mesmo tempo, também me senti como que pressionado, em contrarrelógio, porque ele estava a dizer-me que estava a contactar todos os outros membros da família que não conhecia".

Westover disse que queria ser ele a falar-lhe do pai e organizou uma videochamada com o homem e a sua mulher. “Eu só queria ter a certeza de que ele não estava sozinho, porque, quer dizer, havia muita coisa para assumir”, contou.

Westover disse que fez o telefonema do seu carro, enquanto estava sentado na entrada da garagem, através de um telemóvel apoiado no painel de instrumentos.

“Mostrei-lhe quem era... e ele perguntou-me o que tinha (o pai) feito para estar na prisão. Então tive de dizer-lhe", conta. “Disse-lhe: 'Bem, ele era órfão. Ele não mentiu sobre isso, mas matou os pais, por isso é que era órfão'".

William Leslie Arnold - também conhecido como John Damon - morreu aos 69 anos e foi sepultado na Austrália, a milhares de quilómetros das paredes fortificadas da Penitenciária do Estado do Nebraska, onde poderia ter acabado os seus dias.

Agora que conhecem o seu pseudónimo, as autoridades americanas estão a reconstituir a vida de Arnold a partir da sua última localização conhecida em Chicago.

Westover diz que Arnold mudou de nome alguns meses depois de fugir da prisão em 1967. Britton diz que ele conseguiu um emprego num restaurante, onde conheceu a sua primeira mulher e se tornou pai dos seus quatro filhos.

Os investigadores dizem que depois se mudaram para Cincinnati, Miami e Los Angeles antes de se divorciarem em 1978. Os registos mostram que Arnold se mudou para a Nova Zelândia nos anos 90 e depois para a Austrália no final da mesma década, disse Westover.

Britton disse que sua família, incluindo a sua segunda mulher, não tinha conhecimento de sua vida anterior.

“O meu coração está com toda a família”, disse ele.

Westover diz que, de certa forma, está aliviado por Arnold estar morto - depois de conhecer a sua família, ele não gostaria de ter procurado a sua prisão e deportação para os Estados Unidos.

Britton sente o mesmo.

“O agente da polícia que há em mim sempre quis prendê-lo e trazê-lo para cá. Mas sabe, esse não foi o resultado”, disse ele.

“Mas tenho de vos dizer que já falei com a família dele várias vezes. É uma família incrível. E não vou falar muito sobre eles por questões de privacidade, mas o que vou dizer é o seguinte”…

“Penso que, em última análise, ele se tornou o pai que queria ser, ou aquele que ele desejava ter tido.”

“Porque, de tudo o que vi, parece que ele foi um bom provedor e um bom pai. Criou uns miúdos bem porreiros”.

O filho de Arnold, que pediu para não ser identificado para proteger a privacidade da sua família, recusou ser entrevistado para este artigo, mas forneceu à CNN uma declaração, que diz:

“Não há nenhuma etiqueta de aviso no kit de teste de ADN a dizer que se pode não gostar do que se vai encontrar”, disse. “Mas não me arrependo de o ter feito e estou contente por saber agora a verdade sobre o meu pai.”

“Embora seja chocante saber que a vida dele começou com um crime terrível, o seu legado é muito mais do que isso.”

“Quero que ele seja recordado por ter sido um bom pai e um bom provedor para nós, e por ter incutido em mim uma paixão pela música e uma vontade de ser sempre a melhor pessoa que poderei ser."

 

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