Costa tem mais do que uma crise de comunicação. E a “tampa pode saltar outra vez” - TVI

Costa tem mais do que uma crise de comunicação. E a “tampa pode saltar outra vez”

António Costa (Lusa)

Uma crise política tem sempre várias perspetivas. E, num Governo, onde se apostou forte na comunicação, essa parece ser uma falha evidente. De onde vêm e para onde vão as falhas deste Governo?

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É tempo de olhar para trás, analisar o que correu bem ou mal. “Foi uma catástrofe. Uma sucessão de equívocos, afirmações nem sempre lineares, contradições”, resume o consultor de comunicação Vítor Cunha.

Para analisar esta crise política, é preciso olhar a dois níveis: o da comunicação e o da coordenação política, avisa o especialista em comunicação Rui Calafate. Até porque “o grande pecado da maioria absoluta é não haver coordenação política, ao contrário do que acontecia com a geringonça, em que o Governo era obrigado a falar com outros partidos”.

E agora, o que há? “Ministros com rédea solta” e falta de “vasos comunicantes”. Dois ingredientes que, combinados, são a chama ideal para uma crise. É como nas crises matrimoniais: se está cada um por si e não se falam, tem tudo para dar errado.

A crise ficou tapada?

Qualquer crise tem um ponto de partida, um momento zero. Mas, para os especialistas, é difícil identificá-lo. E porquê? Porque esta instabilidade, esta vida de “casos e casinhos” já dura há demasiado tempo. É anterior a João Galamba, concordam todos. E mesmo às revelações da comissão de inquérito à gestão da TAP.

“Esta crise de comunicação do Governo tem tido várias gotas de água. Por isso é que ela está a extravasar e o seu controlo foi perdido. Apesar de haver antecedentes, essa falta de coordenação não foi estancada”, explica a consultora de comunicação Rita Serrabulho.

E a perspetiva é de que também está longe de terminar, tendo em conta que há muito para descobrir ainda na comissão de inquérito sobre a TAP. E quem fica a perder? O próprio Governo: “A gestão comunicacional e política tem sido a dos casos e casinhos, não tanto as iniciativas políticas”, diz Vítor Cunha.

Ou seja, o Governo até se pode esforçar para passar a imagem de que o país está a melhorar, de que há medidas relevantes. Mas, na espuma dos dias, a prioridade é sempre outra.

E esta crise ficou sarada? “Costa pôs uma tampa em cima do assunto. Mas se forem cometidos novos erros políticos, a tampa salta outra vez”, reconhece o socialista Marcos Perestrello. E concretiza: “O Presidente da República, apesar de ter sido bastante assertivo na sua intervenção, optou também por manter a temperatura baixa. Aceitou a descida de temperatura de Costa.”

Mas, mesmo quando o país inteiro parece não hesitar ao falar de uma crise, há sempre o outro prisma. Neste caso, o do Partido Socialista. “A expressão crise é uma redução da perspetiva do momento. O Governo deixou de cumprir alguma meta e está numa situação de fazer perigar os interesses nacionais? Não”, reage o socialista Luís Testa.

E é essa sempre a mensagem do Governo quando alguma coisa parece querer dar para o torto: o foco é trabalhar.

(Lusa)

Tanta gente a gerir a comunicação do Governo. E ainda assim falha?

Junho de 2022: era anunciada a contratação de João Cepeda como diretor de comunicação do Governo, para centralizar a comunicação do executivo. No fundo, colocar a equipa ministerial a falar a uma só voz, evitando as polémicas.

Além do diretor de comunicação e dos assessores de cada ministro, o executivo conta ainda com o apoio do experimentado consultor Luís Paixão Martins. Coloca-se então a pergunta: com tanta gente a gerir a comunicação do Governo, é compreensível uma crise como esta? Os especialistas ouvidos pela CNN Portugal admitem que não.

Rui Calafate lembra que a entrada de João Cepeda trouxe mudanças subliminares, como os governantes passarem a falar de pé após os conselhos de ministros ou uma preocupação maior com os cenários das suas intervenções. Mas parece faltar o mais essencial.

“É estranho. Fez-se uma aposta tendo como objetivo uma maior coordenação da comunicação do Governo. E o que se tem assistido é ao contrário. Há dois níveis de comunicação, a interna e a externa. E nenhum deles está a funcionar”, considera Rita Serrabulho, tendo em conta as inúmeras contradições que têm vindo a público. Exemplo simples: a existência de um parecer jurídico para os despedimentos com justa causa na TAP.

Mas é tudo culpa de quem gere a comunicação do Governo? De todo, dizem os especialistas. Os governantes também têm a sua quota neste problema. De novo as metáforas gastronómicas. “Diria que há um problema óbvio de conteúdo. Não se fazem omeletes sem ovos. Tem sido difícil fazer esta omelete. Os ovos são fracos”, aponta Vítor Cunha.

Rui Calafate é categórico: “A comunicação política, mesmo assim, é melhor que a coordenação política.”

Costa, o centralizador (e o controlo da narrativa)

“Sempre reconheci a António Costa esse perfil, que gosta de centralizar e de comunicar. Por isso é que me surpreende esta crise de comunicação no Governo. Tenho a sensação de que, por alguma razão, António Costa perdeu o pé”, diz Rita Serrabulho.

Depois da crise instalada, foi preciso “apagar o fogo”. E aí António Costa entrou com a postura que há muito nele se reconhece: a de centralizador. Após a reunião matinal com João Galamba, o encontro com o núcleo duro e a reunião com Marcelo Rebelo de Sousa, o primeiro-ministro falou ao país, revelando que segurava o seu ministro, apesar de toda a polémica em torno dele. Fê-lo nos jardins de São Bento, de pé, sem discurso escrito. Mas aquilo que podia parecer improviso foi bem ensaiado. Porque a mensagem a passar foi reforçada várias vezes.

Costa controlou em si a narrativa? “É um exemplo de boa comunicação. Conseguiu sair da pressão e encostar o Presidente às cordas”, considera Rui Calafate.

No dia seguinte, vários membros do Governo tinham agenda pública, incluindo António Costa. Quando questionados pelos jornalistas, todos os governantes responderam da mesma forma: algo como “o senhor primeiro-ministro já disse o que havia a dizer”. A estratégia de comunicação tornava-se clara à vista de todos. E Vítor Cunha conclui: “É um momento raro em que as coisas funcionam com alguma normalidade.”

“Acho que Costa assume o controlo deste momento político. É o reafirmar dos poderes conferidos ao primeiro-ministro, no sentido de dar cumprimento à vontade expressa nas urnas”, junta o socialista Luís Testa.

(Lusa)

Galamba: uma “tragédia em direto”

“A minha sensação é de que isto não foi um problema de comunicação. Foi um problema de erros que foram cometidos”, observa o socialista Marcos Perestrello. Quem, concretamente? A resposta sai sem dúvidas: “a conferência de imprensa de João Galamba” em que tentou explicar a polémica com o seu ex-assessor.

Entre os especialistas na área da comunicação, a sensação é a mesma: este é o momento que se deveria ter evitado a todo o custo. “Foi uma tragédia em direto, em que salpicou toda a gente”, classifica Rui Calafate.

A sensação deste consultor é de que Galamba terá agido sem consultar quem de direito, inclusive a coordenação de comunicação do Governo. Mas Vítor Cunha lembra que o ministro não terá agido sozinho, até porque tentou contactar António Costa e outros governantes para perceber o que fazer. Se o primeiro cenário foi aquele que realmente aconteceu, é tudo ainda mais grave, dizem.

Porque, em comunicação, há um mandamento que devia ser claro: por mais especialistas que haja, basta alguém agir sozinho para fazer cair toda a estratégia.

(Lusa)

Porquê um “céu bonito” e um “gelado” no meio disto tudo?

Dois momentos tomaram conta das redes sociais, após o anúncio de que Galamba se manteria no Governo. Costa a fugir às perguntas dos jornalistas sobre a crise política com esta frase: “Ontem foi ontem, hoje é um novo dia. Olhe para o céu, está tão bonito, adeus”. E Marcelo a sair à rua, a dizer que os portugueses não precisavam de “ficar preocupados”, enquanto ele comia um gelado. Até partilhou os sabores, mas nunca falou sobre o braço de ferro com São Bento.

Os especialistas em comunicação dizem que, dos dois lados, houve uma tentativa de passar uma imagem de normalidade, de que o conflito estava ultrapassado, recorrendo a metáforas de fácil compreensão – por muito que elas tenham gerado piadas e críticas nas redes sociais.

E agora, qual é a melhor estratégia para o que se segue? “A melhor comunicação é o som do silêncio”, diz Rui Calafate. O PS, pelo menos, parece estar a seguir a lição: foi o único partido que não reagiu ao raspanete do Presidente da República. “A coisa mais inteligente que vi fazer nestes dias em termos de comunicação foi a não resposta do PS ao discurso de Marcelo”, junta Rita Serrabulho.

 

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